Ambientes familiares positivos estão associados a um menor risco de dor crónica em adolescentes

Publicado na International Journal of Public Health, o estudo analisou informação de 1473 jovens acompanhados desde o nascimento no âmbito da Geração 21, uma das maiores coortes populacionais em Portugal. Aos 18 anos, os participantes reportaram as suas experiências de dor e perceções das relações familiares, permitindo aos investigadores examinar de que forma o funcionamento familiar, as condições socioeconómicas e as experiências adversas na infância se relacionam com a dor no final da adolescência.
Os resultados mostram que a dor é uma experiência comum nesta fase da vida: 43% dos participantes relataram dor em dois ou mais locais do corpo nos três meses anteriores e quase um em cada quatro reportou dor musculoesquelética crónica (ou seja, com duração superior a três meses). No entanto, os adolescentes que percecionavam o seu ambiente familiar como positivo e coeso, com fortes laços emocionais, comunicação aberta e baixos níveis de conflito, apresentaram um risco substancialmente menor de sentir dor em múltiplos locais e dor crónica.
“O bom funcionamento familiar destacou-se como um fator protetor consistente”, explica Nare Navasardyan, primeira autora do estudo. “Os jovens que relataram melhores relações familiares tinham menor probabilidade de referir dor persistente ou generalizada e esta associação foi observada em todos os grupos socioeconómicos.”
O funcionamento familiar foi avaliado através de um questionário validado que foca alguns aspetos-chave como a coesão familiar, a expressividade e o conflito. Os adolescentes provenientes de famílias mais coesas e com baixos níveis de conflito tinham uma probabilidade significativamente menor de relatar dor, enquanto níveis mais elevados de conflito familiar estavam associados a maior probabilidade de dor em múltiplos locais e de dor musculoesquelética crónica.
Em contraste, os indicadores socioeconómicos tradicionais, como o rendimento do agregado familiar, a escolaridade e a ocupação dos pais, tiveram um impacto menos relevante. Com exceção da ocupação da mãe, que apresentou uma associação modesta com a dor em múltiplos locais, os fatores socioeconómicos não modificaram substancialmente a relação entre o funcionamento familiar e a dor. De forma semelhante, as experiências adversas na infância reportadas aos 13 anos mostraram apenas associações fracas com a dor aos 18 anos.
Segundo os autores, estes resultados reforçam a importância de considerar o ambiente familiar na análise biopsicossocial da dor. “A adolescência é um período crítico do desenvolvimento e a dor vivida nesta idade pode persistir na idade adulta”, refere Nare Navasardyan. “Os nossos resultados sugerem que promover relações familiares positivas pode ajudar a prevenir a consolidação da dor crónica, independentemente das circunstâncias socioeconómicas.”
Os resultados apontam para o potencial valor de estratégias universais de prevenção que promovam a coesão familiar, a comunicação e a resolução de conflitos. “Intervenções que apoiem um melhor funcionamento familiar podem beneficiar adolescentes de todo o espectro social”, concluem os autores, “e devem ser consideradas como parte de estratégias mais amplas para reduzir o peso da dor crónica ao longo da vida.”
