Crianças

Infantários & Infeções: Alguns conselhos para pais e educadores

Atualizado: 
24/05/2019 - 12:55
As crianças que frequentam infantários apresentam risco aumentado, até duas a três vezes, de adquirir infeções, com impacto na saúde individual e na transmissão de doenças à comunidade. O risco está associado principalmente às características dos infantários. Por outro lado, medidas de prevenção simples são efetivas para diminuir a transmissão dessas doenças.
Infantários

As doenças virais são vacinas naturais!

Atualmente e nas últimas décadas, por várias razões, a grande maioria das nossas crianças iniciam a sua vida no infantário entre os 4 e os 5 meses de vida, altura em que as mães regressam ao mercado de trabalho, após o término da licença parental inicial.

O primeiro dia em que a criança vai para o infantário é um dia marcante para os pais e para toda a família, já que estes demonstram alguma ansiedade relacionada com o processo de integração do seu filho no infantário e na sua dinâmica específica.

E quando tudo começa a entrar na rotina eis que surge o primeiro sinal de preocupação: telefonam do infantário a dizer que a criança fez febre. Consequentemente, os pais têm de faltar ao trabalho e recorrer aos serviços de saúde. Será o primeiro episódio de muitos ao longo do primeiro ano de vida no infantário. Muitas vezes, os pais sentem que a criança passa mais tempo em casa doente, do que no próprio infantário, e na maior parte dos casos esta é uma situação real.

De facto, os recém-nascidos e lactentes têm menos defesas contra os micróbios presentes no ambiente que os rodeia, por isso são mais susceptíveis a contraírem infeções, especialmente se permanecerem em ambientes fechados e com outras crianças, como é o caso dos infantários. Sobretudo é a partir dos 6 meses de idade que as crianças perdem a imunidade oferecida pela mãe durante a gestação e a amamentação, pelo que estão mais expostas ao ataque de vários micróbios e a contraírem infeções.

Sabemos que estas infeções são na maioria das vezes causadas por vírus, têm um desenvolvimento limitado no tempo e que curam espontaneamente. Sabemos também que as gotículas nasais são a principal fonte de contágio, pelo que é compreensível que em locais com muitas crianças, que espirram sem pôr a mão à frente, e sem medidas eficazes de controlo, o contágio é inevitável.

Atenção que, pelo facto do contágio ser mais fácil nos infantários, não significa falta de condições dos mesmos, nem falta de cuidados por parte dos educadores. Porque mesmo nos melhores infantários, naqueles que adotam ativamente medidas de controlo de transmissão de doenças, o contágio é mais provável do que estando a criança em casa.

Boas notícias! Depois de um primeiro ano de infantário algo conturbado o organismo da criança cria as suas próprias resistências contra esses micróbios, e o segundo ano no infantário será mais tranquilo.

Mas importa esclarecer melhor os pais…

De facto, a maioria dos micróbios que provocam infeção são vírus, os quais vão causar as chamadas “viroses”. Muitas destas viroses têm quadros clínicos caraterísticos e portanto com nome específico. Como por exemplo, a rinofaringite, o exantema súbito ou a varicela. No entanto, em muitas situações em que há febre não há um quadro clínico específico, pelo que o médico o denomina apenas de “virose”. De salientar que os vírus causadores de doenças podem ser múltiplos e nem sempre são identificáveis, mesmo através de análises/exames. Em tais casos presume-se que se está perante uma virose, embora não se saiba o nome do vírus.

É importante referir que o médico tem critérios para dizer que se trata de uma virose, mesmo que o vírus não seja identificado. Assim, pelo facto, de dizer que a criança tem uma virose não significa não saber o que a criança tem, conforme muitos pais pensam!

Atenção à utilização inconsciente e imoderada de antibióticos!

É imperioso agora explicar aos pais que as viroses não se tratam com antibióticos. A maioria das doenças virais são transitórias e têm cura espontânea. Deste modo, desde que a criança nasce o seu sistema imunitário está a ser constantemente estimulado. Mesmo as crianças mais pequenas, mais susceptíveis a infeções por terem menos defesas, são capazes de pôr em alerta os seus sistemas imunitários.

Atenção: A alta prevalência de doenças transmissíveis nos infantários, associadas ao maior uso de antibióticos, têm contribuído para o surgimento de organismos multirresistentes.

Como escolher o infantário do seu filho

A escolha não é fácil, dado que existem muitos fatores a ter em consideração: proximidade de casa e do local de trabalho, preço, localização, informações e referências de pessoas conhecidas, aspeto, simpatia/afetividade espontânea, segurança/riscos/atitudes em caso de emergência, atividades, festas alusivas a datas, visitas de estudo, rituais de pertença, hora de dormir, refeições (técnica e composição, em termos de alimentação e nutrição), competências dos profissionais e número de funcionários.

Mesmo depois de tudo o que foi dito anteriormente, não pense que não há mais nada a dizer e a fazer, pelo contrário, deixamos alguns conselhos aos pais:

- Escolham um infantário espaçoso (áreas suficientes e estabelecidas por lei) e com boas condições de arejamento;

- Escolham um infantário sem demasiadas crianças por sala (cumprimento do limite de crianças por sala/que respeite a legislação vigente a este respeito) e com pessoal cuidadoso e treinado;

- Escolham um infantário com boas condições de higiene (confeção dos alimentos e equipamentos higienizados) e segurança (sistemas elétricos protegidos e com planos de emergência)

- Escolham um infantário com adequados recursos humanos (rácio de educadoras adequado e de acordo com o legislado, já que assegura o adequado desenvolvimento da criança e a sua monitorização);

- Não levem o vosso filho para o infantário se ele estiver doente, pois estará a contagiar as outras crianças e demorará mais tempo o seu processo de convalescença;

- Cumpram o calendário nacional de vacinação.

Os infantários devem ser uma solução e não um problema para os pais. Só o tempo irá dizer se a escolha dos pais foi acertada ou não. É necessário que os pais se envolvam na dinâmica dos infantários, participem nas reuniões de pais e nas assembleias, que planeiem momentos com a educadora para saberem do desenvolvimento dos seus filhos, partilhem dúvidas com os outros pais e se envolvam nas atividades dos seus filhos (por exemplo, nas festas de Natal e na festa de final de ano). Os pais devem fazer chegar a sua opinião ou dúvidas às educadoras ou mesmo à direção do infantário quando considerem que algo não está bem ou lhes pareça incorreto.

E agora…alguns conselhos para os educadores

As crianças não são as únicas pessoas envolvidas na transmissão de doenças nos infantários: familiares e funcionários também estão sob risco aumentado de adquirirem as mesmas doenças que as crianças.

Também a transmissão de doenças infeciosas nos infantários está relacionada com as práticas utilizadas nos cuidados às crianças e no cuidado ambiental. Por exemplo, a troca de fraldas é considerada o procedimento de maior risco para a transmissão de doenças parasitárias intestinais entre crianças e funcionários da creche.

A associação entre densidade populacional infantil no infantário e o risco de contrair doenças está bem documentado na literatura científica, principalmente relacionado com o número de crianças por sala.

Por outro lado, a transmissão de doenças nos infantários também está relacionada com a conduta diante das crianças doentes e da intensificação das rotinas de limpeza, face aos casos de doença infeciosa.

Há evidência científica de que a lavagem apropriada reduz a contaminação das mãos e o risco de disseminação de doenças infeciosas. De facto, intervenções para promover a lavagem das mãos são custo-efetivas, e estima-se que possam salvar milhões de vidas, com grande impacto na saúde pública.

Os principais fatores de risco identificados nas investigações científicas e as respetivas medidas de controlo estão explanados na tabela abaixo.

 

Tabela 1 – Sumário dos principais fatores de risco e medidas de controlo das doenças transmissíveis nos infantários (adaptado de Nesti & Goldbaum, 2007, p.306)

Fatores de risco

 

Medidas de controlo

Número de crianças por sala

Respeitar a legislação/normas que referem o número máximo de crianças por sala

Crianças cuidadas em conjunto independente da faixa etária

 

Crianças separadas em grupos por faixa etária.

Estado vacinal desatualizado

 

Normas e monitorização da vacinação de crianças e funcionários

Uso de fraldas de pano

 

Utilização de fraldas descartáveis

Fraldas usadas sem roupas sobre as mesmas (maior contaminação ambiental)

 

Utilização de roupas sobre as fraldas

Contaminação das mãos após determinadas atividades (uso da casa de banho, troca de fraldas, assoar o nariz)

 

Rotina da lavagem das mãos, com orientação para os momentos em que a lavagem deve acontecer

Contato com sangue e secreções

 

Uso de precauções padrão

Trocar de fraldas

 

Rotina de troca de fraldas para diminuir o risco de entrar em contato com urina e fezes

Troca de fraldas e manuseio de alimentos realizados pela mesma pessoa

 

Funcionários não acumulam funções de trocar fraldas e preparar e manipular alimentos

Contaminação da superfície onde ocorre a troca de fraldas

 

Área de troca independente e desinfetada após cada uso, com encaminhamento adequado das fraldas usadas

Contaminação ambiental

 

Rotina de limpeza de superfícies

Contaminação de brinquedos

 

Rotina de limpeza de brinquedos

 

Face ao impacto das doenças infeciosas como causa de mortalidade e morbilidade na primeira infância, ao aumento e utilização crescente de infantários na atualidade, e da evidência do aumento de risco para contraírem doenças associada à frequência crescente de infantários, são fundamentais o estabelecimento de medidas de prevenção e controlo da transmissão de doenças nesse ambiente específico, no sentido de minimizar o risco para a saúde das crianças e para as pessoas que com elas convivem. A sensibilização e treino dos funcionários dos infantários, bem como a orientação dos pais e o envolvimento dos vários agentes de saúde, são necessários e imprescindíveis para a existência e monitorização de bons programas de prevenção e controlo de infeções.

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Maria Helena Junqueira, Enfermeira Graduada, Centro Hospitalar de Leiria, Pólo Medicina da Unidade de Pombal, [email protected]

Pedro Quintas, Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Comunitária, ACES Baixo Mondego, [email protected]

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

Autor: 
Maria Helena Junqueira - Enfermeira Graduada e Pedro Quintas - Enfermeiro Especialista em Saúde Comunitária
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro e/ou Farmacêutico.
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