Terceiro cancro mais frequente do aparelho reprodutor feminino

Cancro do Ovário

Uma em cada três pessoas no mundo desenvolvido terá cancro em algum momento da sua vida, sendo que mais pessoas são afectadas já que a doença tem um forte impacto também sobre a família e amigos do doente.
O cancro desenvolve-se a partir de uma só célula com mutações no seu ácido desoxirribonucleico, conhecido pelas siglas ADN, o material genético que constitui as instruções essenciais para o desenvolvimento do organismo. Em vez de cumprir o ciclo celular normal, ou seja, amadurecer e morrer, as células cancerígenas dividem-se de forma descontrolada e amadurecem.
 
O fenómeno pode acontecer em qualquer parte do organismo, incluindo no sangue e nos órgãos de formação do sangue. Neste último caso não se formam os tumores sólidos.
 
A multiplicação descontrolada das células causa uma massa de tecido: os tumores. Geralmente recebem seu nome na função do tecido ou do órgão em que se originam (por exemplo, o cancro da mama) ou, em alguns casos, pelo tipo de células que lhes dão forma (por exemplo, leucemia, carcinoma a basocelular).
 
São considerados, de uma maneira geral, dois grandes tipos grandes de tumores: tumores benignos, que geralmente são de tratamento simples, e os tumores malignos, que representam um risco mais grande para a saúde.
 
No tumor benigno, as células tumorais permanecem na área em que o crescimento anormal foi originado. Os tumores benignos raramente voltam a surgir uma vez que são completamente eliminados. O tratamento habitual consiste em sua extirpação através de cirurgia.
 
Os tumores malignos são formados por células cancerígenas que têm a capacidade abandonar o seu local "primário” de crescimento tumoral e disseminar-se aos órgãos circundantes ou a tecidos do organismo. Nesta situação, as células cancerígenas separam-se do tumor original e viajam através do sangue ou dos vasos linfáticos a zonas do organismo distantes da área inicial do tumor. Aí começam a crescer e a substituir o tecido normal formando novos tumores denominados metástases, ou tumores secundários.
 
Cada tipo de cancro diferente comporta-se de forma distinta no que diz respeito ao crescimento, resposta ao tratamento e à probabilidade e perspectivas de sobrevivência.
 
Entre 5 a 10 por cento de todos os cancros devem-se a um defeito em diversos genes individuais. Estes cancros são hereditários e ocorrem em membros de uma mesma família. Aproximadamente 20 por cento dos cancros estão associados a infecções crónicas como as causadas pelo vírus da hepatite, da Helicobacter pyloriou do vírus do papiloma humano. Contudo, na maioria dos casos os tumores devem-se a causas muito mais complicadas e heterogéneas.
 
Cada vez mais se associam os estilos de vida como principais causas do cancro. Entre estes factores destacam-se o consumo do tabaco, a exposição a carcinogéneos relacionados com actividades profissionais, a radiação ultravioleta, a radiação ionizada e a dieta ocidental. Ao mesmo tempo, a prática habitual de exercício físico ou a adopção de uma dieta saudável parecem exercer o efeito contrário.
 
Nos próximos 20 anos o número de mortes atribuídas ao cancro será duplicado em qualquer lugar no mundo. As razões residem principalmente no crescimento rápido de casos de cancro nos países menos desenvolvidos, onde o consumo do tabaco continua a aumentar.
 
O cancro do pulmão é o mais mortal, pois segundo os dados existentes, mata mais pessoas do que qualquer outro tipo.
 
O cancro da mama também está regista um aumento nos países menos desenvolvidos, com um aumento de cerca de 5 por cento. O cancro do colo do útero, prevenível e tratável nos países industrializados, continua a ser a principal causa da morte nas mulheres que vivem nos países mais pobres em África.
 
A Doença - Cancro do Ovário
Os ovários fazem parte do aparelho reprodutor feminino e estão localizados na pélvis. Cada ovário é mais ou menos do tamanho de uma amêndoa. Os ovários produzem as hormonas femininas - estrogénio e progesterona e libertam óvulos que se deslocam a partir de cada ovário, através da trompa de Falópio em direcção ao útero. Quando a mulher está na menopausa, os ovários deixam de libertar óvulos e produzem níveis hormonais muito inferiores.
 
O cancro do ovário (carcinoma do ovário) desenvolve-se sobretudo nas mulheres com 50 e 70 anos. Globalmente, cerca de 1 em cada 7 mulheres contrai esta doença. É o terceiro cancro mais frequente do aparelho reprodutor feminino, mas, em compensação, morrem mais mulheres de cancro do ovário do que de qualquer outro que afecte o aparelho reprodutor.
 
Os ovários incluem vários tipos de células, cada uma das quais pode transformar-se num tipo diferente de cancro. Foram identificados pelo menos 10 tipos diferentes de cancros ováricos, pelo que o tratamento e as perspectivas de recuperação diferem conforme o tipo específico.
 
As células ováricas cancerosas podem disseminar-se directamente até à área que as rodeia e, pelo sistema linfático, até outras partes da pélvis e do abdómen. As células cancerosas também podem propagar-se pela circulação sanguínea e, finalmente, aparecer em pontos distantes do corpo, sobretudo o fígado e os pulmões.
 
Quando o cancro atinge outra zona do organismo, a partir do seu local de origem, o novo tumor tem o mesmo tipo de células e o mesmo nome do tumor de origem. Por exemplo, se o cancro do ovário metastizar para o fígado, as células cancerígenas existentes no fígado serão, na realidade, células cancerígenas do ovário. Será um cancro do ovário metastizado, e não cancro do fígado. Por essa razão, é tratado como cancro do ovário e não como cancro do fígado.
 
O cancro do ovário pode invadir ou disseminar-se para outros órgãos:
 
Invasão: Um tumor maligno do ovário pode crescer e invadir os órgãos adjacentes ao ovário, tais como as trompas de Falópio e o útero.
Libertação: Um tumor primário do ovário pode libertar células cancerígenas. Esta libertação no abdómen pode levar à formação de novos tumores na superfície dos órgãos e tecidos adjacentes. O médico pode chamar-lhes sementes ou implantes.
Disseminação: As células cancerígenas podem disseminar-se através do sistema linfático para os gânglios linfáticos na pélvis, abdómen e tórax. Através da corrente sanguínea, as células cancerígenas podem também atingir outros órgãos como o fígado e os pulmões.
 
Cancro Vs Quistos
Os quistos do ovário podem estar localizados na superfície do ovário ou no seu interior. Os quistos contêm um líquido e, por vezes, também tecidos sólidos. A maior parte dos quistos dos ovários são benignos (não são considerados cancro) e desaparecem com o tempo. Por vezes, o médico pode descobrir um quisto que não desaparece ou que aumenta de tamanho, o que o levará a pedir mais exames para se certificar de que o quisto não é maligno.
 
Factores de Risco
Um factor de risco é algo que pode aumentar a probabilidade de vir a desenvolver uma doença. Nem sempre é possível explicar o porquê de algumas mulheres sofrerem de cancro do ovário e outras não. Contudo, sabe-se que uma mulher com determinados factores de risco está mais predisposta a ter cancro do ovário.
 
O facto de apresentar um factor de risco não significa que a mulher sofra, ou venha a sofrer de cancro do ovário. A maioria das mulheres que apresenta factores de risco não desenvolve cancro do ovário e, por outro lado, muitas mulheres com a doença não têm factores de risco conhecidos, à excepção do factor idade.
 
Estudos realizados determinaram os seguintes factores de risco para o cancro do ovário:
 
1. Antecedentes familiares de cancro: as mulheres cuja mãe, filha (s) ou irmã (s) tem ou tiveram cancro do ovário apresentam um risco acrescido de desenvolver a doença. As mulheres com antecedentes familiares de cancro da mama, útero, cólon ou do recto podem, de igual modo, apresentar um risco acrescido para desenvolver cancro do ovário. O facto de algumas mulheres da mesma família terem tido cancro do ovário ou da mama, sobretudo em novas, é considerado um antecedente familiar muito forte. Se tal acontecer, poder-lhe-á ser sugerido que a própria, bem como as outras mulheres da família, realizem um teste genético; estes testes podem revelar a presença de determinadas alterações genéticas que aumentam o risco de cancro do ovário.
2. Antecedentes pessoais de cancro: as mulheres que já tiveram cancro da mama, útero, cólon ou recto apresentam um risco acrescido de vir a desenvolver cancro do ovário.
3. Idade superior a 55 anos: a maioria das mulheres diagnosticadas com cancro do ovário tem mais de 55 anos.
4. Nunca ter engravidado: as mulheres com idade avançada e que nunca tenham engravidado apresentam um risco acrescido de desenvolver cancro do ovário.
 
Terapêutica hormonal na menopausa: alguns estudos sugerem que as mulheres que fazem terapêutica hormonal apenas com estrogénio (sem progesterona), durante 10 ou mais anos, podem apresentar um risco acrescido de desenvolver cancro do ovário.
Os investigadores têm investigado se a toma de medicamentos para a fertilidade, a utilização de pó de talco ou a obesidade constituem factores de risco para o cancro do ovário. A resposta não é clara, o que leva a que não sejam considerados factores de risco relevantes.
 
Sintomas

Um cancro do ovário pode atingir um tamanho considerável antes de provocar sintomas. O primeiro sintoma pode ser um ligeiro mal-estar na parte inferior do abdómen, semelhante a uma indigestão. A hemorragia uterina não é frequente.

O facto de uma doente pós-menopáusica ter ovários maiores pode ser um sinal precoce de cancro, apesar de o seu crescimento também se poder dever a quistos, a massas não cancerosas e a outras afecções. De qualquer forma, pode aparecer líquido no abdómen e este pode inchar devido a isso ou ao aumento de tamanho do ovário. Nesta fase, a mulher pode ter dor na pélvis, anemia e perda de peso.

Em determinado caso excepcional, o cancro do ovário segrega hormonas que provocam um crescimento excessivo do revestimento interno uterino, um aumento no tamanho das mamas ou um maior desenvolvimento de pêlos.

Assim, à medida que o cancro evolui, podem surgir os seguintes sintomas:
1. Pressão ou dor no abdómen, pélvis, costas ou pernas;
2. Abdómen inchado ou sensação de "empanturrado”;
3. Náuseas, indigestão, gases, obstipação (prisão de ventre) ou diarreia;
4. Sensação constante de grande cansaço;

Alguns sintomas menos frequentes são:
1. Falta de ar;
2. Vontade constante de urinar;
3. Hemorragias vaginais invulgares (períodos de grande fluxo ou hemorragia, após a menopausa)

Na maioria dos casos, estes sintomas não são indicadores de cancro, embora apenas o médico possa afirmá-lo com exactidão.

Diagnóstico
Existem vários exames a realizar aquando de algum sintoma sugestivo da presença de cancro do ovário.

1. Exame físico: o médico avalia o estado geral do doente, pressionando o abdómen para verificar a existência de um tumor ou uma acumulação anormal de líquido (ascite). Pode ser retirada uma amostra de líquido para a identificação de possíveis células cancerígenas do ovário.
2. Exame pélvico: o médico palpa os ovários e órgãos adjacentes para verificar a presença de "caroços” ou outras alterações de formato ou tamanho. O teste de Papanicolau faz parte do exame pélvico normal, mas não é utilizado para recolher células do ovário: pode permitir a detecção do cancro do colo do útero não sendo, no entanto, utilizado no diagnóstico do cancro do ovário.
3. Análises ao sangue: o médico poderá requisitar análises ao sangue. O laboratório pode avaliar os níveis de várias substâncias, caso a sua concentração for elevada, pode ser um sinal de cancro ou de outras perturbações.
4. Ecografia: o aparelho de ecografia utiliza ondas ultrassónicas, que não são audíveis para o ser humano. O aparelho emite ondas sonoras para os órgãos localizados no interior da pélvis, que as reflectem. O computador cria uma imagem a partir dos ecos reflectidos, que pode revelar um tumor do ovário. Para melhor visualização dos ovários, o dispositivo pode ser inserido na vagina (ecografia transvaginal).
5. Biopsia: uma biopsia consiste na recolha de tecidos ou líquido para determinar a presença de células cancerígenas. Com base nos resultados das análises ao sangue e da ecografia, o médico poderá sugerir a realização de uma cirurgia (laparotomia) para remover tecido e líquido da pélvis e do abdómen. Geralmente, é necessária uma cirurgia para diagnosticar o cancro do ovário.

Estadios da doença
Para melhor definir o plano de tratamento, o especialista necessita conhecer o grau e extensão (estadio de evolução) da doença.

A determinação do estadio baseia-se no facto de o tumor ter, ou não, invadido ou alastrado para tecidos adjacentes e, em caso afirmativo, para que outras partes do organismo.

Regra geral, é necessário realizar uma cirurgia para se poder determinar o estadio de evolução. São retiradas amostras de tecido da pélvis e do abdómen para determinar se existem células cancerígenas.

Estadios de evolução do cancro do ovário:

Estadio I: presença de células cancerígenas num ou nos dois ovários. Podem encontrar-se células cancerígenas na superfície dos ovários ou no fluído recolhido do abdómen.
Estadio II: as células cancerígenas espalharam-se de um ou ambos os ovários para outros tecidos da pélvis. Existem células cancerígenas nas trompas de Falópio, no útero ou noutros tecidos da pélvis. Podem encontrar-se células cancerígenas no líquido recolhido do abdómen.
Estadio III: as células cancerígenas disseminaram-se para o exterior da pélvis ou para os gânglios linfáticos dessa região. Podem encontrar-se células cancerígenas no exterior do fígado.
Estadio IV: as células cancerígenas disseminaram-se para tecidos fora do abdómen e da pélvis; podem ser encontradas no interior do fígado ou noutros órgãos.

Tratamento
O tratamento do cancro do ovário é cirúrgico. O alcance da cirurgia depende do tipo específico do cancro e do seu estádio. Se não se tiver espalhado para além do ovário, é possível extrair só o ovário afectado e a trompa de Falópio do mesmo lado. Se o cancro se tiver propagado para além do ovário, devem ser extraídos os dois ovários e o útero, bem como os gânglios linfáticos próximos e todas aquelas estruturas circundantes pelas quais o cancro costuma expandir-se.

Depois da cirurgia, pode ser administrada radioterapia e quimioterapia para destruir qualquer pequena zona cancerosa residual. O cancro do ovário que já se disseminou (deu lugar a metástases) é difícil de curar.

Cinco anos depois do diagnóstico, o índice de sobrevivência das mulheres com os tipos mais frequentes de cancro do ovário é de 15 a 85 por cento. Esta margem tão ampla reflecte diferenças na agressividade de certos cancros e nas diversas respostas imunológicas face ao cancro entre as mulheres. O tempo até à cicatrização e o período de recuperação variam de mulher para mulher.

Se a mulher ainda não atingiu a menopausa, a cirurgia poderá provocar-lhe ondas de calor, secura vaginal e suores nocturnos. Estes sintomas são provocados pela perda súbita de hormonas femininas.

O cancro do ovário e o seu tratamento podem originar outros problemas de saúde. Poderão os doentes ter de receber cuidados de suporte para prevenir ou controlar estes problemas e melhorar o seu conforto e qualidade de vida.

1. Dor: o seu médico ou um especialista no controlo da dor, podem sugerir algumas formas para aliviar ou reduzir a dor.
2. Abdómen inchado (devido à acumulação anormal de líquido - ascite): o inchaço pode ser desconfortável, mas a equipa médica poderá retirar o líquido sempre que o seu volume aumente.
3. Obstrução intestinal: o cancro pode obstruir o intestino; este pode ser desobstruído através de cirurgia.
4. Pernas inchadas (devido ao linfedema): ter as pernas inchadas pode tornar muito desconfortável e difícil curvar-se. Poderá ser útil fazer exercício, massagens ou usar meias elásticas. Os fisioterapeutas com formação para controlar o linfedema podem também ajudar.
5. Falta de ar: o cancro avançado pode fazer com que se armazene líquido em redor dos pulmões, o que dificulta a respiração. A equipa médica pode retirar o líquido, sempre que este aumentar de volume.
6. Tristeza: é normal sentir-se triste depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro do ovário. Algumas pessoas consideram de grande utilidade falar sobre os seus sentimentos.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico e/ou Farmacêutico.
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