Hipercolesterolemia continua subdiagnosticada em Portugal

Colesterol: o inimigo silencioso do coração

Considerado o vilão no que diz respeito ao risco cardiovascular, o colesterol é, quando se mantém dentro dos valores recomendados, essencial à vida. Para entendermos a sua importância e em que condições é considerado um importante fator de risco, o Atlas da Saúde esteve à conversa com Inês Colaço, especialista em Medicina Interna no Centro Hospitalar Lisboa Norte, que alerta para as principais complicações do “colesterol mau”. Em Portugal, estima-se que cerca de metade da população se encontra em risco, sendo a doença aterosclerótica uma das principais causas de morte no país.

Considerado o vilão no que diz respeito ao risco cardiovascular, qual a importância (função) do colesterol no organismo e em que condições é considerado um fator de risco?

O colesterol é uma molécula orgânica produzida pelo nosso organismo, que se encontra em circulação no sangue e na constituição da membrana das nossas células. É essencial à vida, em quantidade adequada. Além do produzido pelo nosso corpo, também adquirimos colesterol através da alimentação. É assim fácil de compreender que os níveis de colesterol dependem não só de fatores ambientais mas também genéticos. Níveis elevados de colesterol aceleram o processo de aterosclerose que conduz à doença cardiovascular.

Que tipos de colesterol existem? Qual a diferença entre HDL e LDL?

Por se tratar de um lípido, o colesterol circula no sangue associado a proteínas, constituindo partículas de diferentes dimensões e densidades, designadas lipoproteínas. Estas incluem as quilomicra, VLDL, IDL, LDL e HDL – cada classe com o seu papel no metabolismo do colesterol. O C-HDL é habitualmente considerado “bom colesterol” e o C-LDL, “mau colesterol”. Esta reputação advém do seu papel no transporte do colesterol – enquanto o C-HDL transporta o colesterol para o fígado para ser metabolizado, o C-LDL fá-lo para a periferia, sendo estas partículas que contribuem para a deposição nas placas de ateroma.

Neste sentido, qual a importância de conhecermos o nosso perfil lipídico? E que perfil é este?

Quando se fala de perfil lipídico, fala-se do doseamento das partículas que circulam no sangue que contêm gorduras. Através de análises sanguíneas, podemos obter os níveis de colesterol total, C-HDL, C-LDL e triglicéridos, além do doseamento de outras moléculas que permitem auxiliar na avaliação de risco cardiovascular, sobretudo no âmbito de consultas especializadas. O conhecimento do nosso perfil lipídico permite alertar para a necessidade de intensificar as medidas não farmacológicas assim como a instituição de terapêutica de acordo com o seu risco cardiovascular.

De um modo geral quais os valores de colesterol recomendados? E que fatores afetam ou podem afetar os níveis de colesterol?

Em geral, advoga-se que os níveis de colesterol total sejam inferiores a 190 mg/dL e de triglicéridos, de 150 mg/dL. No entanto, o significado dos níveis de colesterol é muito variável em função do indivíduo a que se referem. A idade, as doenças concomitantes, e a própria causa dos elevados níveis de colesterol conjugam-se para avaliar o risco cardiovascular do indivíduo. Quanto mais elevado, mais exigentes são os alvos a atingir.

Quais as principais complicações do “colesterol alto”? Que eventos cardiovasculares lhe estão associados?

É habitual a associação do colesterol com consequências negativas a nível da saúde, na sequência de um processo designado aterosclerose. Com o passar do tempo, factores como o tabagismo, pressão arterial alta, diabetes mellitus e excesso de colesterol aceleram a degradação do sistema circulatório. As paredes das artérias são lesadas, com formação de placas de ateroma com colesterol na sua constituição, que dificultam a passagem do sangue e a sua chegada aos órgãos. À medida que a obstrução se torna mais significativa, a insuficiência na irrigação dos tecidos manifesta-se: a nível cardíaco, angina e enfarte do miocárdio; a demência e acidente vascular cerebral (AVC) quando o sistema nervoso é afectado; a doença arterial periférica, com dor muscular, sobretudo nos gémeos, quando a pessoa caminha realizando esforço incompatível com a irrigação sanguínea dos músculos.

Que outros (maus) hábitos contribuem para aumentar o risco cardiovascular?

Embora a dislipidemia sejam um pesado fator de risco cardiovascular, comportamentos como o tabagismo, o sedentarismo, a tolerância ao excesso de peso e a prática de uma dieta hipercalórica com predomínio de gorduras e hidratos de carbono, sobretudo açúcares simples, contribuem para o aumento do risco cardiovascular.

Depois de identificado, como se trata o colesterol elevado? Quais os medicamentos disponíveis?

Pelo seu perfil de eficácia e segurança, sem dúvida que as estatinas são primeira opção para o tratamento da dislipidémia. As estatinas intervêm no processo de síntese de colesterol no fígado, reduzindo os seus níveis. Apesar dos efeitos adversos hepáticos e musculares serem mencionados com frequência, na realidade restringem-se a menos de 1% dos doentes medicados, sem gravidade na maioria dos casos. Estão disponíveis diversas estatinas, de várias intensidades e em várias dosagens, que se podem adequar a cada situação. A ezetimiba é um inibidor da absorção do colesterol a nível intestinal que pode ser utilizada isoladamente ou em associação às estatinas; não sendo tão potentes como algumas delas, é ainda assim um contributo importante para o controlo do colesterol. Os suplementos de ómega 3 e nutracêuticos são medidas adicionais possíveis, acabando na maioria das vezes por constituir alternativas reservadas a casos de intolerância comprovada às estatinas, dado que são pouco eficazes. Outras terapêuticas farmacológicas habitualmente não são utilizadas em função do perfil de efeitos adversos.

Em matéria de prevenção, que cuidados devemos ter para manter os níveis de colesterol dentro dos parâmetros considerados adequados?

Em primeiro lugar, os hábitos alimentares devem ser escrutinados e aperfeiçoados. O verdadeiro desafio é fazer perdurar estes hábitos no tempo. Devem ser evitados os excessos calóricos, o sal, os açúcares simples e as gorduras saturadas. Deve privilegiar-se a ingestão de vegetais, frutas, grãos integrais, legumes, fontes saudáveis de proteínas (lacticínios com baixo teor de gordura, aves sem pele, peixe e mariscos e frutos secos), com a utilização de azeite ou de óleos vegetais não tropicais e com limitação das gorduras saturadas trans, dos doces, das bebidas açucaradas e, de uma forma geral, das carnes vermelhas.

Além da alimentação, também uma vida ativa é essencial para evitar o excesso de peso e obesidade. Se não for adepto de alguma modalidade desportiva, deve pelo menos realizar uma caminhada rápida, sem interrupções, durante 30 minutos na maior parte dos dias da semana.

Em relação às bebidas alcoólicas, estas devem ser consumidas com moderação (2 bebidas por dia para os homens e 1 para as mulheres); o tabaco deve ser completamente abolido dos nossos hábitos.

Estas recomendações são válidas para todas as idades, estando sujeitas ao contexto de cada indivíduo, nomeadamente no que diz respeito aos antecedentes de doença de cada um. São princípios que devem ser incutidos em idade jovem.

Por forma a alertar para o impacto do colesterol na saúde em geral, que recomendações gostaria de fazer?

A elevação do colesterol é apenas uma das vertentes negativas do estilo de vida da população ocidental, cuja maior causa de mortalidade é a doença cardiovascular. A reversão destes comportamentos nocivos contribui não só para o controlo deste factor de risco mas também do risco de progressão para diabetes e hipertensão arterial.

Que conselhos deixa a quem já se encontra “em risco”?

A consciencialização da presença dos fatores de risco cardiovasculares é o primeiro passo para melhorar gradualmente o seu estilo de vida. Consulte o seu médico, transmita-lhe os seus receios e dificuldades em tornar os seus hábitos mais saudáveis. O acompanhamento médico regular e o cumprimento da terapêutica prescrita é essencial. A perspectiva de uma vida longa e com qualidade deve ser a nossa motivação diária para melhorar.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
ShutterStock