Opinião
O coração pode, por vezes, apresentar alterações na sua atividade elétrica, originando o que chamamo

Nesta condição, o coração bate de forma irregular e descoordenada, especialmente nas aurículas (as cavidades superiores do coração), que deixam de contrair de forma eficaz. Isso favorece a formação de coágulos no interior do coração, que podem ser libertados para a circulação e causar a obstrução de uma artéria. A consequência mais grave é o acidente vascular cerebral (AVC) isquémico, causado pela interrupção do fluxo sanguíneo a uma parte do cérebro.

A FA é uma doença frequente: afeta cerca de 2,5% da população portuguesa com mais de 40 anos e mais de 6% acima dos 60 anos. Esta arritmia aumenta em cinco vezes o risco de AVC isquémico e é responsável por cerca de um terço dos AVCs em Portugal. Além disso, os AVCs associados à FA são habitualmente mais graves, com maior risco de incapacidade permanente ou morte.

A FA também está associada a outras complicações graves, como a insuficiência cardíaca e a demência.

Entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de FA encontram-se: envelhecimentohipertensão arterialdiabetesobesidadeapneia do sonodoenças cardíacastabagismo e consumo excessivo de álcool, entre outros.

Em muitos casos, a FA é assintomática. Quando se manifesta, pode provocar palpitações (sensação de batimento acelerado ou irregular), tonturascansaço ou até desmaios. O diagnóstico requer a realização de um electrocardiograma (ECG) ou Holter-ECG (registo contínuo durante 24 horas).

Após o diagnóstico, na maioria dos casos é recomendada a toma de anticoagulantes para reduzir o risco de AVC. Existem também medicamentos e procedimentos minimamente invasivos que ajudam a controlar os sintomas e a prevenir complicações.

adoção de um estilo de vida saudável e o controlo dos fatores de risco vascular são fundamentais para prevenir o aparecimento da FA. Em caso de sintomas, procure avaliação médica. Se lhe for prescrito um anticoagulante, não interrompa a terapêutica sem indicação médica.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
21 de junho
A Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) promove, no próximo dia 21 de junho, um seminário dedicado às Leucemias,...

A Fundação Cidade de Lisboa acolherá este seminário, que tem como objetivo dotar doentes, cuidadores e profissionais de saúde de um conhecimento mais completo sobre as leucemias, abordando as suas variadas tipologias, os tratamentos mais avançados e os desafios que se colocam no dia a dia de quem vive com estas doenças.

Ao longo do dia, os participantes terão a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos sobre diversos aspetos das Leucemias, Síndromes Mielodisplásicos e Neoplasias Mieloproliferativas.

O seminário terá início às 9h30 com a apresentação de Filipa Monteiro, do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPOL), que abordará os cuidados a ter ao longo do dia, em doença ativa, numa perspetiva da enfermagem.

De seguida, Luís Monteiro, da ULS de São José e do Grupo Português de Leucemias Agudas (GPLA), explorará as diferenças entre as Leucemias Agudas no diagnóstico e tratamento. Joana Desterro, do IPO Lisboa e do Grupo Português Neoplasias Mieloides Crónicas (GPNMC), dará continuidade ao tema, focando-se nas Leucemias Mieloide Crónica (LMC) e Linfocítica Crónica (LLC).

Guilherme Sapinho, da ULS Santa Maria e do GPNMC, apresentará a diversidade das Síndromes Mielodisplásicos (SMD) e a sua implicação no prognóstico e tratamento. Christopher J. Saunders, do Hospital CUF Descobertas e do GPNMC, dará continuidade a este tema e Ximo Duarte, do IPO de Lisboa falará sobre a imunoterapia como 2º linha de tratamento: o que esperar de tratamentos inovadores para leucemias agudas pediátricas.

Depois do almoço, Carolina Garcez, sobrevivente de leucemia mieloide aguda, entrevistará Pedro de Vasconcelos da ULS Santa Maria sobre o Transplante de Medula Óssea: o que esperar no procedimento e na recuperação. Teresinha Simões, Assistente Graduada de Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Dr. Alfredo da Costa, abordará, de seguida, temas sensíveis como intimidade e tratamento, desafios e soluções em oncosexologia e criopreservação, e a esperança no futuro da oncologia.

Haverá ainda tempo para as intervenções de Diana Alexandre da Fundação Champalimaud que falará sobre nutrição e suplementação no tratamento da leucemia, com foco na saúde intestinal, e de Joana Lemos do Centro de Reabilitação Profissional, que abordará o tema do regresso ao trabalho ou escola, explorando a possibilidade de planear o regresso com segurança, os direitos legais do trabalhador ou estudante com doença crónica e como negociar adaptações no horário e funções.

A APCL convida todos os interessados a participar nesta iniciativa, contribuindo para o progresso do conhecimento e melhoria contínua dos cuidados prestados na área das leucemias. A inscrição no evento pode ser feita através do preenchimento do formulário online.

 

Opinião
A esteatose hepática, antes designada como “fígado gordo”, corresponde à acumulação de gordura em ma

A Doença Hepática Esteatósica, é uma doença silenciosa, que habitualmente não causa qualquer sinal ou sintoma. Pode ter várias origens e fatores de risco, sendo as mais comuns, o consumo de álcool, a obesidade e a Diabetes. 

De acordo com o Global Liver Institute, trata-se de uma epidemia global, estimando-se que, até 2030, mais de 357 milhões de pessoas sejam afetadas por esta doença. Em Portugal, os dados publicados em 2020, apontavam para uma prevalência estimada de esteatose hepática em quase 38% dos adultos, com 17% deles, com “fígado gordo não alcoólico”.

A prevalência da esteatose hepática em pessoas sem consumo habitual de álcool, ou apenas com pequenos consumos, relacionados sobretudo com fatores de risco como por exemplo, obesidade, diabetes, aumento das gorduras no sangue, tem vindo a aumentar globalmente. Estimando-se que afete atualmente cerca de um terço da população mundial global, embora variando consoante as populações, registou um aumento significativo nos últimos anos e deverá afetar uma parte ainda maior da população, no futuro. Este aumento está intimamente ligado ao crescimento marcado da prevalência dos fatores de risco, como a obesidade, a diabetes tipo 2 e a chamada síndrome metabólica, relacionada com a perda de eficácia da insulina (insulino resistência) e associada ela própria a riscos cardíacos e metabólicos marcados.

A esteatose hepática surge, na maioria dos casos, devido a hábitos de vida não saudáveis, diretamente relacionados com estilos de vida menos saudáveis, nomeadamente a alimentação com excesso de calorias e uma vida sedentária, que concorrem para o surgimento da esteatose hepática, havendo ainda a evidência de riscos genéticos em muitos doentes, como no caso de pessoas sem excesso de peso, onde a doença pode surgir também.

O consumo de açucares em excesso (doces e por exemplo refrigerantes ricos em açúcar), e de alimentos ricos em gorduras, é tão prejudicial para a saúde do fígado como o consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Assim, a prevenção passa essencialmente pela adoção de uma alimentação saudável, com menor consumo de gorduras, hidratos de carbono, alimentos processados e ultraprocessados, muito ricos em energia, sendo recomendado reforçar a ingestão de alimentos naturais menos processados, de vegetais e de fibras. De igual modo, deve-se reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, ou mesmo manter a abstinência alcoólica e manter uma prática regular de exercício físico.

É importante consultar o seu médico assistente regularmente, para prevenir os fatores de risco da doença, fazer exames periódicos de rotina e detetar precocemente a doença. A saúde é um todo e ao adotar um estilo de vida saudável, protege o fígado e simultaneamente favorece o bom funcionamento de todo o organismo.

A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) tem desenvolvido campanhas de sensibilização no âmbito do Dia Internacional da Doença Hepática Esteatósica, alertando para a relevância de prevenir, detetar e tratar precocemente esta doença silenciosa que afeta uma parcela significativa da população portuguesa.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Opinião
A obesidade é um dos grandes desafios de saúde pública dos nossos dias.

Recentemente, a microbiota intestinal tem sido considerada como um desses fatores, dada a sua influência no metabolismo energético, nos mecanismos que regulam a ingestão alimentar, no sistema imunitário, na inflamação e muitos outros.

Os estudos são já hoje claros a demonstrar diferenças importantes entre a microbiota (conjunto de microrganismos presentes no intestino) de indivíduos obesos e indivíduos com peso ajustado, mostrando que desequilíbrios microbianos (disbiose) podem estar associados a desregulações metabólicas, muitas delas centrais na fisiopatologia da obesidade.

Estudos em animais mostraram que ratinhos criados sem microbiota intestinal, quando alimentados com muita energia, apresentavam pouca tendência para ganho de massa gorda, mas, quando os seus intestinos eram colonizados com microbiota de outros ratinhos obesos, então o ganho de peso era evidente, mesmo sem consumo mais elevado de energia.

Parece então ficar claro que a microbiota por si só é capaz de, em parte, modificar o metabolismo energético. Sabe-se também que as bactérias intestinais têm um papel fundamental na fermentação das fibras que consumimos e da qual resultam metabolitos muito benéficos, como os ácidos gordos de cadeia curta (ex: butirato ou propionato) que têm um papel importante na regulação da saciedade e no controlo do açúcar no sangue, além de contribuírem para menores níveis de inflamação no organismo. Além disso, a microbiota pode influenciar a produção de hormonas intestinais que controlam a fome e a saciedade, como o GLP-1 e o PYY, que também podem contribuir para redução/aumento da ingestão alimentar, bem como melhorar o metabolismo da glicose, dois fatores essenciais para o controlo do peso. Parece, assim, mais uma vez ficar clara a associação entre a microbiota e o excesso de peso.

Persiste, no entanto, a dúvida acerca de qual o real papel das bactérias intestinais no ganho de peso e também, qual o papel que podem ter no tratamento da obesidade. Será que alterando a nossa microbiota, conseguimos controlar o peso? As respostas ainda são poucas.

É certo que a microbiota intestinal é altamente sensível ao que comemos. Uma alimentação rica em fibras (baseada em frutas, legumes, leguminosas, cereais integrais) e gorduras saudáveis, como o azeite, favorece o crescimento de bactérias benéficas. A Dieta Mediterrânica assenta nestes princípios e é hoje considerada a intervenção nutricional com mais evidência científica para melhorar a saúde metabólica. Importa referir que dietas muito restritivas, por se tornarem desequilibradas nutricionalmente, não mostraram benefícios claros e duradouros em humanos no que diz respeito à saúde da microbiota.

Existem já estudos que tentam compreender o real benefício de adicionarmos suplementos de probióticos à nossa dieta com vista ao melhor controlo de peso. Por exemplo, estudos sobre o impacto da bactéria Akkermansia muciniphila mostraram resultados interessantes na melhoria da resistência à insulina e na redução de marcadores de inflamação, mas ainda estamos longe de conseguir afirmar que a toma de certas estirpes bacterianas consegue contribuir de forma significativa para a perda de gordura corporal. Não impede isto que recomendamos o consumo de alimentos com propriedades probióticas (ex. kefir, iogurte…) e prebióticas (ex. alho, cogumelos frescos) para prevenir e tratar quadros de obesidade.

Podemos afirmar com algum grau de certeza que a microbiota intestinal é, sem dúvida, uma peça a considerar no complexo contexto da obesidade, mas assumi-la como agente determinante para controlo de peso é demasiado simplista num quadro que se sabe verdadeiramente multifatorial. Apostar numa alimentação equilibrada, rica em fibras e pobre em alimentos ultraprocessados, juntamente com a prática de exercício físico, será a melhor estratégia para prevenir e controlar a obesidade.

O Mês da Saúde Digestiva é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia. Saiba mais em www.saudedigestiva.pt .

 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado
A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) está a consciencializar para a esteatose hepática, mais conhecida como...

De acordo com Paula Peixe, presidente da APEF, “a Doença Hepática Esteatósica é uma doença que resulta da acumulação de gordura no fígado. Em Portugal, estima-se que mais de 1 milhão e 200 mil pessoas apresentam esteatose hepática que poderá evoluir para cirrose”.

“Se antes esta doença era associada apenas ao consumo excessivo de álcool, hoje sabemos que, na maioria dos casos, resulta de hábitos de vida pouco saudáveis, estando diretamente relacionada com o tipo de alimentação e com o sedentarismo. Se 30% das nossas crianças têm excesso de peso, é fundamental agir desde cedo para garantir adultos mais saudáveis”, explica Paula Peixe.

E conclui: “Esta é uma doença prevenível e evitável. A melhor forma de combater esta realidade é através da prevenção, que deve começar nas idades mais jovens. Com esta iniciativa, pretendemos transmitir mensagens claras que reforcem a importância de prevenir e tratar precocemente o fígado gordo”.

A Doença Hepática Esteatósica, também conhecida por fígado gordo, é frequentemente assintomática e pode afetar pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos. Esta condição é causada pelo excesso de gordura acumulada no fígado, que leva à inflamação e fibrose (cicatrizes) deste órgão. Num estado mais avançado, pode provocar Cirrose Hepática ou mesmo Cancro do Fígado.

De acordo com o Global Liver Institute, mais de 115 milhões de pessoas em todo o mundo já vivem com esta condição, e estima-se que até 2030 esse número ultrapasse os 357 milhões.

Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) está a promover um novo mestrado em Medicina e Ciência Regulamentar,...

Este curso tem, também, por objetivos promover a integração dos profissionais em equipas de pesquisa e inovação em ciência regulamentar e de facilitar a candidatura a projetos de investigação na área.

Ao longo de quatro semestres, a formação irá aprofundar temáticas como fundamentos do sistema regulamentar, normas de orientação científica, ensaios clínicos, produtos órfãos, pediátricos e doentes frágeis, farmacovigilância, reembolso e sustentabilidade.

Podem candidatar-se os titulares de licenciaturas/Mestrado Integrado ou equivalente legal em Medicina, e de outras áreas das Ciências da Saúde e áreas afins, biomatemática, engenharia biomédica, bem como profissionais da indústria farmacêutica ou autoridades regulamentares.

A Ciência Regulamentar é uma área fortemente multidisciplinar cuja finalidade é a construção de um sistema regulamentar que incentive a inovação e eficácia no processo de desenvolvimento clínico dos produtos em saúde como os medicamentos e os dispositivos médicos. Saiba mais em: https://www.medicina.ulisboa.pt/ciencia-regulamentar.

Opinião
Nos dias quentes de Verão, há um gesto que já faz parte da nossa rotina: aplicar protector solar ant

O que diz a ciência?

Um estudo publicado recentemente no ‘Journal of Investigative Dermatology’ trouxe novas luzes sobre o papel do nosso microbioma cutâneo — o conjunto de microrganismos que vive na pele. Investigadores descobriram que uma bactéria comum e inofensiva, Staphylococcus epidermidis, possui a capacidade de produzir uma enzima chamada urocanase. Esta enzima decompõe um composto chamado ácido cis-urocânico, que se forma na pele quando exposta aos raios ultravioleta B (UVB).

Porquê esta descoberta é importante? O ácido cis-urocânico, quando acumulado, pode enfraquecer as defesas da pele, diminuir a imunidade local e promover inflamações. Ao degradar esta substância, as bactérias actuam como uma espécie de escudo natural, reduzindo os efeitos nocivos da exposição solar. Para além disso, o estudo destaca que este mecanismo ajuda a regular a resposta imunitária da pele, tornando-a mais resistente e equilibrada.

 

O valor do nosso microbioma cutâneo

Durante muitos anos, associámos bactérias a doenças e sujidade. Hoje, a ciência tem vindo a mostrar que, no equilíbrio certo, estas pequenas criaturas são essenciais para a nossa saúde. No caso da pele, as bactérias “boas” ajudam a manter a barreira cutânea, combatem microrganismos patogénicos e, como agora sabemos, até participam na defesa contra os raios solares.

Esta nova descoberta pode abrir caminho a futuras terapias ou produtos que reforcem o papel protector do microbioma. Imagina-se, por exemplo, o desenvolvimento de cosméticos ou probióticos tópicos que aumentem a presença destas bactérias benéficas — uma abordagem complementar à protecção solar tradicional.

 

Protecção natural… mas não suficiente!

É importante, contudo, não criar uma falsa sensação de segurança. Apesar do potencial protector destas bactérias, este mecanismo natural não substitui o uso de protector solar com factor de protecção adequado. Os danos provocados pelos raios UV — incluindo o envelhecimento precoce da pele e o risco de cancro cutâneo — exigem medidas activas e comprovadas de protecção.

Portanto, mesmo com este fascinante escudo biológico, o conselho dos especialistas mantém-se: usar protector solar, evitar exposição prolongada nas horas de maior intensidade solar e cuidar da saúde da pele em geral, incluindo o respeito pelo seu microbioma.

 

Reflexão final:

Esta descoberta recorda-nos que o nosso corpo é uma verdadeira maravilha da natureza — um ecossistema complexo e inteligente. Saber que a nossa pele alberga bactérias que trabalham silenciosamente para nos proteger reforça a importância de cuidarmos dela de forma equilibrada, sem excessos de limpeza que possam perturbar este delicado equilíbrio.

Ao mesmo tempo, devemos manter uma atitude informada e responsável: celebrar as capacidades naturais do nosso corpo, sim — mas nunca esquecer que a protecção solar convencional continua a ser indispensável.

 

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As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) promove, no dia 4 de julho, a reunião “Obesidade e Gastrenterologia – Vamos...

Com a participação de especialistas das áreas da gastrenterologia, endocrinologia, fisioterapia, nutrição e psicologia, o encontro visa atualizar conhecimentos sobre a obesidade e as abordagens terapêuticas mais atuais, promovendo uma perspetiva multidisciplinar e centrada no doente.

“A obesidade é uma doença crónica, grave e difícil de tratar, e que tem, como sabemos, um impacto profundo na saúde digestiva, estando na origem de várias doenças como o refluxo gastroesofágico, o fígado gordo e alguns tipos de cancro, incluindo os do esófago, cólon, reto e pâncreas. Com esta reunião, queremos promover uma abordagem integrada e multidisciplinar, reforçando a importância da colaboração entre especialidades para oferecer respostas terapêuticas mais eficazes”, afirma Marília Cravo, presidente da SPG.

O programa terá início com a sessão "Obesidade: conceitos e objetivos terapêuticos", moderada por Marília Cravo e José Silva Nunes, presidente da SPEO, que contará com a intervenção de vários especialistas. Em debate, estarão temas como a história do tratamento da obesidade em Portugal, a definição da obesidade como doença, os tipos de comportamentos alimentares e o papel da psicologia e do exercício físico na gestão da doença.

Segue-se a sessão “Obesidade: tratamento para além do comportamento", sob a moderação de Alexandre Ferreira, gastrenterologista, e Carlos Oliveira, presidente da ADEXO. O momento será dedicado às novas abordagens terapêuticas, incluindo farmacoterapia, endoscopia bariátrica, cirurgia metabólica e o acesso a tratamento em 2025.

O evento terminará com uma discussão final sobre o futuro do tratamento da obesidade em Portugal.

Mais informações e inscrições disponíveis em: https://spg.eventkey.pt/geral/inseririnscricao.aspx?evento=88&formulario=133&lingua=pt-PT

Opinião
Numa época de transformação vertiginosa na medicina, em que os avanços tecnológicos parecem querer u

Mas há mais: no seio desta revolução, uma nova protagonista desponta — a nano-robótica — que nos promete intervir a escalas microscópicas com uma precisão nunca antes sonhada. E se em algumas especialidades médicas este movimento já vai lançando raízes firmes, importa agora reflectir sobre o que poderá significar para um campo específico, mas vasto e fundamental: a otorrinolaringologia.

Neste artigo de opinião, proponho-me justamente explorar as potencialidades e os desafios desta evolução tecnológica, com especial ênfase naquilo que poderá revolucionar, nos próximos anos, a prática otorrinolaringológica.

 

O encontro entre medicina e engenharia: uma aliança natural?

À primeira vista, o encontro entre o mundo da saúde e o das engenharias poderá parecer, a alguns espíritos mais clássicos, uma aproximação forçada, quase antinatural. A medicina é, afinal, uma arte ancorada na relação humana, no olhar atento do clínico, no toque que ausculta, no ouvido que escuta, na empatia que compreende. A engenharia, por seu turno, constrói, automatiza, mede, quantifica.

Contudo, é precisamente nesta aparente dissonância que reside a força da aliança. A robótica médica não se propõe substituir o médico, mas antes ser um prolongamento do seu olhar e da sua mão. Do mesmo modo, a electrónica médica não pretende reduzir a prática clínica a meros algoritmos, mas oferecer instrumentos que ampliem as capacidades de diagnóstico e intervenção.

Ora, quando falamos de (nano)robótica, falamos já de uma nova dimensão desta colaboração: uma capacidade de intervir a níveis tão finos e delicados que se tornam quase invisíveis a olho nu — e é aqui que a otorrinolaringologia se revela um terreno fértil e particularmente promissor.

 

Um campo de intervenção vasto e delicado

A otorrinolaringologia (ou ORL, para os mais habituados ao jargão médico) é, por natureza, uma especialidade de interfaces e fronteiras. Lida com regiões do corpo humano que são, ao mesmo tempo, extremamente complexas e anatomicamente densas: o ouvido, o nariz, os seios perinasais, a faringe, a laringe. Estruturas onde milímetros contam e onde o acesso cirúrgico é, por vezes, um verdadeiro exercício de virtuosismo técnico.

Não surpreende, pois, que a ORL tenha sido uma das primeiras especialidades a abraçar, de forma pragmática, as possibilidades da robótica. Já hoje se encontram em uso plataformas robóticas assistidas em cirurgia de cabeça e pescoço, que permitem abordagens minimamente invasivas, com ganhos inequívocos em termos de precisão, redução de complicações e recuperação do doente.

Mas este é apenas o início. A próxima fronteira — aquela que poderá efectivamente revolucionar a prática — está no domínio da nano-robótica e da electrónica médica avançada.

 

Nano-robôs: os "cirurgiões invisíveis"

Imagine-se, por um momento, um conjunto de nano-robôs — dispositivos com dimensões da ordem dos micrómetros ou nanómetros — capazes de navegar autonomamente ou semi-autonomamente pelas vias respiratórias superiores, ou até pelo ouvido interno, para efectuar intervenções de precisão. Eliminar tecidos patológicos, libertar fármacos de forma ultra-localizada, limpar detritos celulares ou corrigir microlesões — tudo isto sem necessidade de incisões maiores, sob controlo remoto e monitorização em tempo real.

Embora ainda estejamos numa fase embrionária, a investigação em curso em vários centros de excelência internacionais aponta para a viabilidade, a médio prazo, de tais aplicações. Nano-robôs revestidos com materiais biocompatíveis, accionados por campos magnéticos ou estímulos luminosos, capazes de interagir com os tecidos de forma direccionada, já foram demonstrados em modelos laboratoriais.

Em ORL, as aplicações potenciais são fascinantes: imagine-se, por exemplo, o tratamento não invasivo de tumores das vias aéreas superiores, ou a administração precisa de terapias regenerativas no ouvido interno, onde a actual farmacologia sistémica é notoriamente ineficaz devido às barreiras anatómicas.

 

Electrónica médica: um ouvido que nunca dorme

Se os nano-robôs são os "cirurgiões invisíveis", a electrónica médica avançada é, por assim dizer, o "sentido alargado" da prática clínica. Dispositivos de monitorização contínua, implantes inteligentes, biossensores vestíveis — tudo isto já começa a integrar-se no quotidiano dos cuidados de saúde.

Em ORL, a electrónica tem permitido progressos notáveis em áreas como os implantes cocleares, que hoje oferecem uma qualidade auditiva cada vez mais próxima da natural. Mas a revolução está longe de se esgotar aqui. Estão em desenvolvimento sensores integrados capazes de monitorizar, em tempo real, parâmetros fisiológicos do ouvido médio e interno, identificando precocemente alterações que possam indiciar doenças inflamatórias ou degenerativas.

Do mesmo modo, dispositivos electrónicos miniaturizados, implantáveis ou portáteis, poderão vir a desempenhar um papel crucial na monitorização das apneias do sono, ou na gestão personalizada de patologias como a rinite crónica e a sinusite.

 

O desafio ético e humano

Como em qualquer avanço disruptivo, a adopção da (nano)robótica e da electrónica na medicina — e, em particular, na otorrinolaringologia — não está isenta de desafios éticos e humanos. A personalização extrema da terapêutica, a recolha massiva de dados fisiológicos, a automação parcial de procedimentos tradicionalmente manuais, colocam questões de privacidade, consentimento e mesmo da redefinição do papel do médico.

Será crucial garantir que estas tecnologias se mantenham ao serviço do doente, e não como um fim em si mesmas. A humanização dos cuidados deve continuar a ser o fio condutor da prática médica, mesmo num cenário de crescente digitalização e robotização.

 

Um futuro próximo... ou já presente?

Será esta revolução um cenário distante, reservado ao domínio da ficção científica? Em boa verdade, não. Embora algumas aplicações de nano-robótica ainda estejam em fase de investigação, outras — como a robótica assistida em cirurgia ORL, os implantes auditivos de última geração, ou os sensores médicos integrados — já fazem parte do presente.

O ritmo de desenvolvimento tecnológico, aliado a uma crescente interdisciplinaridade entre engenheiros, médicos, biólogos e cientistas de materiais, faz antever que nos próximos cinco a dez anos poderemos assistir a uma verdadeira inflexão na prática da otorrinolaringologia.

Naturalmente, a integração destas tecnologias requererá formação adequada, adaptação das infra-estruturas de saúde e uma reflexão contínua sobre o equilíbrio entre tecnologia e relação humana. Mas é precisamente por isso que este é um momento crucial para a comunidade médica e para todos os profissionais de saúde: o momento de se preparar, de se envolver, e de moldar activamente este futuro.

 

Conclusão:

A (nano)robótica e a electrónica estão, indubitavelmente, a transformar a medicina — e a otorrinolaringologia não é, nem será, excepção. As possibilidades que se abrem são imensas: cirurgias menos invasivas, terapias mais eficazes e personalizadas, monitorização contínua, melhor qualidade de vida para os doentes.

Como sempre, caberá aos médicos, engenheiros e sociedade em geral garantir que estas ferramentas sejam usadas com sabedoria, ética e um espírito genuinamente humanista. Porque, em última análise, a tecnologia só faz sentido se servir aquilo que sempre foi — e sempre será — o centro da medicina: o ser humano.

 

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Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
UMinho
Estudo incidiu no Norte de Portugal e insere-se no mapeamento em curso pela Europa. Hoje é o Dia Mundial do Ambiente, dedicado...

Um estudo liderado pelo Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Escola de Ciências da UMinho revela a presença preocupante de microplásticos em organismos de rios do Norte de Portugal, mesmo em zonas ecologicamente preservadas. A investigação saiu na reputada revista científica “Hydrobiologia” e teve a parceria do Laboratório da Paisagem, do Município de Guimarães e da ARNET - Rede de Investigação Aquática.

Os cientistas avaliaram 15 troços dos rios Ave, Selho e Vizela, em maio e junho de 2023, em especial larvas de mosquito (Chironomidae) e vermes (Oligochaeta) nos sedimentos e que são fulcrais na cadeia alimentar fluvial. “Detetámos microplásticos em todos os organismos das amostras, independentemente da qualidade ecológica do rio", afirma o primeiro autor do estudo, Giorgio Pace. "Este resultado sugere que a presença de microplásticos não está exclusivamente associada à ocupação urbana do solo, pode também resultar de atividades agrícolas, industriais e domésticas, além de falhas na gestão de resíduos”, acrescenta.

Nem os ecossistemas mais preservados escapam à poluição invisível. Ou seja, começa a atingir cursos de água com diversidade biológica, níveis adequados de oxigênio, sem poluentes tóxicos em excesso e capazes de se autorregular. Além do impacto físico, os microplásticos são veículos de poluentes perigosos, como metais pesados, que podem acumular-se nos organismos e propagar-se na cadeia alimentar. "Compreender os mecanismos de acumulação e eliminação de microplásticos é essencial para avaliar os riscos ecotoxicológicos e desenvolver medidas eficazes", sublinha o cientista do CBMA.

Os investigadores recomendam uma abordagem integrada que combine ações preventivas – como a redução de plásticos descartáveis e a regulação de produtos que libertam microplásticos – com medidas corretivas, como barreiras físicas e melhorias no tratamento de efluentes. Entre as estratégias de prevenção, destaca-se também a melhoria da gestão de resíduos sólidos e o controlo de efluentes urbanos e industriais.

O estudo decorreu no âmbito dos projetos REACTivar (com apoio do Município de Guimarães), BluePoint (com fundos comunitários do Interreg) e RIPARIANET (com verbas da FCT, da rede Biodiversa+ e da Comissão Europeia), que está a analisar rios de Itália, Espanha, Alemanha, Suécia e Portugal, permitindo comparar padrões de contaminação a larga escala.

 

Milhões de plásticos ameaçam rios e oceanos, diz ONU

Cerca de 11 milhões de toneladas de plástico entram anualmente nos ecossistemas aquáticos e, se houver ações significativas globais, essa quantidade pode aumentar 50% até 2040, alerta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A mensagem é destacada para o Dia Mundial do Ambiente, 5 de junho, este ano subordinado ao tema “Combater a poluição plástica”. A campanha deste Dia propõe medidas como reduzir o consumo e recusar plásticos descartáveis, repensar o seu uso quotidiano e reciclar corretamente.

UMinho
Inês Laranjeira admite que a planta pode ser ainda benéfica em queimaduras, na psoríase e em veterinária.

Uma tese doutoral da Escola de Ciências da Universidade do Minho demonstrou que a carqueja, planta comum nos bosques, é benéfica na cicatrização de feridas em diabéticos e na redução da dor. O estudo piloto confirmou ainda, nos testes em animais, as propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes daquela planta, que pode ser usada em produtos farmacêuticos, alimentares e cosméticos.

Este trabalho de Inês Laranjeira foi orientado por Filipa Pinto Ribeiro e Alberto Dias, no âmbito do doutoramento em Cadeias Produtivas Agrícolas, e realizado no Centro de Biologia Molecular e Ambiental. Teve o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a parceria das universidades de Macau (China) e Federal de Juiz de Fora (Brasil). A pesquisa revelou também as mais-valias medicinais das plantas alecrim-do campo e estrela-do-egipto.

Dentre as diversas análises efetuadas, Inês Laranjeira incorporou o extrato de carqueja num creme e aplicou-o em feridas de animais com diabetes tipo 2 e osteoartrose. “Tínhamos três grupos: num aplicamos o creme com extrato, noutro o creme sem extrato e no terceiro não tratamos; concluímos que as feridas cicatrizavam significativamente mais rápido no primeiro grupo”, afirma a cientista, que prossegue os estudos no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da UMinho, com Filipa Pinto Ribeiro.

As autoras acreditam que o creme pode ser igualmente benéfico na cicatrização de queimaduras e na psoríase em humanos ou mesmo em veterinária. “Este creme tópico com extrato de carqueja é fácil de aplicar pelo dono do animal e evita outras intervenções, porém é difícil se falarmos em tratar feridas nos animais de produção, pode haver implicações na carne ou leite”, explica Filipa Pinto Ribeiro.

O composto tem potencialidades clínicas, mas não se provou ainda benefícios estéticos como o tratamento de rugas ou facial. A planta pode ser incorporada em champôs ou em formulações como suplementos nutricionais, por exemplo, sendo utilizada regularmente na medicina (auxilia na digestão, é dietética, ajuda no controlo da hipertensão e colesterol) e na cozinha tradicional portuguesa.

Por outro lado, a tese de Inês Laranjeira comprovou os efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios do alecrim-do campo e da estrela-do-egipto. No primeiro caso, ajuda também a controlar a hiperglicemia, crucial para melhorar a cicatrização em feridas diabéticas. Já a estrela-do-egipto trava ainda a inflamação crónica ligada às feridas diabéticas, auxiliando no processo de recuperação dos tecidos.

Os próximos passos da investigação poderão incluir técnicas avançadas como abordagens ómicas e modelagem computacional para entender melhor as vias moleculares envolvidas. As plantas medicinais e tradicionais têm ganho peso na economia rural, no turismo cultural e no comércio internacional. Há por isso um esforço para padronizar o cultivo, o processamento e a formulação dos extratos vegetais, garantindo qualidade, segurança e eficácia, reduzindo efeitos adversos, valorizando a sustentabilidade e contribuindo para novas terapias e medicamentos baseados em produtos naturais.

 

Parentalidade no centro da agenda
Amanhã, dia 5 de junho, a partir das 16h00, o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, recebe um evento nacional que pretende...

Numa altura em que o acentuado declínio das taxas de natalidade se afirma como um dos maiores desafios em matéria de saúde pública e sustentabilidade social, é urgente acelerar o desenvolvimento de políticas e soluções inovadoras que ajudem a inverter esta tendência.

“A fertilidade deixou há muito de ser apenas uma questão estatística: trata-se de um tema estrutural, com implicações profundas na demografia, na economia e na organização social do país. Nesse sentido, é urgente atuar e envolver todo o tecido empresarial para contribuir com iniciativas que ajudem as famílias para inverter esta tendência demográfica negativa”, afirma Luís Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR), entidade líder deste movimento.

O programa do evento inclui momentos de inspiração e debate em torno do papel das empresas no apoio à parentalidade. Um dos destaques será a apresentação oficial do Movimento +Fertilidade pela Associação Portuguesa de Fertilidade (APFertilidade), seguindo-se uma intervenção dedicada ao tema “O papel das empresas na sociedade moderna”. O ponto alto da tarde será uma mesa-redonda que reunirá empresas já aderentes ao movimento para discutir o impacto das boas práticas na retenção de talento.

A fechar o encontro, a SPMR fará uma análise crítica aos principais tópicos debatidos, deixando um apelo à ação coletiva como resposta concreta ao panorama atual da fertilidade em Portugal.

Este será também o momento simbólico de reforço Movimento +Fertilidade — a assinatura, pelas empresas, de uma carta de compromisso que convida empresas e instituições a adotarem medidas concretas que favoreçam a parentalidade.

A iniciativa é promovida pela APFertilidade, pela SPMR e pela Ordem dos Médicos, com o apoio de diversas entidades públicas e privadas.

Mais informações e inscrições disponíveis em: inscricoes-movimentomaisfertilidade.pt

74% dos votos
Carlos Cortes foi ontem reeleito Bastonário da Ordem dos Médicos para o mandato 2025-2029. A eleição decorreu entre os dias 29...

“Quero manifestar a minha profunda gratidão aos cerca de dois mil médicos que, voluntariamente e com um extraordinário sentido de compromisso, colocaram o seu tempo, conhecimento e dedicação ao serviço da Ordem dos Médicos, aceitando candidatar-se aos diversos órgãos. Eles são a expressão da força, da vitalidade e da relevância social da Ordem dos Médicos. Cumprimento todos, vencedores e vencidos e todos estão chamados a participar ativamente na Ordem dos Médicos”, sublinha Carlos Cortes.

Para o Bastonário reeleito, é “urgente recuperar o orgulho dos médicos, reforçar o seu sentido de pertença, unir a classe e afirmar uma liderança próxima, exigente e verdadeiramente independente. Para isso, assumiremos como prioridades fundamentais a alteração do Estatuto da Ordem dos Médicos, a afirmação e proteção inequívoca do Ato Médico e a construção de uma Nova Carreira Médica, justa, dignificada e adaptada aos desafios do presente e do futuro”.

Ao tomar conhecimento dos resultados eleitorais, Carlos Cortes reforça a sua visão para o futuro: “Queremos uma Ordem dos Médicos forte, mobilizadora e interventiva, sempre ao serviço dos médicos, centrada nos doentes e na defesa intransigente da qualidade da Saúde em Portugal”.

“A nossa missão é clara: lutar por um futuro melhor para os médicos e garantir que a Saúde continue a ser um pilar essencial do Estado Social português”, afirma o Bastonário. 

Carlos Cortes acrescenta que “a dignificação da carreira médica, o apoio consistente à formação médica, uma estratégia nacional robusta para a humanização da Medicina, o reforço atento da ética e deontologia médica, um plano efetivo de coesão territorial para a carreira médica e o fórum ‘Um Rumo para a Saúde’ constituirão os principais eixos de atuação para os próximos quatro anos”.

 

Prof. João Espregueira-Mendes
No dia 11 de Junho, em Munique (Alemanha), o Prof. João Espregueira-Mendes (Fundador da Clínica Espregueira, no Porto) toma...

Depois de uma eleição disputada, 114 países escolhem pela primeira vez um português para este prestigiado cargo. João Espregueira-Mendes já presidiu à Sociedade Europeia (ESSKA) de 2012 a 2014. É a primeira vez que é eleito um Presidente da Península Ibérica e será a primeira vez que alguém fará as duas presidências: Europeia e Mundial.

A propósito deste acontecimento João Espregueira-Mendes refere: “É um orgulho enorme e uma honra presidir à Sociedade Mundial de Traumatologia Desportiva. A presidência roda pelos 5 continentes e, portanto, um europeu é eleito de 10 em 10 anos. Por isso não posso estar mais contente”.

 

ANADIAL
O mais recente episódio do podcast “À Conversa sobre Diálise”, promovido pela Associação Nacional de Centros de Diálise ...

Ao longo da conversa, o convidado recorda os principais momentos da evolução da hemodiálise em Portugal, desde a quase inexistência de resposta nos anos 70 à atual rede de cuidados considerada uma das mais avançadas da Europa. “Os doentes renais crónicos portugueses tinham de ir para Espanha para receber tratamento. Viviam em exílio clínico”, recorda. O surgimento de clínicas privadas de hemodiálise em Portugal esteve na origem da criação da ANADIAL em 1985.

Entre os marcos mais significativos, Abel Bruno Henriques destaca a introdução do preço compreensivo, em 2008, que passou a integrar, num valor único, todos os componentes do tratamento: sessões de diálise, transporte, medicação, entre outros. “Até então, o Estado pagava por tratamento individual. Esta mudança trouxe estabilidade ao setor e ganhos significativos em qualidade e transparência. Portugal foi o primeiro país da Europa a implementar este modelo”, sublinha.

Apesar da qualidade reconhecida da rede de centros privados de hemodiálise, que é responsável por mais de 90% dos tratamentos, o ex-secretário geral da ANADIAL alerta para a urgência de revisão do modelo de financiamento. “Para manter a qualidade dos cuidados prestados, é essencial atualizar os valores pagos pelo Estado”, afirma.

O podcast “À conversa sobre Diálise” comemora o 40.º aniversário da ANADIAL e tem como objetivo abordar a evolução do tratamento da doença renal crónica ao longo das últimas quatro décadas. Convida mensalmente um especialista para debater temas relevantes para doentes renais, profissionais de saúde e o público em geral.

O novo episódio já está disponível no YouTube e Spotify.

Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) anuncia o seu primeiro Curso de Especialização em Medicina Humanitária...

Dirigido a profissionais das áreas da Medicina, Enfermagem e Ciências da Saúde, este curso foca-se no desenvolvimento de competências teóricas e práticas indispensáveis para uma resposta rápida e eficaz em cenário de crise. 

De acordo com Susana Mendes Fernandes, docente da FMUL e membro da Comissão Coordenadora do curso, “com a duração de dois semestres, o programa conta com um corpo docente altamente qualificado e experiente, e resulta parcerias estratégias com instituições dedicadas a emergência, saúde pública e proteção civil”.

E acrescenta: “Além dos módulos teóricos, o curso distingue-se pela forte componente prática, através da realização de exercícios de campo que simulam cenários reais de crise, garantindo uma preparação sólida, realista e alinhada com as exigências do terreno.”

Com esta formação, a FMUL reforça o seu compromisso com a inovação pedagógica e com a formação de profissionais capazes de enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais exigente e vulnerável a emergências complexas.

Saiba mais em: https://www.medicina.ulisboa.pt/medicina-humanitaria-conflito-e-catastrofe

Opinião
O fígado é um dos órgãos mais incríveis do corpo humano tal como Pablo Neruda destaca na sua Ode ao

Mas quando a gordura se acumula em excesso neste órgão vital, estamos perante uma condição chamada esteatose hepática – mais conhecida como fígado gordo.

 

O que causa o fígado gordo?

Existem várias causas possíveis, mas as mais comuns são:

  • Obesidade, sobretudo abdominal;
  • Consumo excessivo de álcool;
  • Sedentarismo;
  • Dieta rica em gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados;
  • Diabetes tipo 2 e colesterol elevado;

Todos estes fatores contribuem para a resistência à insulina e a inflamação crónica, criando o cenário ideal para o fígado começar a acumular gordura. Estima-se que entre 70 a 90% das pessoas obesas desenvolvam esta doença.

 

Como se diagnostica?

A esteatose hepática é assintomática. Muitas vezes é descoberta por acaso, através de análises de sangue ou numa ecografia abdominal – o exame mais usado para o diagnóstico.

O fígado gordo é silencioso. Muitas vezes é descoberto por acaso, numa ecografia abdominal. Pode estar associado a alterações nas análises do fígado.

 

Devo preocupar-me?

Sim. O fígado gordo é um sinal de desequilíbrio metabólico. Está associado a:

 

  • Dobro do risco de desenvolver diabetes mellitus tipo 2
  • Doença cardiovascular (ex: enfarte do miocárdio)
  • Evolução para fibrose (cicatrizes no fígado), cirrose e, em casos raros, cancro do fígado

A fibrose pode ser avaliada de modo simples com a realização de exames como a elastografia hepática transitória (ou Fibroscan®).

Embora apenas 5 a 10% dos casos evoluam para cirrose hepática, a elevada prevalência da doença (30% da população!) faz com que o impacto seja grande a nível de saúde pública.

 

Como posso prevenir ou reverter a situação?

Aqui está a boa notícia: o fígado gordo é reversível na maioria dos casos com mudanças simples no estilo de vida.

5 passos para um fígado mais saudável:

  1. Perder peso de forma gradual – perder 5 a 10% do peso corporal já faz diferença
  2. Adotar uma alimentação equilibrada – rica em frutas, legumes, cereais integrais e proteínas magras
  3. Evitar gorduras saturadas e açúcares adicionados
  4. Fazer atividade física regular
  5. Reduzir ou eliminar o consumo de álcool

 

Um problema sério, mas com solução

O fígado gordo é um alerta silencioso, mas que não deve ser ignorado. Está nas nossas mãos prevenir complicações e melhorar a saúde do nosso corpo. Pequenas escolhas diárias fazem toda a diferença.

O Mês da Saúde Digestiva é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Saiba mais em www.saudedigestiva.pt .

 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Saúde oral
Está em curso a implementação de três novas especialidades: Endodontia, Prostodontia e Saúde Pública Oral.

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) deu posse às novas direções dos colégios das especialidades de Cirurgia Oral, Odontopediatria, Ortodontia e Periodontologia, numa cerimónia que decorreu sábado no Templo da Poesia, em Oeiras. Os novos corpos dirigentes vão cumprir mandato até 2029, num momento em que a OMD prepara a implementação de três novas especialidades: Endodontia, Prostodontia e Saúde Pública Oral.

Os colégios de especialidade desempenham um papel fundamental na valorização profissional, na definição de boas práticas clínicas e na promoção da literacia em saúde oral junto da população. A nova configuração representa um compromisso renovado com a qualidade da medicina dentária em Portugal, garantindo que a especialização continua a evoluir em benefício dos utentes e da saúde pública. Atualmente, a OMD reconhece 358 médicos dentistas especialistas: Cirurgia Oral (141), Odontopediatria (64), Ortodontia (94) e Periodontologia (59).

“Sempre estivemos disponíveis para colaborar com os sucessivos governos na prestação de cuidados de saúde oral com qualidade, mas lamentamos que se continue a desperdiçar estas competências. Se, por um lado, o Governo reconhece as nossas capacidades ao aprovar novas especialidades, por outro continua sem dar uma resposta cabal às necessidades das populações”, afirma o bastonário Miguel Pavão.

O evento ficou ainda marcado pela entrega da Bolsa João F. C. Carvalho, uma distinção atribuída a três médicos dentistas, como forma de incentivo à formação e à produção técnico-científica na área da medicina dentária.

Este ano, o júri elegeu as candidaturas de Mariana Neves da Silva (Doutoramento em Medicina e Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), Celina Pereira (Pós-Graduação em Ortodontia pela Universidade de Oviedo) e Tomás Tavares Martins (Especialização em Prótese Bucofacial e Oclusão pela Universidade Complutense de Madrid), num total de 24 candidaturas recebidas.

O valor das bolsas de formação atribuídas é de 2.500 euros para a primeira candidata e de 1.250 euros para a segunda e terceiro candidato.

A bolsa de formação da Ordem dos Médicos Dentistas tem o nome de João F. C. Carvalho, o primeiro presidente da Associação Profissional dos Médicos Dentistas, cujo trabalho e legado contribuíram de forma decisiva para a afirmação da medicina dentária.

Esta bolsa foi anunciada pela atual direção na tomada de posse dos órgãos sociais, em 2020.

Estudo
Uma média de três anos até ao diagnóstico e quase dois até ao início do tratamento farmacológico. Este é um dos dados...

Realizado em 22 países europeus e promovido pela Plataforma Europeia de Esclerose Múltipla (EMSP), o estudo recolheu respostas de mais de 17 mil pessoas, 785 das quais em Portugal. Pela primeira vez, é possível ter um retrato aprofundado do impacto real – físico, emocional e social – dos sintomas da doença na vida de quem convive diariamente com a EM em Portugal.

Este estudo fornece uma visão concreta sobre os desafios enfrentados por pessoas com EM. A demora no diagnóstico e no acesso a tratamentos específicos pode comprometer a gestão de todos os sintomas que afetam a sua vida diária. Estas barreiras colocam em causa a eficácia das intervenções clínicas e aumentarão o impacto negativo da doença na qualidade de vida das pessoas afetadas, quer doentes, quer os seus cuidadores. É urgente agir para garantir cuidados de saúde e sociais mais céleres, acessíveis e integrados.”, destaca Magda Fonseca, investigadora na área da Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e responsável pela implementação do estudo em Portugal.

 

Diagnóstico tardio e acesso limitado a tratamentos farmacológicos inovadores

O tempo médio entre o aparecimento dos primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico é de cerca de três anos, um atraso que compromete as possibilidades de intervenção precoce e eficaz. Já o início do tratamento com as Terapias Modificadoras da Doença (TMDs) só acontece, em média, 1,7 anos após o diagnóstico. “10% dos inquiridos esperaram mais de 6 anos para iniciar a terapêutica medicamentosa. Entre os doentes que nunca iniciaram medicação, 52% indicam nunca ter recebido prescrição médica, 22% referem receios quanto à sua administração, 6% reportam que o tipo de TMD prescrita não estava disponível e 6% alegam não ter condições financeiras para suportar os custos.

É urgente garantir um acesso mais equitativo e célere ao diagnóstico e tratamento da EM, bem como melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e doentes. Continuamos a encontrar barreiras injustificáveis num país que pretende garantir cuidados de saúde para todos”, afirma Alexandre Guedes da Silva, presidente da SPEM.

 

Sintomas invisíveis, mas incapacitantes

A fadiga, os problemas sensoriais, as dores, os distúrbios do sono e o défice cognitivo são os sintomas mais comuns entre os doentes portugueses. A média é de 13 sintomas relatados por pessoa, afetando significativamente a qualidade de vida. Quanto aos sintomas mais debilitantes, destacam-se a fadiga, as alterações motoras e os problemas no equilíbrio.

As diferenças entre géneros, faixas etárias e situação profissional revelam um impacto desigual da doença: as mulheres relatam mais fadiga e dor, enquanto os homens enfrentam maiores dificuldades de mobilidade. Os doentes entre os 18 e os 35 anos são os que manifestam menos sintomas, exceto a ansiedade, em oposição ao que acontece na faixa etária dos 51 aos 65 anos, na qual os sintomas tornam-se mais intensos com exceção da ansiedade. Devido à EM, 1 em cada 5 participantes não está a trabalhar, apresentando estes doentes a maioria dos sintomas, exceto a ansiedade.

Além disso, 7% dos inquiridos desconhecem que tipo de EM têm, o que levanta questões preocupantes sobre a literacia em saúde, a comunicação médica e o estigma associado à doença.

Este desconhecimento é alarmante. É essencial promover campanhas de esclarecimento, reforçar a formação dos profissionais de saúde e garantir que as pessoas com EM compreendem o seu diagnóstico e as opções de tratamento disponíveis”, alerta o presidente da instituição.

 

Prestação de cuidados de saúde precisa ser melhorada

Em média, cada pessoa com EM está acompanhada por quatro profissionais de saúde, sendo o neurologista o mais comum (99%). Apesar disso, apenas 70% consideram que recebem cuidados de saúde satisfatórios.

De notar que 19% dos doentes não recebe qualquer tratamento ou cuidado de saúde. As principais razões para não utilizarem nenhum tratamento específico são: a percecionada falta dessa necessidade, a incapacidade financeira para a sua aquisição e a ausência de prescrição médica.

 

Realidade dos cuidadores e contexto social

O estudo revela também lacunas no apoio social: 12% das pessoas que necessitam de cuidadores não têm qualquer assistência e apenas 9% contam com apoio regular, maioritariamente prestado por familiares ou amigos. Mesmo entre quem está acompanhado, o suporte semanal ronda as 31.2 horas.

 

Um em cada três doentes não está satisfeito com a gestão dos seus sintomas

Os inquiridos reportaram que os sintomas com pior índice de satisfação quanto à sua gestão são a disfunção sexual, a fadiga e o défice cognitivo, enquanto os tremores, a incapacidade motora e os problemas com as mãos e braços são os sintomas mais bem geridos.

 

Um retrato nacional que exige ação

Com base neste retrato real e atual da EM, o estudo mostra que existem áreas prioritárias de intervenção em Portugal. É urgente reforçar a aposta no diagnóstico atempado, através da capacitação dos profissionais de saúde e da desmistificação da doença; garantir um acesso mais célere e equitativo aos medicamentos, com o apoio de mais ensaios clínicos, uma maior comparticipação do Serviço Nacional de Saúde e a eliminação de barreiras administrativas; investir na literacia em saúde e na qualidade da comunicação entre médicos e doentes; apoiar cuidadores formais e informais com medidas eficazes e sustentáveis; e, finalmente, promover um sistema de cuidados mais integrado, humano e centrado nas reais necessidades das pessoas com EM.

É com este compromisso que a SPEM — que celebra este ano 40 anos de trabalho junto da comunidade da Esclerose Múltipla — continua a assumir um papel ativo na defesa dos direitos dos doentes e na promoção de políticas públicas mais justas, inclusivas e transformadoras.

 

Sobre o estudo IMSS - “Impact of Multiple Sclerosis Symptoms”

O estudo “Impact of Multiple Sclerosis Symptoms” (IMSS) foi promovido pela EMSP, com o apoio de 24 organizações europeias, incluindo a SPEM. Em Portugal, a recolha de dados decorreu entre maio e agosto de 2023.

A nível europeu, os resultados revelam um cenário preocupante: o tempo médio até ao diagnóstico da doença é de até três anos; um em cada quatro doentes está impedido de trabalhar devido à EM e 13% das pessoas com a doença nunca receberam cuidados específicos para gerir os sintomas. Apenas 52% consideram que os seus cuidados de saúde são bem coordenados.

 

Link para o estudo completo: https://spem.pt/compreender-o-impacto-dos-sintomas-da-esclerose-multipla-em-portugal/

 

Opinião
'Um alerta para repensar os limites da fertilização artificial e a responsabilidade ética da ci

Nos últimos dias, um caso verídico que envolve reprodução medicamente assistida abalou profundamente a comunidade científica e a opinião pública. Um único doador de esperma foi responsável pela concepção de, pelo menos, 67 crianças em oito países europeus entre 2008 e 2015. Vinte e três dessas crianças herdaram uma mutação genética grave, associada à síndrome de Li-Fraumeni, e, até agora, dez delas já desenvolveram diferentes tipos de cancro, incluindo leucemia e linfoma não-Hodgkin.

O caso não é apenas trágico a nível individual e familiar. Ele levanta questões profundas e desconfortáveis sobre os limites éticos, científicos e naturais da reprodução assistida. O que falhou neste processo? Será suficiente limitar o número de filhos por doador? Ou estaremos perante um problema mais vasto, que envolve a forma como substituímos — por conveniência ou necessidade — os mecanismos naturais de seleção por processos médicos e laboratoriais que ainda não compreendemos completamente?

 

Uma tragédia genética com nome próprio: síndrome de Li-Fraumeni

A síndrome de Li-Fraumeni é causada por mutações no gene TP53, que tem uma função essencial: produzir uma proteína supressora de tumores. Quando este gene falha, as células podem crescer de forma descontrolada, originando cancros em idade precoce — muito antes de se manifestarem na maioria da população. Esta condição hereditária é rara, mas os seus efeitos são devastadores: quem a possui tem uma probabilidade elevadíssima de desenvolver múltiplos tipos de cancro ao longo da vida.

A mutação do TP53 não é de fácil deteção, especialmente se o doador for jovem, assintomático e sem histórico familiar conhecido de doença oncológica. Contudo, o risco de ignorar esta possibilidade, como agora se verifica, é enorme.

 

Quando a ciência falha na prevenção

Os bancos de esperma são, por norma, vistos como espaços altamente controlados, com testes laboratoriais que garantem a qualidade genética e infecciosa das amostras. No entanto, este caso revela que, em 2008, a triagem genética realizada era limitada. A mutação do gene TP53, apesar de já ser conhecida na literatura científica, não integrava os painéis de teste de rotina, o que levou à disseminação involuntária desta condição hereditária por via das fertilizações realizadas.

É importante referir que, desde então, os testes genéticos evoluíram significativamente. Mas essa evolução tecnológica não é acompanhada, em muitos casos, por uma regulação eficaz ou por reflexão ética adequada. A ciência é rápida a inovar, mas lenta a impor prudência.

 

Seleção natural vs. seleção laboratorial: o que perdemos quando intervimos?

Na reprodução natural, existe uma forma de seleção biológica que não é perfeita, mas que tem sido refinada ao longo de milhões de anos de evolução. Os espermatozóides mais viáveis, em princípio, atingem o óvulo e dão origem a uma nova vida. Problemas genéticos graves, muitas vezes, resultam em falhas de implantação ou em abortos espontâneos precoces, agindo como filtros naturais contra certas mutações.

Na fertilização in vitro (FIV), e mais ainda na técnica de ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozóide), essa seleção natural é praticamente eliminada. Um técnico de laboratório escolhe, com base em critérios morfológicos microscópicos, o espermatozóide que será utilizado — sem saber o que esconde o seu ADN. Esse processo pode permitir a fecundação de células com anomalias que, naturalmente, seriam excluídas.

Não se trata de demonizar a reprodução assistida, que representa uma bênção para milhares de casais inférteis. Mas é fundamental reconhecer que, ao ultrapassarmos os mecanismos naturais, devemos estar preparados para assumir responsabilidades acrescidas — científicas, éticas e sociais.

 

A questão do número de descendentes: um risco evitável

Este caso torna evidente outro problema: a ausência de limites rigorosos sobre o número de fecundações permitidas por cada doador. Em muitos países europeus, não há legislação clara que imponha restrições eficazes. Permitir que um único doador gere dezenas de filhos espalhados por vários países não só aumenta o risco de disseminação de mutações genéticas, como cria potenciais perigos futuros de consanguinidade entre meio-irmãos sem conhecimento comum.

Alguns países, como a Holanda, limitam o número de famílias a 12 ou 25 por doador. Esta prática deveria ser alargada e uniformizada em toda a Europa. A regulação deve ser internacional, porque o comércio de gâmetas é, hoje, global.

 

E as crianças? E os pais?

Neste debate, é fundamental colocar no centro a saúde das crianças nascidas por estes métodos. Muitas famílias recorrem a fertilização assistida com confiança total na ciência, acreditando que os riscos são mínimos e controlados. O que este caso demonstra é que essa confiança nem sempre está justificada.

As clínicas devem ser mais transparentes. Os pais devem ser informados dos riscos — mesmo que residuais — e as crianças devem ter acesso, no futuro, a informação genética sobre a sua origem. A opacidade do sistema actual pode ser reconfortante a curto prazo, mas perigosa a longo prazo.

 

Que medidas são necessárias?

1. Triagem genética mais abrangente: Os testes aos doadores devem incluir um número mais alargado de mutações genéticas potencialmente graves, mesmo que raras, como a do gene TP53.

2. Limites legais mais claros e rigorosos: Deve haver um número máximo de filhos por doador, com registo obrigatório e centralizado por país — e partilhado entre países.

3. Aconselhamento genético obrigatório: Antes da utilização de esperma doado, os receptores devem ser informados por profissionais especializados dos riscos associados.

4. Transparência com as famílias: O histórico médico e familiar do doador deve ser plenamente partilhado, ainda que de forma anonimizada.

5. Criação de bases de dados seguras: Registos nacionais e internacionais devem ser criados para evitar duplicação de doadores e permitir monitorização da saúde das crianças ao longo da vida.

 

Conclusão: até onde devemos ir?

Este caso não é apenas um alerta; é um espelho. Mostra-nos até que ponto a ambição da ciência, quando não acompanhada por reflexão ética e cautela biológica, pode produzir consequências devastadoras. A fertilização assistida é, sem dúvida, uma conquista da medicina moderna. Mas não podemos continuar a tratá-la como um processo meramente técnico, onde tudo é possível porque tudo é viável.

A natureza tem os seus mecanismos de proteção. Quando os ultrapassamos, devemos fazê-lo com humildade, prudência e responsabilidade. O futuro da reprodução humana depende da capacidade de equilibrar o progresso científico com o respeito pelas complexidades da vida. E, acima de tudo, com o compromisso inabalável de proteger aqueles que ainda não têm voz: os filhos do futuro.

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Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.

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