Falta de investimento na investigação

Cancro do Pâncreas é o “parente pobre na oncologia”

Atualizado: 
15/11/2018 - 15:30
Apesar da evolução que se tem verificado na oncologia, nas últimas décadas, o cancro do pâncreas mantém-se como um dos mais mortíferos e com menos opções terapêuticas.

Cancro do Pâncreas

O Cancro do pâncreas é o 11º cancro mais frequente em Portugal, mas o 6º em termos de mortalidade. São diagnosticadas anualmente em Portugal cerca de 1500 novos casos. Estima-se que neste ano, morram cerca de 1400 doentes, vítimas de cancro do pâncreas.

O pâncreas é uma glândula que se localiza no abdómen, entre o estomago e coluna. É responsável por secretar enzimas que ajudam na digestão e hormonas responsáveis pela regulação da glicémia (açúcar no sangue). Anatomicamente é dividido em 3 partes: cabeça, corpo e cauda.

Abordaremos neste artigo o tipo de cancro mais comum no pâncreas, responsável por cerca de 85% dos casos (os tumores neuro-endócrinos do pâncreas não serão abordados).

Origem, fatores de risco, rastreio, sintomas e diagnóstico

As células do pâncreas dividem-se de maneira a repor as células envelhecidas, como em quase todos os órgãos do corpo. Algures no processo, podem a acumular erros e novas células crescem, sem controlo do organismo, ou células mais velhas não morrem, formando tumores (podem ser malignos ou benignos). O tumor maligno é denominado cancro, e caracteriza-se por células que escapam ao controlo do organismo, multiplicando-se desordeiramente e podendo invadir outros órgãos.

Fatores de risco

Os tumores do pâncreas são habitualmente diagnosticados em idades superiores a 60 anos, sendo que cerca de 47% são diagnosticados acima dos 75 anos. Além da idade, há outros fatores, relativamente bem estabelecidos, que podem contribuir para o aumento do risco: o tabagismo, obesidade, história familiar de cancro do pâncreas, diabetes e pancreatite. Outros fatores parecem, ainda contribuir, de uma forma menos esclarecida, para o aumento de risco de cancro do pâncreas, mas que necessitam de mais estudo (álcool, ingestão de carnes vermelhas e carnes processadas, grupo sanguíneo e “pedras” na vesícula). Em relação ao tabagismo, é estimado que este possa estar na origem de 1 em cada 3 casos de cancro do pâncreas, enquanto o excesso de peso e obesidade podem estar na origem de 1 em 8 casos de cancro do pâncreas. O cancro de pâncreas familiar é raro, sendo responsável por menos de 10% dos diagnósticos de cancro do pâncreas. Contudo, se tiver na família dois ou mais familiares em primeiro grau com cancro do pâncreas, mais de três casos na família (do mesmo lado), ou alguma síndroma genética que aumente o risco de cancro do pâncreas, dirija-se ao seu médico assistente para vigilância ativa/encaminhamento para consulta de risco familiar.

Sintomas e diagnóstico

Apenas 15 a 20% dos doentes com cancro do pâncreas são diagnosticados em estadios iniciais. A grande dificuldade de diagnóstico precoce no cancro do pâncreas prende-se com o fato de não haver um método de rastreio válido e da maioria dos sintomas serem inespecifícos e, muitas vezes, também pela localização do pâncreas, se fazerem sentir numa fase mais tardia da doença. A perda de apetite, a perda de peso, a dor na parte superior do abdómen e a icterícia (coloração amarela da pele) são sem dúvida os sintomas mais comuns, necessitando de uma atenção médica rápida.

O diagnóstico e estadiamento (avaliar extensão da doença/ exclusão de metastização à distância) podem fazer-se de várias formas usando vários tipos de exames que vão desde ecografia, TAC, ressonância magnética, ecoendoscopia, entre outros, tendo em conta cada caso.

Tratamento

O único tratamento potencialmente curativo é a cirurgia, contudo, apenas 15 a 20% dos casos se apresentam em estádios precoces que permitam cirurgia. Além desta limitação (diagnostico tardio), a sobrevivência aos 5 anos para doentes submetidos a cirurgia é inferior a 20%. Nos últimos anos, assistiu-se a uma evolução de tratamentos, usando a multimodalidade, com quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Apesar deste desenvolvimento, as melhorias foram poucas, mantendo-se um cancro com poucas opções terapêuticas, e nos casos não operáveis, a quimioterapia como opção. Decorrem estudos relacionados com o cancro do pâncreas, não só a nível das próprias células cancerígenas como também a nível do ambiente em que o tumor se insere, de maneira a perceber qual a melhor estratégia de tratamento. Este investimento na busca de sabedoria, a nível do cancro do pâncreas (como em todos os tipos de cancro) é fundamental, uma vez que este se mantém como parente pobre na oncologia, em termos de estratégias terapêuticas. 

Dr. Daniel Romeira - Oncologista Hospital Lusíadas Lisboa
Nota: 
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