Doenças Digestivas

Cancro do Tubo Digestivo

Atualizado: 
30/09/2020 - 15:01
O cancro digestivo mata 24 pessoas por dia em Portugal. No entanto, quando diagnosticada precocemente, a doença pode ter melhor prognóstico. Neste artigo, iremos abordar duas neoplasias do tudo digestivo que muito preocupam os Portugueses e que suscitam muitas consultas de especialidade: o cancro colorretal e o cancro gástrico.

Cancro colo-rectal (CCR) 

O cancro colo-rectal tem vindo a aumentar a sua prevalência e em Portugal existem 6400 novos casos/ano, com cerca de 80000 doentes ativos e tem uma taxa de mortalidade de 65%.

A localização ao longo do cólon representa 20% no recto, 25% na sigmoideia, 5% no descendente, 15% no transverso e 25% no ascendente e cego, registando-se nos últimos 50 anos um desvio gradual com aumento da incidência dos tumores do cólon direito.

A sintomatologia é diferente nos diversos segmentos:

Recto: alteração do padrão defecatório, perda de sangue nas fezes (hematoquézias) e queixas proctológicas.

Cólon esquerdo: sintomas obstrutivos por menor calibre luminal, tais como: dor abdominal, obstipação alternando com diarreia, fezes de menor volume e hematoquézias.

Cólon direito: sintomas constitucionais, anemia e massa palpável no abdómen.

Em termos etários, verifica-se um aumento franco da incidência a partir dos 50 anos.

O rastreio está validado acima dos 50 anos, devido ao CCR ter uma alta incidência, ter uma lesão precursora identificada (adenoma- vulgarmente conhecido por pólipo) e ter grupos de risco identificados. O rastreio foi responsável por uma redução da mortalidade por CCR nos EUA de 53%.

O rastreio do CCR pode ser efetuado por exames fecais ou por exames estruturais.

Nos exames fecais salienta-se a pesquisa anual de sangue oculto nas fezes. Esta forma de rastreio está implementada em Portugal e todos os médicos de Medicina Geral e Familiar devem solicitar a sua execução em utentes com idade igual ou superior a 50 anos.  

No exames estruturais salienta-se a colonoscopia total de 10/10A , a colonoscopia esquerda de 5/5 A e a colonografia por TAC. O clister opaco já não aparece como método de rastreio. A colonoscopia total constitui o método mais eficaz mas também mais caro, invasivo e com maior risco.

A avaliação do risco pessoal de CCR condiciona o tempo e a metodologia usada no rastreio.

Assim, nomeadamente na história pessoal de pólipos, podemos seguir as seguintes orientações:

Pólipos Hiperplásicos - colonoscopia ao fim de 10 anos, pois o risco de malignização é praticamente nulo.

1-2 adenomas tubulares pequenos - colonoscopia ao fim de 5 anos

3-10 adenomas tubulares ou adenoma avançado - colonoscopia ao fim de 3 anos

Nos utentes com história familiar de CCR o rastreio deve iniciar-se 10 anos antes da população em geral, isto é, aos 40 anos.

Cancro Gástrico (CG)

Em relação ao CG tem-se verificado nos últimos anos um declínio gradual na incidência mundial, refletindo parcialmente a redução na infeção por Helicobacter pylori.

Por outro lado, tem-se verificado um aumento da incidência dos tumores gástricos proximais ao nível  do cárdia.

Representa a sexta neoplasia mais diagnosticada e a quarta causa de morte por neoplasia.

Os sintomas mais frequentemente associados ao CG são: dispepsia (más digestões com dor ou desconforto abdominal), emagrecimento, vómitos e anemia.

O CG (adenocarcinoma gástrico) divide-se em 2 tipos: intestinal e difuso ou de células pouco coesas (classificação de Lauren).

O tipo intestinal é mais frequente no sexo masculino e na idade mais avançada, surge em áreas de maior risco e está associado a fatores ambientais.

O ADC de tipo intestinal segue a evolução de Pelayo Correa: mucosa normal - gastrite superficial - inflamação crónica - gastrite atrófica/metaplasia intestinal - displasia e carcinoma.

O tipo difuso não tem predominância de sexo, atinge indivíduos mais jovens e tem pior prognóstico.

Os factores de risco são:

Ambientais: dieta, tabaco, álcool, status socio-económico e Helicobacter pylori .

Hospedeiro: cirurgia gástrica prévia, anemia megaloblástica, sexo masculino (2:1), doença de Menétrier, predisposição familiar, pólipos gástricos, úlcera gástrica e grupo sanguíneo A.

O diagnóstico faz-se essencialmente por endoscopia digestiva alta, mas em programas de rastreio pode-se utilizar o teste do pepsinogénio com redução da relação pepsinogénioI/II.

Não existe atualmente em Portugal, nenhum plano de rastreio implementado e apenas poderá ser efetuado um programa em doentes de risco aumentado, nomeadamente utentes com familiares de primeiro grau com neoplasia gástrica e em doentes com gastrite atrófica documentada.

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Autor: 
Dr. António Pinto - Gastroenterologista Hospital Lusíadas Lisboa
Nota: 
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Pixabay e Dr. António Pinto