Francisco Miranda Rodrigues
Psicólogo e especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações iniciou funções em janeiro. Foi bastonário da...

O psicólogo Francisco Miranda Rodrigues, ex-bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, é o novo diretor executivo da Ordem dos Médicos Dentistas. O especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações assume agora a gestão e liderança da estrutura interna da instituição. 

"Estou muito satisfeito com a oportunidade e o desafio que me foi colocado pelo bastonário Miguel Pavão. Estou comprometido em contribuir para o processo de simplificação e digitalização da OMD, bem como para a inovação em toda a organização, com vista a prestarmos um serviço cada vez melhor aos membros e principalmente cumprirmos, de forma exemplar, com as atribuições de interesse público que nos foram confiadas. Para isso, investiremos no desenvolvimento das pessoas e das equipas como pilar essencial da instituição", afirma Francisco Miranda Rodrigues.

Formado em psicologia pela Universidade de Lisboa, Francisco Miranda Rodrigues tem especializações em gestão, recursos humanos e ciências comportamentais em instituições de prestígio como a AESE Business School, a Universidade Católica e a Warwick Business School. Detém mais de duas décadas de experiência como cofundador e direção de diversos projetos e organizações associativas e empresariais. Durante este período, o psicólogo lidera iniciativas estratégicas, algumas reconhecidas internacionalmente, incluindo a implementação de sistemas digitais pioneiros e programas de bem-estar organizacional. Entre outros, é autor do livro ‘Como Gerir Pessoas’. 

Francisco Miranda Rodrigues acompanha a Ordem dos Psicólogos Portugueses desde a sua criação em 2008, inicialmente nas funções de tesoureiro e, depois, diretor executivo. É eleito bastonário em dezembro de 2016, mantendo-se no cargo até final de 2024.

Desde 2018, representa o Conselho Nacional das Ordens Profissionais (CNOP) no Conselho Nacional de Educação e, desde 2021, é membro do Comité de Acompanhamento dos programas Compete 2030 e Pessoas 2030, por nomeação do CNOP. É ainda, desde 2022, presidente da Federação Ibero-Americana das Associações de Psicologia.

Recomendações e Práticas Actuais
A presente edição das “Recomendações Terapêuticas para os Tumores do Trato Geniturinário” tem a ambi

Devido à abrangência dos temas abordados, não é possível destacar novidades específicas. A Oncologia, como sabemos, caracteriza-se pela constante evolução, com avanços frequentes e significativos (embora nem todos os novos desenvolvimentos tenham o mesmo impacto). No entanto, essas inovações estão refletidas ao longo de cada capítulo, assim como os desafios que encontramos em algumas áreas. Em cada secção, além da Terapêutica, são abordados temas essenciais como Diagnóstico, Epidemiologia e outros aspetos fundamentais, sempre com uma forte vertente multidisciplinar. Isso visa refletir de forma fiel a prática clínica em Oncologia, onde o trabalho em equipa e a integração de diversas áreas do conhecimento são cruciais para uma abordagem holística dos doentes.

É natural que cada nova edição seja também um momento de consciencialização da comunidade sobre os tumores do trato geniturinário, promovendo a divulgação científica, a literacia em saúde, o reconhecimento dos fatores de risco, o diagnóstico precoce e outras questões de relevância para os profissionais de saúde, tão bem vertidas na nova edição agora publicada.

Dessa forma, esperamos que esta obra seja, de facto, um recurso valioso para todos os profissionais de saúde interessados no acompanhamento e no cuidado de doentes com tumores do trato geniturinário, contribuindo para a melhoria contínua da prática clínica e para o avanço do conhecimento.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
European Autism GEnomics Registry
A Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) integra o projeto europeu European Autism GEnomics Registry (EAGER),...

O projeto, que conta com o envolvimento de uma equipa de investigação da Universidade de Coimbra, liderada pelo professor Miguel Castelo-Branco, docente da FMUC e diretor do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT) do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), pretende recolher informações genéticas de pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Esta base de dados permitirá aprofundar o conhecimento sobre as condições genéticas associadas ao autismo e promover o avanço de ensaios clínicos mais eficazes e personalizados.

Segundo Miguel Castelo-Branco, “há evidência crescente da necessidade de personalizar as abordagens clínicas e, como tal, a recolha de uma grande quantidade de dados genéticos e clínicos será determinante para o desenvolvimento de novas respostas terapêuticas para esta condição”.

A Base Genética do Autismo e a Participação de Voluntários

Apesar dos avanços científicos, a base genética do autismo permanece um enigma, sem biomarcadores fiáveis para diagnóstico ou prognóstico. Para enfrentar esse desafio, o EAGER está a criar uma plataforma com informações genéticas de participantes de vários países europeus, incluindo Portugal.

Podem participar no estudo:

·        Pessoas com diagnóstico formal de PEA.

·        Pessoas que se identificam com o diagnóstico, mas sem validação formal por um profissional de saúde.

A participação é realizada à distância e envolve:

1.      Envio de uma amostra de saliva para análise genética.

2.      Preenchimento de questionários online relacionados com saúde física e mental, qualidade de vida e prioridades de investigação no autismo. Os participantes podem inscrever-se até março de 2025 contactando diretamente a equipa da UC através do e-mail [email protected].

 

Impacto e Financiamento

O projeto EAGER é financiado pela Iniciativa sobre Medicamentos Inovadores (IMI), uma parceria público-privada entre a Comissão Europeia e a Federação Europeia da Indústria Farmacêutica, no âmbito do programa Horizonte 2020. O consórcio, liderado pelo King’s College London, reúne 13 equipas de investigação de oito países: Alemanha, Espanha, França, Irlanda, Itália, Portugal, Reino Unido e Suécia.

O projeto integra o Autism Innovative Medicine Studies-2-Trials (AIMS-2-TRIALS), o maior consórcio europeu dedicado ao estudo do autismo, do qual a Universidade de Coimbra também faz parte. Desde 2018, o AIMS-2-TRIALS tem explorado a biologia do autismo para promover novas estratégias terapêuticas.

Miguel Castelo-Branco destaca que “os impactos deste projeto já são visíveis na forma como uniu clínicos, investigadores e pessoas com autismo, e no investimento não académico que atraiu, sendo uma das maiores parcerias público-privadas a nível mundial no contexto das ciências da vida”.

A participação da Universidade de Coimbra inclui investigadores da FMUC, do CIBIT e do ICNAS, reforçando o compromisso da instituição em contribuir para o avanço científico e clínico no campo do autismo.

Opinião
As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, representando um

No âmbito do Dia Nacional do Doente Coronário, assinalado a 14 de fevereiro, é essencial refletir sobre a gravidade deste problema, identificar os sintomas, compreender as suas causas e identificar formas de prevenção e tratamento, que possam melhorar a qualidade de vida da população.

As doenças cardiovasculares englobam um vasto conjunto de condições que afetam o coração e os vasos sanguíneos, sendo a mais comum a doença coronária, que pode levar a enfartes agudos do miocárdio.

Os fatores de risco associados às doenças cardiovasculares são amplamente conhecidos, mas muitas vezes subestimados. Entre os principais estão: hipertensão arterial, que frequentemente não apresenta sintomas, mas tem um impacto significativo no risco de enfarte agudo do miocárdio e AVC; diabetes, uma vez que o excesso de glicose pode levar a alterações na constituição e circulação do sangue; colesterol elevado, que contribui para a formação de placas de gordura nas artérias, dificultando a circulação sanguínea; sedentarismo e má alimentação, uma vez que a falta de atividade física regular e uma dieta rica em gorduras saturadas e sal aumentam o risco de doenças cardiovasculares; tabagismo e consumo excessivo de álcool, que afetam negativamente a saúde do sistema cardiovascular; e histórico familiar, com fatores genéticos a desempenhar um papel importante.

A prevenção das doenças cardiovasculares é possível e começa com escolhas conscientes no dia a dia. Adotar um estilo de vida saudável pode reduzir significativamente o risco de desenvolver estas condições. Algumas medidas incluem a prática de atividade física regular, pelo menos 30 minutos, cinco vezes por semana; uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, cereais integrais e gorduras saudáveis, limitando o consumo de sal, açúcar e alimentos processados; evitar o tabaco, uma vez que parar de fumar é uma das mudanças mais eficazes para melhorar a saúde cardiovascular; e monitorizar regularmente a saúde, mantendo controlados os níveis de colesterol, tensão arterial e glicemia.

Além das ações individuais, é fundamental que se continuem a investir em campanhas de sensibilização e programas de prevenção. O acesso facilitado a consultas de rotina, rastreios e tratamentos também desempenha um papel crucial na luta contra as doenças cardiovasculares. Por outro lado, é importante envolver as comunidades e promover o apoio entre pares, especialmente para aqueles que já sofrem destas condições.

Importa também recordar que existe uma Rede de Referenciação Hospitalar de Intervenção Cardiológica – a Via Verde Coronária (VVC) – que, tal como os laboratórios de hemodinâmica, está a funcionar 365 dias por ano, 24 horas por dia, de forma a assegurar o tratamento, por angioplastia primária, de doentes com enfarte agudo do miocárdio. Os doentes são rapidamente transportados para o hospital mais indicado, onde uma equipa médica especializada já está preparada para iniciar o tratamento, frequentemente através de angioplastia primária.

Desde a sua implementação que a VVC tem sido fundamental para salvar vidas, uma vez que permite o acesso precoce aos cuidados médicos mais adequados, reduzindo significativamente o tempo entre o início dos sintomas e o tratamento.

O Dia Nacional do Doente Coronário é a oportunidade perfeita para reforçar a importância de prevenir as doenças cardiovasculares, sensibilizar para os seus fatores de risco e destacar o impacto que escolhas saudáveis podem ter na vida de cada pessoa. Num país onde estas doenças continuam a tirar vidas, cabe a todos, em conjunto, trabalhar para um futuro mais saudável e consciente.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
IX Barómetro Saúde Oral 2024
Mais pessoas sem dinheiro para ir ao médico dentista, mais pessoas sem dentes e piores hábitos de higiene oral. Estas são as...

Os dados são claros: dos cerca de 1 milhão de pessoas que nunca vão ou vão menos de uma vez por ano ao médico dentista, há 300 mil (30%) que apontam a falta de dinheiro como justificação para não realizarem qualquer consulta de medicina dentária. Uma percentagem que agrava 5,6 p.p. em relação a 2023.

Embora não seja possível estabelecer uma relação direta, a verdade é que 98,2 por cento dos inquiridos considera importante e/ou muito importante o acesso à Saúde Oral através do Serviço Nacional de Saúde. A este indicador há a acrescentar que 96,3 por cento acreditam que o Governo deveria comparticipar os tratamentos dentários, tal como faz com os medicamentos.

No que diz respeito à frequência das consultas de medicina dentária, 65,4% dos inquiridos asseguram que o fazem pelo menos uma vez por ano, o que representa uma ligeira melhoria (1p.p.) face a 2023. Ainda assim, a percentagem de pessoas que nunca marcou uma consulta para check-up aumenta 3,6 p.p. para 27,4 por cento.

“Estes resultados envergonham o país e refletem a ausência de investimento na saúde oral. Os portugueses continuam à espera que o Governo apresente o Programa Nacional de Saúde Oral, que seria conhecido até ao final de 2024”, alerta o bastonário da OMD.

Miguel Pavão sustenta que “enquanto a Organização Mundial da Saúde dá passos importantes no reconhecimento do impacto da saúde oral na saúde geral e desafia os países a trabalharem para garantir o acesso universal a estes cuidados, o reforço do direito à saúde oral, em Portugal, continua estagnado”.

Aumenta número de pessoas sem dentes

Em apenas um ano, a percentagem de pessoas sem pelo menos um dente agrava 6,8 pontos, tendo passado de 58,9 em 2023 para quase dois terços (65,7 por cento) em 2024. Igualmente grave é o aumento registado na população sem seis ou mais dentes: 28 por cento, quando em 2023 era de 22,8.

Numa análise mais detalhada, é possível constatar que as mulheres são quem mais sofre com a falta de dentes. Apenas 31,7 por cento das mulheres tem dentição completa, enquanto nos homens o valor sobe para 36,8 por cento. Por oposição, quando se considera a falta de pelo menos um dente, a diferença entre géneros mantém-se: 68,3 por cento nas mulheres e 63,2 nos homens.

Dos dois terços da população em Portugal sem pelo menos um dente, 57,1 por cento não tem nada a substituir, o que representa um agravamento em relação a 2023 de 7,2 pontos percentuais. Quando o indicador em análise passa a ser a falta de seis ou mais dentes, considerado o número de referência que afeta a qualidade da mastigação e da saúde oral, também aqui as mulheres são mais castigadas: 31,4% face aos 23,4 dos homens.

“Não podemos nunca dissociar os índices de saúde oral do facto de quase 20% da população estar na pobreza. Uma população sem recursos e mecanismos de acesso a condições de saúde oral enfrenta mais desigualdades sociais, maior absentismo e mais problemas sociais e de autoestima. É urgente ter um programa prioritário para a saúde oral, que promova a complementaridade entre os setores público, privado e social. Mas também que envolva não só o ministério da Saúde, mas também o da Segurança Social e o da Juventude, pelo papel que estes podem desempenhar na prevenção da saúde em todas as fases da vida e na intervenção junto dos grupos de risco.  É fulcral investir, ter um orçamento para a saúde oral que permita executar e não apenas planear”, afirma Miguel Pavão.

Higiene oral piora

De acordo com Barómetro da Saúde Oral 2024, os hábitos de higiene da população pioraram em 2024 face a 2023: 74,4% afirmam escovar os dentes com frequência (pelo menos duas vezes por dia), uma diminuição (-4,4 p.p.) em relação aos 78,8% registados de 2023. Apesar do ligeiro aumento (0,9 p.p.) de pessoas que lava os dentes pelo menos uma vez por dia, o relatório demonstra que 6,1% dos inquiridos (+3,5p.p.) escova os dentes menos de uma vez por dia.

Outro indicador relevante do relatório de 2024 diz respeito à percentagem de pessoas que acedem às consultas de medicina dentária via Serviço Nacional de Saúde ou Cheque dentista: 2,5% (+0,5 p.p.). Os restantes 97,5% fazem-no via particular ou através de seguro.

Quanto a menores de 6 anos que nunca foram ao médico dentista, a percentagem voltou a diminuir pelo terceiro ano consecutivo. Em 2021 era 73,4%, em 2022 passou a 65,2% e, em 2023 ficou-se pelos 53,5% e, agora, em 2024 é 49,6%.

Universidade de Coimbra
É com o objetivo central de impulsionar o conhecimento e o tratamento de encefalites que nasce o Grupo de Estudos em...

A encefalite é uma doença neurológica que resulta na inflação do tecido cerebral, e tem causas diversas, como infeções ou em associação com tumores em outros órgãos do corpo humano. Já a encefalite autoimune tem também como consequência a inflamação do cérebro, mas é originada quando os mecanismos de defesa do organismo humano (o sistema imune) reagem contra órgãos saudáveis, neste caso o cérebro, causando-lhe lesões. Pode afetar pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos.

Como explica a investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC (CNC-UC) e do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB), Ester Coutinho, “estima-se que cerca de 100 pessoas são diagnosticadas com encefalite autoimune todos os anos em Portugal, embora a realidade portuguesa não esteja ainda bem estudada”. “Estas doenças são muito graves, podendo levar a incapacidade significativa ou à morte, mas um desfecho menos favorável pode ser prevenido com diagnóstico e tratamento atempado”, acrescenta.

“O objetivo principal do GENIE é disseminar informação sobre estas doenças que só recentemente foram reconhecidas e, portanto, são ainda desconhecidas por grande parte da população e mesmo por alguns profissionais de saúde e investigadores que eventualmente podem estar interessados a trabalhar nesta área”, revela a também coordenadora do Grupo de Estudos em Neuroimunologia e Encefalites.

Na próxima sexta-feira, dia 24, vai decorrer o primeiro encontro da associação. Vai ter lugar no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (situado no piso 0 do Departamento de Física, no Polo I), entre as 9 horas e as 16h15. O evento vai contar com palestras de cientistas e clínicos que trabalham na área das encefalites. Vai decorrer também a apresentação da plataforma online do projeto, onde vão passar a ser disponibilizados diversos conteúdos, nomeadamente recursos educativos para pessoas com diagnóstico de encefalite e seus cuidadores e para profissionais da área da saúde, e informações relativas a estudos em curso sobre a doença.

Podem fazer parte desta associação investigadores, profissionais de saúde, pessoas com diagnóstico de encefalite e seus cuidadores, mas também outras pessoas que tenham interesse em saber mais sobre esta doença. O registo para participação é feito aqui.

Opinião
Em julho de 2019, o Japão tomou uma decisão histórica e controversa ao autorizar o desenvolvimento d

Será esta uma solução inovadora para a crescente escassez de órgãos ou um passo em falso que desafia os limites éticos da ciência? Neste artigo, vamos analisar os pormenores da decisão japonesa, os potenciais benefícios e os riscos envolvidos, bem como a posição ética que a sociedade deverá adotar face a este avanço sem precedentes.

 

Uma Decisão Científica de Proporções Históricas

A aprovação do Japão não ocorreu de forma repentina ou desregulada. Sob a liderança do investigador Hiromitsu Nakauchi, da Universidade de Tóquio, os cientistas receberam luz verde para introduzir células estaminais humanas em embriões de animais, como ratos e porcos. A ideia é permitir que estes embriões cresçam e se desenvolvam em úteros de animais, com o objetivo de formar órgãos humanos, como rins ou fígados, que possam ser transplantados em pacientes.

Até então, a criação de híbridos humano-animais era permitida apenas até 14 dias de desenvolvimento, altura em que os embriões eram destruídos antes de atingirem estágios mais avançados. Com esta decisão, o Japão autoriza, pela primeira vez, que os embriões completem o seu desenvolvimento e nasçam.

A promessa de salvar vidas é clara: o tempo de espera para um órgão compatível é longo e muitas vezes fatal. Em Portugal, segundo dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, mais de 800 pessoas aguardam por um transplante, muitas delas em situações críticas. Se a tecnologia de xenotransplante for bem-sucedida, poderá salvar milhares de vidas em todo o mundo, proporcionando uma solução revolucionária para um problema de saúde pública global.

 

Os Benefícios Potenciais

A principal vantagem desta abordagem é evidente: um fornecimento praticamente ilimitado de órgãos humanos para transplantes. Atualmente, a procura de órgãos supera em muito a oferta, resultando em listas de espera prolongadas e, muitas vezes, fatais. Se for possível cultivar órgãos humanos em animais, como porcos, estes poderão ser colhidos de forma ética e eficiente para salvar vidas humanas.

Adicionalmente, esta tecnologia pode abrir portas a avanços médicos em outras áreas, como o estudo de doenças genéticas ou o desenvolvimento de tratamentos personalizados. Por exemplo, órgãos gerados a partir das células estaminais do próprio paciente poderiam eliminar o risco de rejeição pelo sistema imunológico, um problema comum nos transplantes atuais.

Outro benefício seria a redução da dependência de doadores humanos. Apesar das campanhas de sensibilização para a doação de órgãos, muitos países enfrentam escassez crónica, agravada por fatores como o envelhecimento populacional e a hesitação cultural em relação à doação.

 

Os Desafios Éticos

Apesar dos potenciais benefícios, esta tecnologia levanta questões éticas profundas e difíceis de ignorar. Como devemos definir a linha entre humano e animal? Até que ponto é aceitável manipular a natureza para satisfazer as necessidades humanas?

Uma das principais preocupações éticas está relacionada com a possibilidade de as células humanas se integrarem em órgãos não pretendidos, como o cérebro dos animais hospedeiros. Esta integração poderia levar a mudanças no comportamento ou na cognição do animal, levantando questões sobre a sua identidade e dignidade. Embora os investigadores afirmem que tomarão medidas para evitar tais situações, o risco de consequências inesperadas não pode ser descartado.

Outro dilema ético diz respeito ao sofrimento dos animais. Apesar de se argumentar que os benefícios para os humanos superam os custos, é inegável que os animais envolvidos nestas experiências podem ser sujeitos a sofrimento físico e psicológico. Num mundo onde os direitos dos animais ganham cada vez mais destaque, esta questão não pode ser ignorada.

Finalmente, há a questão da regulamentação. Quem decidirá como e onde esta tecnologia pode ser usada? Quais serão os limites impostos? A criação de órgãos para transplante pode ser vista como justificada, mas e se esta tecnologia for usada para outros fins, menos éticos? Estas questões requerem um debate sério e global, envolvendo não apenas cientistas, mas também filósofos, legisladores e o público em geral.

 

A Resposta do Japão: Regulamentação Rigorosa

Para mitigar os riscos éticos e garantir que a tecnologia seja usada de forma responsável, o governo japonês estabeleceu um comité de avaliação governamental para supervisionar os projetos de pesquisa. Este comité é responsável por assegurar que os embriões híbridos sejam criados com propósitos médicos claros e que os testes sejam conduzidos de forma ética.

Além disso, investigadores japoneses têm trabalhado na elaboração de diretrizes para garantir a segurança e eficácia dos transplantes de órgãos gerados em animais. Estas diretrizes, que deverão estar concluídas ainda em 2025, incluem medidas para prevenir a transmissão de doenças zoonóticas e minimizar os riscos de rejeição imunológica.

 

Reflexão Final: A Ciência ao Serviço da Humanidade ou a Ultrapassagem de Limites Éticos?

A criação de híbridos humano-animais coloca a humanidade numa encruzilhada entre o progresso científico e os valores éticos. Por um lado, esta tecnologia tem o potencial de salvar incontáveis vidas, oferecendo uma solução para um problema que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Por outro lado, desafia as nossas conceções sobre o que significa ser humano e até onde podemos ir na manipulação da natureza.

Como sociedade, é fundamental que abordemos este tema com cautela, ponderando os benefícios e os riscos de forma equilibrada. A ciência deve avançar, mas nunca à custa dos princípios éticos que sustentam a nossa humanidade.

A decisão do Japão é, sem dúvida, um marco histórico que marcará o futuro da medicina e da bioética. Cabe agora ao resto do mundo decidir como responder a este avanço. Estaremos à altura do desafio?

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Opinião
Todos nós estamos cientes de que o mundo moderno conduziu ao aparecimento de doenças que podem afeta

A obesidade é uma dessas doenças, que devido ao aumento da sua incidência é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como a "Epidemia do Século XXI", afetando grande parte da população.

Sendo a obesidade um importante problema de Saúde Pública, traz consigo consequências gravíssimas para a saúde das pessoas e para o aumento das despesas no Serviço Nacional de Saúde.

Considerada uma doença crônica complexa, a obesidade é caraterizada por um excessivo aumento da gordura corporal, que se vai acumulando a pouco e pouco no organismo com grandes riscos para a saúde.

De acordo com a literatura a etiologia da obesidade é multifatorial, envolvendo fatores internos e externos á pessoa como: a predisposição genética, ambientais, socioculturais, contexto familiar, características individuais e psicológicas e problemas hormonais (Hipotiroidismo).

Esta doença, pode levar ao aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2, problemas cardiovasculares (HTA, insuficiência cardíaca congestiva, …), complicações no sistema respiratório (dispneia, apneia de sono,…), diversos tipos de cancro (mama, próstata,…), infertilidade, problemas do aparelho locomotor e saúde mental (depressão, ansiedade,…).

O diagnóstico da obesidade é realizado através da avaliação do peso e altura da pessoa, calculando o índice de massa corporal (IMC): peso (kg)/altura² (m²) e o perímetro abdominal (PA), através da medição em centímetros da cintura. Em adultos, a OMS define que uma pessoa com IMC entre 25 e 30 é considerado "acima do peso", enquanto um IMC maior que 30 é definido como "obeso"

Regra geral, o excesso de peso provoca efeitos nefastos em todas as idades e costuma ser causado por uma alimentação pouco saudável, com o consumo exagerado de alimentos ricos em gorduras saturadas (principalmente as de origem animal), os açucares, os produtos refinados e sal. Contudo, o verdadeiro problema não consiste apenas no desequilíbrio entre calorias consumidas e calorias gastas mas também, tem haver, com a pouca prática de atividade física.

Neste âmbito, importa ressaltar que a mudança nos hábitos alimentares que surgiram nos últimos anos, devido ao crescimento na oferta de fast-food veiculado pela mídia e o consumo de refrigerantes e alimentos coloridos, saborosos e baratos, além do sedentarismo associado a longos períodos diante da TV, computador e telemóvel, afetou a saúde em idades mais jovens e está associada a um maior risco e início mais precoce de doenças.

Deste modo, além das consequências físicas devemos ter também em consideração as psicossociais uma vez que o excesso de peso na criança e jovem pode afetar a sua saúde mental (ansiedade e alteração da imagem que tem do seu próprio corpo) e o desempenho escolar, agravado pelo estigma e o preconceito.

Segundo estudos realizados em crianças com obesidade há uma grande probabilidade de se tornarem adultos também obesos e com maior risco de desenvolver doenças na idade adulta, por este motivo, é importante instituir medidas para a prevenção desta doença, desde a infância.

O tratamento da obesidade depende da fase de desenvolvimento da doença, podendo envolver três aspetos importantes.

Intervenções no estilo de vida que incluem a dieta, o exercício físico e a modificação comportamental que são a base para o tratamento da obesidade (Burns, Jay, Thorndike, & Kanjee, 2024).

A cirurgia para a perda de peso, também chamada de cirurgia bariátrica (inclui banda gástrica ajustável, bypass gástrico em Y de Rouen e gastrectomia vertical), que continua a ser o tratamento mais eficaz e durável, com benefícios comprovados na redução da mortalidade e na melhoria de outras doenças e da qualidade de vida.

As terapêuticas farmacológicas, que inclui os mais recentes agentes, os agonistas do recetor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon, que oferece mais opções de tratamento e gestão desta doença (American Gastroenterological Association).

O papel dos profissionais de saúde é crucial para o sucesso na gestão e tratamento da obesidade, sendo de extrema importância incluir na equipa multidisciplinar profissionais da área da psicologia e da psiquiatria.

Tendo em conta que na obesidade alguns fatores de risco são passíveis de serem modificados, entender esses fatores ajuda-nos a identificar potenciais estratégias de prevenção. Nesse caso, é importante que sejam tomadas precauções e adotadas medidas destinadas à prevenção desta doença, incentivando a uma alimentação saudável, mudança do estilo de vida, aumento da prática de exercício físico e manter uma atitude mental positiva.

Face ao exposto, torna-se emergente que os cuidados de saúde na comunidade e a ação de proximidade (autarquias, escolas, locais de trabalho e indústria alimentar) sejam dotadas de recursos para combater esta realidade.

Em suma, devemos acreditar que todos nós temos o poder de que precisamos para mudar o nosso estilo de vida e reforçar os nossos próprios processos naturais de cura e combater este distúrbio alimentar prejudicial para a saúde.

 

Referências Bibliográficas

Burns, R. B., Jay, M. R., Thorndike, A. N., & Kanjee, Z. (2024). How would you manage this patient with obesity? Grand rounds discussion from Beth Israel Deaconess Medical Center. Annals of Internal Medicine, 177(10).

Disponível:https://web.p.ebscohost.com/ehost/detail/detail?vid=19&sid=32eb8961-35bd...

Organização Mundial da Saúde. (2024). Obesidade. Disponível:

https://www.who.int/health-topics/obesity#tab=tab_2

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As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Encontro com MGF
As 1.as Jornadas de Pneumologia da linha de Cascais e Sintra vão realizar-se no dia 21 de fevereiro (terça-feira), no Hotel...

Organizado por Vítor Fonseca (pneumologista no Hospital de Cascais), o evento destina-se a médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) e outros profissionais de saúde dedicados aos cuidados respiratórios ou interessados em aprofundar os seus conhecimentos na área. As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas em: https://jornadaspneumologiadalinha.pt/inscricoes/.

Este projeto nasce da necessidade de criar um espaço de diálogo, aprendizagem e colaboração entre os especialistas de Pneumologia Hospitalar e de ambulatório e os colegas de MGF, com o objetivo de melhorar o tratamento de quem vive com doenças respiratórias, através da articulação entre o centro de saúde e o hospital.

O evento conta com um programa científico diversificado, focado em temas como a imunização do doente respiratório, a jornada do doente com apneia do sono, a asma, o panorama atual da pneumonia em Portugal e ainda a atualização de conhecimento em DPOC para médicos de MGF.

Para enriquecer ainda mais a prática clínica dos participantes, a primeira edição das Jornadas de Pneumologia da Linha vai ter dois cursos pré-congresso, que acontecerão no dia 20 de fevereiro, à tarde. O primeiro é sobre imagiologia torácica, onde serão abordadas noções básicas de radiologia torácica, com suporte de casos clínicos. Já o segundo é um workshop sobre leitura e interpretação de relatórios de ventiloterapia no seguimento de doentes com apneia do sono.

Consulte o programa completo do evento aqui: https://jornadaspneumologiadalinha.pt/programa/. Para participar, inscreva-se em: https://jornadaspneumologiadalinha.pt/inscricoes/.

 

Opinião
Vivemos num mundo onde a palavra "inclusão" é repetida como um mantra em discursos, campan

Permita(m)-me partilhar uma experiência pessoal que reflete esta dura realidade. Recentemente, numa ida ao supermercado, deparei-me com uma situação que me deixou perplexo e profundamente entristecido. Na fila única para as várias caixas de pagamento, como acontece em muitos estabelecimentos, aguardei pacientemente a minha vez. Contudo, os visores que deviam indicar qual caixa estaria disponível não estavam a funcionar. A funcionária, aparentemente, anunciou verbalmente que era a minha vez, mas como tenho uma deficiência auditiva, não consegui perceber. O resultado? As pessoas que estavam atrás de mim na fila, impacientes, passaram à frente e ocuparam o lugar que deveria ser meu. Nem uma alma sequer teve a decência ou o cuidado de me avisar. Fiquei ali, perdido no meio do caos, a sentir-me ignorado, marginalizado e completamente invisível.

Não é apenas uma questão de falta de acessibilidade física ou tecnológica — embora isso seja inegável. Trata-se, acima de tudo, de um problema de mentalidade. Vivemos numa sociedade onde falta empatia, onde falta o mínimo gesto de humanidade para perceber que todos somos diferentes e que essa diferença deve ser acolhida e respeitada. Esta experiência pode parecer insignificante para quem nunca passou por algo semelhante, mas para quem vive com uma deficiência, é um lembrete doloroso de que, apesar de todo o discurso inclusivo, ainda há um longo caminho a percorrer.

 

A Inclusão na Teoria e na Prática

Portugal não é um caso isolado. Apesar de haver progressos em várias áreas, como a introdução de legislações mais inclusivas e o reconhecimento da necessidade de acessibilidade, a verdade é que ainda vivemos num cenário onde a inclusão se encontra mais nos papéis do que na prática. As pessoas gostam de enaltecer a ideia de que ajudam os outros porque isso as faz sentir bem, mas a verdade é que, no momento em que um gesto de inclusão exige esforço ou desconforto, o silêncio é ensurdecedor.

No caso das pessoas com deficiência auditiva, por exemplo, o problema vai muito além da falta de tecnologias adaptadas, como sistemas de microfones ou visores eficazes. O problema reside também na ausência de uma cultura de acessibilidade e na incapacidade de muitas pessoas de compreenderem as necessidades básicas de quem vive com uma limitação sensorial.

Por que é que em pleno século XXI ainda é aceitável que um supermercado não tenha um sistema eficaz para chamar clientes com deficiência auditiva? Por que é que ainda não há formação adequada para funcionários de estabelecimentos comerciais, sensibilizando-os para as diferentes formas de comunicação? Por que é que, num país que tanto se orgulha da sua hospitalidade, falta a simples noção de que um sorriso, uma palavra, ou um gesto pode fazer toda a diferença?

 

A Questão da Empatia e da Consciência Coletiva

Um dos maiores obstáculos para a inclusão é a falta de empatia. É fácil falar sobre inclusão quando não se vive na pele a exclusão. Quem nunca foi ignorado numa fila, quem nunca foi tratado como um fardo, quem nunca enfrentou barreiras diárias na comunicação ou na mobilidade, dificilmente entenderá o impacto que isso tem na autoestima e no bem-estar de uma pessoa.

Infelizmente, ainda vivemos numa sociedade onde a deficiência é vista como um problema individual e não como uma questão coletiva. Não se trata apenas de criar acessos ou instalar dispositivos tecnológicos. Trata-se de mudar mentalidades. Trata-se de educar desde cedo para que as crianças cresçam a compreender e a respeitar as diferenças. Trata-se de ensinar que a inclusão não é um favor que fazemos aos outros, mas um direito básico de todos.

 

Um Chamado à Ação

A história que vivi no supermercado é apenas uma entre muitas. Todos os dias, em todo o país, pessoas com deficiência enfrentam desafios semelhantes. É urgente que passemos das palavras à ação. É urgente que deixemos de olhar para a inclusão como um tema bonito para campanhas de marketing e a vejamos como uma necessidade real e prática.

O que pode ser feito? Muito. E não é preciso reinventar a roda. Eis algumas ideias concretas:

  1. Tecnologia Inclusiva: Estabelecimentos comerciais devem garantir que os sistemas de atendimento funcionem corretamente e sejam acessíveis a todos, incluindo pessoas com deficiência auditiva ou visual.
  2. Formação de Funcionários: Todos os trabalhadores que lidam com o público devem receber formação em acessibilidade e atendimento inclusivo.
  3. Sensibilização Social: Campanhas de sensibilização devem ir além dos slogans. Devem envolver histórias reais e promover experiências imersivas que ajudem as pessoas a compreender os desafios das pessoas com deficiência.
  4. Educação Inclusiva: Desde a escola primária, as crianças devem ser ensinadas a respeitar e incluir todos, independentemente das suas capacidades.
  5. Políticas Públicas Eficazes: Os governos devem fiscalizar e apoiar projetos que promovam a inclusão real e penalizar aqueles que falham em cumprir as normas de acessibilidade.

 

Uma Sociedade para Todos

A verdadeira inclusão não acontece por acaso. Ela exige esforço, compromisso e, acima de tudo, vontade. Não basta dizer que somos um país inclusivo. É preciso mostrar, todos os dias, em cada interação, que estamos dispostos a construir uma sociedade onde todos têm um lugar.

Enquanto essa mudança não acontecer, continuaremos a viver num mundo onde palavras como "inclusão" soam bem, mas na prática deixam muito a desejar. Não devemos contentar-nos com isso. Todos temos o poder de ser agentes de mudança. Que tal começarmos hoje?

Que a inclusão deixe de ser um sonho distante e passe a ser uma realidade concreta para todos os portugueses. Porque, no fundo, é disso que se trata: criar um país onde ninguém se sinta invisível, ignorado ou deixado para trás.

 

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As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Estudo
Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) descobriu que a...

Os investigadores apostam agora numa droga que não mate a Listeria, mas que consiga inibir a proteína RmlT tornando a bactéria menos virulenta e mais sensível aos antibióticos. Esta descoberta, que abre caminho para o tratamento de bactérias patogénicas multirresistentes, foi publicada na Nature Communications.

Este trabalho de investigação foi desenvolvido no i3S com o apoio do 6.º Concurso CaixaResearch de Investigação em Saúde 2023, promovido pela Fundação “la Caixa”, em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

As infeções causadas por bactérias Gram-positivas, como Staphylococcus, Enterococcus, Streptococcus ou Listeria, constituem um grave problema de saúde pública e um dos principais desafios da medicina moderna. Atualmente, assistimos ao aparecimento não só de novos agentes patogénicos, mas também de novas estirpes bacterianas com propriedades de virulência reforçadas e/ou maior resistência aos antibióticos. Listeria monocytogenes, por exemplo, é o agente patogénico de origem alimentar responsável pelo maior número de casos de hospitalização e mortes na Europa.

A equipa do i3S, que se tem centrado no estudo da bactéria Listeria monocytogenes, concluiu que «a proteína RmlT tem um impacto significativo na virulência bacteriana e na resistência antimicrobiana, já que é ela quem transfere o açúcar para as estruturas da superfície da bactéria, simultaneamente colocando factores de virulência na parede bacteriana e impedindo o antibiótico de atuar eficazmente», explica Didier Cabanes, líder do grupo Molecular Microbiology, que liderou o estudo.

Para estudarmos o mecanismo da RmlT em Listeria, acrescenta Ricardo Monteiro, primeiro autor do artigo, «gerámos uma bactéria mutante sem o açúcar e verificamos que, de facto, ela ficou menos virulenta. Além disso, os antibióticos mostraram-se mais eficazes contra este mutante». A descoberta de um novo alvo terapêutico - a proteína RmlT - «permite-nos agora avançar para uma droga que atue especificamente nesta proteína», acrescenta o investigador.

O objetivo, explica Didier Cabanes, «não é matar a Listeria, mas sim torná-la mais «fraca» para depois os antibióticos serem mais eficazes». «Uma vez que a RmlT é muito similar a outras proteínas existentes em bactérias patogénicas que normalmente são multirresistentes e muito graves em ambiente hospitalar, como os Staphylococcus, a droga em que estamos a trabalhar poderá ser adaptada para combater outras super-bactérias», sublinha.

 

UMinho
Torcato Meira, da Escola de Medicina da Universidade do Minho, venceu a 6ª edição do Prémio MSD de Investigação em Saúde, por...

Torcato Meira concorreu com o trabalho “Memória social e respetivo substrato neural no envelhecimento”. A investigação vai colocar, pela primeira vez, os seniores participantes numa tarefa de interação com personagens num ambiente virtual, enquanto o seu cérebro é monitorizado por imagens de ressonância magnética – em particular, pretende-se avaliar nos idosos o volume e a atividade do hipocampo, que fica nas laterais do cérebro e está sobretudo associado à memória, aprendizagem e regulação emocional, e também avaliar alterações na substância branca no cérebro, importante para múltiplas funções cognitivas.

“A hipótese central é que a memória social se deteriora com o envelhecimento, o que por sua vez se poderá associar à disfunção do hipocampo e a lesões da substância branca”, diz Torcato Meira. Memória social é a capacidade de formarmos memórias de outras pessoas e as recordarmos, o que é fundamental na interação social e na manutenção de relações interpessoais. O impacto do envelhecimento na memória social ainda não foi devidamente estudado no mundo, logo este trabalho é especialmente relevante numa sociedade ocidental em progressivo envelhecimento e onde a cognição é crítica para a independência funcional dos idosos.

Preencher uma lacuna na ciência

O estudo destaca-se pelo uso de uma tarefa única, adaptada à população portuguesa, que avalia a memória social de forma dinâmica e envolvente. Isso permite a análise mais detalhada de como os seniores processam e retêm informações sociais, o que é crucial para compreender o seu funcionamento cognitivo. Torcato Meira vai ainda pesquisar se o uso de um grupo específico de antidepressivos pode mitigar a perda da função de memória social e, assim, contribuir para futuras intervenções terapêuticas.

“Os resultados deste projeto podem preencher uma lacuna crítica no conhecimento científico, mas também fornecer bases para novas terapias e práticas clínicas focadas no envelhecimento saudável e na manutenção das capacidades cognitivas, como a identificação precoce de alterações na memória social e novas abordagens de prevenção, particularmente em cuidados de saúde primários, potencialmente gerando um impacto substancial no bem-estar mental e social das populações seniores”, explica o investigador.

Torcato Meira tem 32 anos e é de Viana do Castelo. Fez o doutoramento em Medicina nas universidades do Minho e de Columbia (EUA) e uma pós-graduação na Escola Médica de Harvard (EUA). Tem vários prémios científicos e artigos em revistas ímpares, como “Nature” e “The New England Journal of Medicine”. É professor de Neuroanatomia e investigador na Escola de Medicina da UMinho, além de médico neurorradiologista no Hospital de Braga.

 

Maria João Baptista, Nadim Habib e Mariana Abranches Pinto
Com percursos ligados à saúde, transformação social e sustentabilidade, os especialistas irão debater o panorama atual em...

O TEDxPorto, um evento dedicado à reflexão e partilha de ideias, anuncia quatro novos oradores para a sua 14.ª edição. Maria João Baptista, médica e Presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de São João; Mariana Abranches Pinto, Presidente da Associação Compassio, dedicada a apoiar pessoas em situações de vulnerabilidade; e Nadim Habib, professor e consultor na área de inovação e empreendedorismo são as novas vozes que subirão ao palco da Alfândega do Porto no próximo dia 29 de março.

Maria João Baptista é um exemplo de como a liderança e a inovação podem transformar a área da saúde. Doutorada em Ciências da Saúde pela Universidade do Minho, dedicou a sua carreira a unir ciência e prática para criar um impacto real na vida das pessoas. Foi pioneira na investigação sobre o desenvolvimento pulmonar e cardíaco e desempenhou um papel crucial na implementação do transporte inter-hospitalar pediátrico no norte do país, um avanço que salvou vidas e aproximou cuidados essenciais a crianças e famílias.

Lidera a Unidade Local de Saúde de São João como presidente do conselho de administração, onde promove uma visão integrada e humanizada dos cuidados de saúde. No TEDxPorto, Maria João falará sobre a importância de colocar o ser humano no centro das decisões, explorando como a inovação aliada à empatia pode redefinir a experiência dos pacientes e construir um futuro mais inclusivo e justo.

Nadim Habib destaca-se como uma referência na área da inovação, estratégia e agilidade organizacional, ajudando empresas a crescer e a prosperar num mundo em constante evolução. Professor na NOVA School of Business & Economics, partilha o seu conhecimento em programas de mestrado, MBA e formação para executivos, onde tem a oportunidade de capacitar e formar novos empreendedores para uma liderança com impacto positivo. Assim, na sua talk irá  explorar quais são as competências para liderar com autenticidade, oferecendo às novas gerações as ferramentas necessárias para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades do mundo atual.

Mariana Abranches Pinto, por sua vez, é um testemunho de resiliência, sendo prova de como os desafios da vida podem ser catalisadores de transformação positiva na sociedade. Formada em arquitetura paisagística, área onde construiu uma carreira  ao longo de 20 anos, viu-se confrontada com momentos que a levaram a repensar a sua trajetória e a redescobrir o seu propósito: ajudar o próximo.

Hoje, lidera a Compassio, uma associação sem fins lucrativos que promove a solidariedade, a inclusão social e o bem-estar, com especial atenção ao apoio emocional e espiritual de pessoas em cuidados paliativos ou em processos de luto. Subirá ao palco do TEDxPorto para partilhar a sua visão sobre o cuidado mais compassivo e empático e a forma como este pode transformar vidas, fortalecer comunidades e gerar um impacto social que perdura por gerações.

Estes três oradores juntar-se-ão a nomes como Manuel Heitor, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, e o escritor e comunicador Luís Osório, num evento que convida o público a  reimaginar o mundo que nos rodeia, desafiar as suas certezas e a refletir sobre questões que moldam a sociedade.

Com 13 edições realizadas, o TEDxPorto consolidou-se como um evento de referência, sendo considerado um dos maiores fóruns de partilha de ideias em Portugal. Destaca-se igualmente como um dos maiores eventos TEDx a nível mundial, de entre mais de 3500 eventos por ano, espalhados por cidades em todo o mundo. Nos últimos dez anos, 284 oradores e 33 performances contribuíram para o sucesso do evento, alcançando uma audiência total de mais de 16000 mil pessoas. Para a edição de 2025, contará com o apoio de dezenas de marcas e entidades.

 

Opinião
O cancro, uma das principais causas de mortalidade global, afeta milhões de pessoas por ano.

Como Funciona a Tecnologia de Reversão Celular?

O avanço baseia-se na compreensão aprofundada das redes reguladoras genéticas que governam o comportamento celular. Utilizando um "gémeo digital" – um modelo computacional das redes genéticas – os investigadores puderam simular o comportamento das células cancerígenas e identificar alvos críticos para manipulação. O estudo centrou-se em células de cancro do cólon, um dos tipos mais prevalentes de cancro a nível mundial.

Os investigadores descobriram três reguladores mestres fundamentais: HDAC2, FOXA2 e MYB. Estes genes desempenham papéis essenciais na diferenciação celular, ou seja, no processo que mantém as células com funções específicas dentro do organismo. No caso do cancro, esta diferenciação é perdida, resultando em proliferação descontrolada. Ao modular simultaneamente estes reguladores em laboratório, foi possível induzir as células cancerígenas a regressarem ao seu estado normal, funcionalmente idênticas às células saudáveis do cólon.

Os resultados experimentais demonstraram não só uma reversão bem-sucedida, mas também uma redução significativa na proliferação descontrolada de células malignas, validando o potencial da abordagem em modelos moleculares, celulares e animais.

Comparação com os Métodos Atuais

Os métodos tradicionais de tratamento do cancro procuram eliminar ou destruir células cancerígenas, o que pode levar a danos colaterais em tecidos saudáveis. A quimioterapia, por exemplo, ataca células que se dividem rapidamente, mas não distingue entre células cancerígenas e células saudáveis que também se dividem rapidamente, como as do sistema digestivo, cabelo e medula óssea. Este efeito colateral resulta em problemas como náuseas, queda de cabelo, fadiga e imunossupressão.

Por outro lado, a radioterapia utiliza radiações ionizantes para destruir células cancerígenas, mas também pode danificar tecidos circundantes, causando inflamações e cicatrizes nos órgãos tratados. Já a imunoterapia, que estimula o sistema imunitário a combater o cancro, é altamente promissora, mas frequentemente enfrentamos problemas como resistência do tumor ou resposta excessiva, levando a inflamações graves.

A tecnologia de reversão celular distingue-se por evitar a destruição celular. Em vez disso, a abordagem centra-se em corrigir o comportamento anómalo das células cancerígenas, devolvendo-lhes o seu estado saudável. Isto não só preserva os tecidos circundantes, como também minimiza os efeitos secundários associados às terapias agressivas.

Aplicações em Diferentes Tipos de Cancro

Embora o estudo inicial se tenha concentrado no cancro do cólon, o método desenvolvido pela equipa do Professor Cho é aplicável a outros tipos de cancro. A tecnologia de modelação digital pode ser adaptada para identificar reguladores genéticos em diferentes tecidos, tornando possível a aplicação da reversão celular em cancros como:

1. Cancro do Pulmão: Estudos anteriores da mesma equipa demonstraram a capacidade de eliminar características metastáticas de células de cancro do pulmão, revertendo-as para um estado não metastático e sensível a terapias tradicionais.

2. Cancro da Mama: A possibilidade de reverter células tumorais em tecidos mamários, especialmente em tipos agressivos como o triplo negativo, pode oferecer uma alternativa terapêutica menos invasiva.

3. Cancro do Pâncreas: Um dos tipos mais letais devido à sua detecção tardia, esta abordagem pode ser explorada para controlar o crescimento tumoral e melhorar a resposta às terapias existentes.

4. Leucemias e Linfomas: Cancros do sangue também poderiam beneficiar desta tecnologia, ao corrigir a diferenciação anormal de células sanguíneas malignas.

A versatilidade do método é um dos seus maiores trunfos. Através da personalização da abordagem para cada tipo de cancro, torna-se possível criar terapias adaptadas à complexidade genética de cada tumor.

Implicações Futuras e Perspectivas Clínicas

A transição desta descoberta para a prática clínica envolve vários desafios. O principal obstáculo é a complexidade das redes genéticas humanas, que varia de pessoa para pessoa. A personalização da terapia será essencial para maximizar a eficácia. Além disso, questões relacionadas com a segurança e os possíveis efeitos a longo prazo da manipulação genética precisam de ser cuidadosamente estudadas antes de a tecnologia ser amplamente adotada.

Outro aspeto promissor é a potencial combinação desta tecnologia com terapias existentes. Por exemplo, a reversão celular pode ser usada para reduzir a agressividade dos tumores, tornando-os mais sensíveis à quimioterapia ou à imunoterapia, aumentando a eficácia global dos tratamentos.

Questões Éticas e Regulatórias

Apesar do seu potencial, esta abordagem levanta questões éticas. A manipulação genética continua a ser um tema controverso, especialmente no que toca aos seus limites e potenciais usos indevidos. É crucial que a comunidade científica e os reguladores trabalhem em conjunto para criar um enquadramento ético sólido que assegure a utilização responsável desta tecnologia.

Além disso, os custos associados ao desenvolvimento e implementação clínica de terapias personalizadas podem limitar o acesso, especialmente em países com sistemas de saúde menos desenvolvidos. Garantir que esta tecnologia seja acessível a todos os pacientes, independentemente da sua localização ou condição socioeconómica, será um dos grandes desafios.

Conclusão: Uma Mudança de Paradigma no Tratamento do Cancro

A investigação liderada pelo Professor Kwang-Hyun Cho representa um avanço revolucionário na luta contra o cancro. Ao transformar a abordagem do combate ao cancro – de destruição para reversão – esta tecnologia oferece um vislumbre de um futuro mais promissor para pacientes em todo o mundo. Embora ainda haja muito trabalho a fazer, o potencial de reduzir os efeitos secundários, personalizar os tratamentos e expandir as opções terapêuticas é inegável.

Num momento em que a medicina avança rapidamente, a tecnologia de reversão celular simboliza uma nova era, onde o cancro pode ser tratado de forma mais eficaz, menos invasiva e, acima de tudo, mais humana. O desafio agora será transformar esta promessa em realidade, permitindo que milhões de pacientes beneficiem desta abordagem inovadora.

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Estudo
Uma equipa da Universidade do Minho descobriu que dois grupos de neurónios, os D1 e D2, que se pensava trabalharem como rivais,...

A pesquisa foi coordenada por Ana João Rodrigues e Carina Cunha, no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da UMinho, tendo a parceria dos colegas Rui Costa e Gabriela Martins, da Universidade de Columbia e do Allen Institute (EUA). O trabalho foi cofinanciado pelo Conselho Europeu de Investigação, pela Fundação la Caixa, pela Fundação Bial e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Os neurónios D1 e D2 situam-se no núcleo accumbens, no interior do cérebro, que apresenta alterações em algumas condições neuropsiquiátricas. Estes neurónios fazem parte do circuito da recompensa, essencial na sobrevivência das espécies, como quando nos esforçamos pelo que necessitamos e desejamos, desde comida, música ou sexo. A equipa da UMinho tinha já provado em ratinhos que ambos os grupos de neurónios não são necessariamente rivais a processar estímulos negativos e positivos, pois os D2 também processam estímulos positivos ou de prazer.

Desta vez, os cientistas foram mais minuciosos e usaram microscópios miniaturizados para seguir centenas destes neurónios em tempo real em roedores expostos a estímulos apetitivos e aversivos. Demonstrou-se pela primeira vez que os D1 e D2 responderam em conjunto a ambos os estímulos. De seguida, procurou-se compreender como é que estes neurónios respondiam durante a aprendizagem de associações positivas e negativas, similares à famosa experiência do cientista Ivan Pavlov que condicionou cães a salivar por comida assim que ouviam uma campainha. Neste caso, os cientistas treinaram os animais para associar um som específico com a entrega de uma recompensa ou um estímulo aversivo. Com surpresa, os D1 e D2 reagiram de forma similar ao longo da aprendizagem, não mudando drasticamente as taxas de resposta.

Como adaptar rápido à mudança?

No entanto, os investigadores alteraram as regras do jogo: o som já não era acompanhado de recompensa ou do estímulo aversivo. Com um laser de precisão nanométrica que "liga e desliga" neurónios específicos (optogenética), os cientistas mostraram que os D2 eram fundamentais na adaptação à mudança. Ou seja, quando inibiram os neurónios D2, os animais demoravam mais tempo a “compreender as novas regras do jogo”.

Desvendar como o cérebro codifica e responde a pistas externas que predizem algo positivo ou aversivo é crucial para compreender melhor doenças como stress pós-traumático ou depressão. A mesma pista externa pode desencadear respostas muito diferentes consoante o contexto do indivíduo e das memórias associadas. Por exemplo, o som de fogo-de-artifício remete para momentos festivos e divertidos, mas para um antigo militar pode gerar uma crise ansiosa, relembrando a guerra, mesmo que ele esteja em ambiente seguro. Esta capacidade de o cérebro resignificar estímulos externos com base em experiências passadas e ajustar-se a contextos revela a grande complexidade dos nossos circuitos neuronais neste tipo de memórias.

Este novo estudo demonstra assim a enorme relevância dos D1 e D2 na resposta a estímulos positivos ou negativos e nas pistas que predizem esses estímulos, diz Carina Cunha: “Apesar de em certos momentos terem atividade distinta, há muita similaridade entre estes grupos e isso foi algo inesperado, o que abre muitas portas para o futuro; aliás, dentro destes grupos percebemos que há uma segregação funcional, mas falta saber de onde vem e vamos procurar o que as diferencia, tanto em contexto fisiológico como em patologia”.

Ana João Rodrigues menciona que, na próxima fase do projeto, “pretende-se encontrar marcadores genéticos que identifiquem os neurónios que codificam algo positivo e aversivo, para perceber o que é que distingue estes subtipos de neurónios.” “Desta forma, podemos criar novas ferramentas para manipular estes neurónios e ver o seu impacto no comportamento”, conclui a investigadora Verónica Domingues. A equipa no ICVS incluiu ainda Tawan Carvalho, Raquel Correia, Bárbara Coimbra, Ricardo Bastos-Gonçalves, Marcelina Wezik, Rita Gaspar, Luísa Pinto e Nuno Sousa.

 

Opinião
Nos últimos anos, a cápsula endoscópica emergiu como uma ferramenta inovadora na prática clínica, of
Breve História e Evolução
A cápsula endoscópica foi desenvolvida no início dos anos 2000, fruto da colaboração entre o Gastroenterologista Inglês Dr. Paul Swain e o Engenheiro Israelita Gavriel Iddan. Desde a sua introdução, esta tecnologia revolucionou a área da Gastroenterologia ao possibilitar a visualização direta de regiões do intestino delgado, anteriormente inatingíveis.
Inicialmente concebida para o estudo do intestino delgado, a cápsula endoscópica evoluiu significativamente. Em 2006, surgiram cápsulas com dupla câmara, permitindo a avaliação do cólon e reto. Mais recentemente, as cápsulas robóticas telecomandadas possibilitaram a análise não invasiva do estômago, ampliando ainda mais o seu âmbito de utilização.
 
Como Funciona?
A cápsula endoscópica é um dispositivo compacto, comparável em tamanho a um comprimido grande. Contém uma bateria, uma fonte de luz e uma ou duas câmaras que captam imagens do interior do tubo digestivo. Após ser ingerida pelo doente, as imagens são transmitidas para um gravador portátil colocado na cintura do doente. O exame é indolor e permite ao doente manter as suas atividades normais, com algumas restrições, como evitar movimentos bruscos ou contacto com água para não comprometer a transmissão de dados.
Após o exame, o gravador é devolvido ao hospital, onde as imagens são analisadas por um Médico Gastroenterologista para identificar possíveis anomalias. A cápsula é eliminada naturalmente nas fezes, sem necessidade de recuperação.
 
Principais Indicações
A cápsula endoscópica é amplamente utilizada no diagnóstico de:
● Anemia ferropénica ou hemorragia gastrointestinal de causa indeterminada: Deteção de lesões no intestino delgado responsáveis por perdas de sangue ocultas.
● Doença inflamatória intestinal (Doença de Crohn): Avaliação da extensão e gravidade das lesões inflamatórias.
● Doença celíaca: Identificação de complicações associadas.
● Síndromes genéticos: Investigação de pólipos ou outras alterações no intestino delgado.
● Lesões suspeitas em exames de imagem: como meio complementar de apoio ao diagnóstico de achados da ressonância magnética (RMN) ou tomografia computorizada (Tc).
 
Benefícios e Limitações
A cápsula endoscópica oferece inúmeras vantagens, destacando-se a capacidade de diagnosticar lesões no intestino delgado de forma não invasiva. É particularmente útil em casos de difícil acesso por outros métodos. Contudo, possui algumas limitações, como a impossibilidade de realizar biópsias ou intervenções terapêuticas durante o exame. Caso sejam identificadas lesões que exijam remoção ou tratamento, o doente terá de ser submetido a uma colonoscopia ou a outro procedimento endoscópico adequado.
 
Outros desafios incluem:
● Retenção da cápsula: O risco, embora raro (menos de 1%), ocorre principalmente em doentes com estreitamentos intestinais, como em formas graves de Doença de Crohn, pós-cirurgias abdominais ou radioterapia.
● Preparação intestinal: é necessária para garantir a qualidade das imagens. Embora para a observação do intestino delgado a preparação necessária seja menos exigente do que na colonoscopia, requer cuidados prévios, como suspensão de certos medicamentos (ferro ou anti-inflamatórios não esteróides). No caso da cápsula do cólon, a preparação intestinal exigida antes de o doente engolir a cápsula é semelhante à da colonoscopia.
● Acessibilidade e custo: A cápsula de dupla câmara para visualização do cólon ainda não está amplamente disponível e apresenta custos elevados, limitando o seu uso como exame de rastreio de patologias mais comuns, como o cancro colorretal.
 
Perspetivas Futuras
A cápsula endoscópica é o exame de eleição para a investigação das patologias do intestino delgado. No respeitante ao cólon, embora a cápsula endoscópica seja, atualmente, mais utilizada como complemento diagnóstico, especialmente em casos de difícil acesso por métodos tradicionais, existe interesse crescente na sua aplicação como ferramenta de rastreio. No entanto, barreiras como custo, logística e limitações tecnológicas ainda restringem a sua utilização generalizada.
Nos casos específicos de doentes frágeis ou com contraindicações para exames invasivos, a cápsula surge como uma alternativa viável e eficaz.
 
Conclusão
A cápsula endoscópica representa um marco na Gastroenterologia, revolucionando a forma como avaliamos o tubo digestivo. Apesar das suas limitações, é hoje um método essencial para o diagnóstico de patologias do intestino delgado e um exemplo notável de como a tecnologia pode melhorar a prática clínica e a experiência do doente.
 
 

 

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Por altura do 20º Aniversário do Grupo
Por altura do seu 20.º aniversário, o Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal (GEDII) organiza mais uma edição da...

A abertura oficial do evento estará a cargo da Presidente do GEDII, Dra. Raquel Gonçalves, que dará as boas-vindas e o mote para os três dias de debate.

Esta reunião é o encontro por excelência dos gastrenterologistas dedicados a estas patologias. Destacamos alguns temas relevantes do programa da Reunião como o “Grab IBD from the Beginning”, com a presença do Professor Paulo Kotze, experiente cirurgião de DII, membro do GEDIIB, novo membro da International Organization of Inflammatory Bowel Disease (IOIBD), membro da European Crohn and Colitis Organization (ECCO); “Targets on the Block”, com o Professor Shomron Ben-Horin, membro da ECCO e presidente do Departamento de Doenças Inflamatórias Intestinais, da Associação Israelita de Doenças Intestinais, Samuel Fernandes, membro da Direção do GEDII e gastrenterologista ULS Santa Maria, Ferdinando D'Amico, Gastroenterologista San Raffaele Hospital, Milão; “Connecting New Drugs”, com o Professor Fernando Magro, Presidente da ECCO, gastrenterologista da ULS São João, fundador do GEDII, investigador do CINTESIS e ainda professor na FMUP, Professor Alessandro Armuzzi, Coordenador hospitalar da Unidade de Doenças Inflamatórias Intestinais em Milão e o Professor Glen Doherty, membro da ECCO; e ainda o tema “Integrative Medicine – Ready for IBD Prime Time?”, com Shomron Ben-Horin.

De realçar também a realização do curso avançado, dedicado à monitorização das doenças inflamatórias intestinais (DII) – abordagem prática, e a reunião de enfermagem, realizada no dia 24.

“A Reunião Anual do GEDII é sempre uma oportunidade de troca e partilha de experiências, case studies, novos conhecimentos, inovação de toda esta comunidade dedicada às Doenças Inflamatórias Intestinais (DII’s). Para este evento tentamos ao máximo acomodar todas as temáticas de relevo do momento, nesta área, pois um dos objetivos é atualizar os temas no tratamento das DII’s. Temos a expectativa de uniformizar os cuidados médicos nesta área a nível nacional e aplicando a evidência científica mais atual”, sublinha Sandra Dias, Diretora Executiva do GEDII.

Há duas décadas que o GEDII cria ciência e conhecimento: 20 estudos científicos, 89 publicações indexadas com elevado fator de impacto, 39 bolsas de investigação atribuídas no valor de 800.000.00 euros, apoio a 14 doutoramentos, realização de 15 reuniões anuais (80 oradores internacionais), 31 cursos de formação, e estão ainda na génese do conceituado curso para internos e jovens especialistas com 5 países envolvidos (5-Nations: Portugal, Espanha, Itália, França e Israel). Tem sido o motor da DII e é o líder nacional da procura de conhecimento no diagnostico, monitorização e abordagem terapêutica.

A comemorar o 20º aniversário do Grupo, Professor Fernando Magro, membro da Direção do GEDII, relembra que “o GEDII esteve na génese da procura de novos biomarcadores, alvos terapêuticos dirigidos e terapêutica personalizada. Foi líder mundial na exploração de novos “end-points” terapêuticos como a resposta e remissão histológica, e melhoria endoscópica-histológica da mucosa. Contudo, o que mais progrediu nos últimos anos foi o conceito de alvo terapêutico bem definido, com monitorização continua e tratamento precoce e atempado numa janela de oportunidade.”

30 de janeiro | Lisboa
A Sociedade Portuguesa para a Inovação em Microbioma e Probióticos (SPIMP), anuncia a 2ª Reunião Científica, a realizar no...
O evento terá como tema “O Círculo Virtuoso do Microbioma” e contará com a participação de conceituados profissionais de diferentes áreas da saúde como, Ginecologistas, Gastroenterologistas, Infeciologistas, entre outros.
A SPIMP tem como objetivo promover e facilitar a pesquisa, o conhecimento e a divulgação do microbioma e dos probióticos em Portugal.
A organização dedica-se a promover a compreensão dos benefícios dessas áreas de estudo para a saúde humana, animal e ambiental, bem como incentivar a colaboração entre investigadores, cientistas, profissionais de saúde e outros que demonstrem interesse pela área.
“O nosso objetivo é contribuir ativamente para a compreensão dos microrganismos que habitam no nosso corpo e como os probióticos podem ser benéficos para a nossa saúde”, de acordo com o presidente da SPIMP, Miguel Raimundo.
As atividades da Sociedade Portuguesa para a Inovação em Microbioma e Probióticos incluem a organização de conferências, workshops e simpósios focados em microbioma e probióticos.
“É sabido que a microbiota é composta por diversos micro-organismos presentes no organismo, que desempenham funções essenciais em diversas áreas, como a saúde gastrointestinal, vaginal, imunidade e o bem-estar geral do Ser Humano”, diz Miguel Raimundo, presidente da Associação.
A SPIMP tem uma comunidade diversificada, composta por investigadores, médicos, profissionais de saúde, académicos, estudantes e entusiastas da área, através da qual pretende conectar pessoas interessadas no microbioma e probióticos para fomentar a troca de conhecimentos e experiências.
“A associação é, desta forma, um canal permanente de divulgação do conhecimento científico para a sociedade portuguesa”, conclui José Miguel Raimundo.
Para participar na 2ª Reunião Científica da SPIMP basta inscrever-se no link https://forms.gle/xXsBP2e6uPjmDEq4A ou enviar um mail para [email protected]
29, 30 e 31 de janeiro de 2025 | Porto
A Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) organiza, de 29 a 31 de janeiro de 2025, o 19.º Congresso...

O Congresso, reconhecido como o principal evento científico nacional dedicado ao AVC, contará com palestrantes de renome, nacionais e internacionais, que, ao longo de três dias, abordarão temas atuais nas áreas da prevenção, tratamento e reabilitação do AVC. O caráter multidisciplinar é um dos principais pilares do evento anual da SPAVC, reunindo profissionais de diversas áreas de atuação com o objetivo de fomentar o diálogo e a cooperação entre as diferentes especialidades. “O tratamento eficaz do AVC só é possível através da colaboração entre várias especialidades, desde a fase aguda até à reabilitação. Este Congresso reflete essa necessidade, ao proporcionar um espaço de partilha e discussão multidisciplinar”, explica o Prof. Vítor Tedim Cruz, Presidente da Direção da SPAVC.

A edição de 2025 do evento marca também a celebração dos 20 anos da SPAVC, uma ocasião especial para refletir sobre os avanços alcançados ao longo das últimas duas décadas, com diferentes momentos ao longo do evento que assinalam este número.

“Celebrar os 20 anos da SPAVC é uma oportunidade para refletir sobre o percurso que nos trouxe até aqui e reforçar o compromisso com a inovação e a melhoria contínua dos cuidados ao doente com AVC”.

O Congresso incluirá várias mesas redondas que proporcionarão debates enriquecedores e uma análise aprofundada e atualizada dos principais desafios e avanços no tratamento e na prevenção do AVC. Entre as principais sessões, destacam-se os temas “Desafios na Implementação da Prevenção Primária”, “Implicações para a Gestão”, “Fase Aguda do AVC Isquémico”, “A Jornada da Bancada à Cabeceira na Investigação em Doença Cerebrovascular”, “Reabilitação”, e “Explorando Limites: Desafios no Tratamento do AVC”. 

Como já é tradição, o evento incluirá também cursos pré-congresso, que decorrerão no dia 29 de janeiro. Estes cursos são uma parte fundamental do evento, proporcionando aos congressistas a oportunidade de aprofundarem os seus conhecimentos e melhorarem as suas competências em áreas específicas. O especialista sublinha a importância da componente formativa do Congresso, referindo que “os cursos são essenciais para capacitar os profissionais com competências especializadas em áreas de interesse selecionadas”. 

A cerimónia de encerramento será marcada pela atribuição de prémios às melhores apresentações. Entre os prémios, destacam-se as três melhores Comunicações Orais (1.º, 2.º e 3.º), a melhor Comunicação Oral - Caso Clínico, as duas melhores apresentações em cartaz (e-poster), o prémio Multiprofissional, o prémio da melhor celebração do Dia Nacional do Doente com AVC, bem como a Bolsa de Investigação Prof. Castro Lopes em Doença Vascular Cerebral, cujos regulamentos podem ser consultados no website da SPAVC. O neurologista destaca a relevância destas distinções, salientado que “os prémios são uma forma de incentivar a investigação e reconhecer o esforço dos profissionais de saúde que se dedicam ao estudo do AVC. Valorizar estas contribuições é fundamental para o avanço do conhecimento e melhoria dos cuidados.”

Todos os profissionais de saúde interessados, bem como estudantes, podem efetuar a sua inscrição online no 19.º Congresso Português do AVC. “Convido todos a juntarem-se a nós nos dias 29, 30 e 31 de janeiro, no Porto! Este Congresso é mais do que um momento de partilha de conhecimento científico, representando também uma celebração de duas décadas de dedicação à prevenção e tratamento do AVC. A presença de cada um é fundamental para continuarmos a avançar juntos na luta contra o AVC”, conclui o Prof. Vítor Tedim Cruz.

Todas as informações sobre o evento podem ser consultadas no website da SPAVC (https://spavc.org/19o-congresso-portugues-do-avc/).

 

Novos membros da direção
A Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV) anuncia a sua nova direção para o mandato de 2025-2026, que...

Nelson Carvalho sublinha a importância desta missão: "É uma honra assumir a presidência da SPPCV, uma sociedade que desempenha um papel essencial no desenvolvimento da Medicina da coluna vertebral em Portugal. A nossa prioridade será fomentar a investigação, a formação contínua e a partilha de conhecimento entre profissionais, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos nossos pacientes.

A nova direção da SPPCV conta ainda com Jorge Alves e Carla Reizinho como vice-presidentes, Ricardo Rodrigues-Pinto como tesoureiro, Pedro Santos Silva como secretário-geral e Lino Fonseca como suplente. Na Assembleia Geral, Bruno Santiago assume a presidência, acompanhado por Vítor Castro como 1.º secretário e Daniela Linhares como 2.ª secretária. O Conselho Fiscal será presidido por Francisco Serdoura, com José Miguel Sousa e Ricardo Velasco como 1.º e 2.º vogais, respetivamente.

Com esta nova liderança, a SPPCV reforça o seu compromisso em continuar a ser uma referência no tratamento da patologia da coluna vertebral, contribuindo para a inovação e melhoria das práticas médicas no país.

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