Obesidade Infantil

Em Portugal uma em cada três crianças é obesa

Segundo o estudo 2013-2014 da APCOI que contou com 18.374 crianças (uma das maiores amostras neste tipo de investigação): 33,3% das crianças entre os 2 e os 12 anos têm excesso de peso, das quais 16,8% são obesas. De acordo com a Comissão Europeia, Portugal está entre os países da Europa com maior número de crianças afetadas por esta epidemia. No âmbito do Dia Mundial de Combate à Obesidade, conversámos com a nutricionista Ana Rita Lopes sobre o problema.

Na sua opinião a que se deve esta epidemia?

A obesidade é uma epidemia que está diretamente relacionada com os maus hábitos alimentares das crianças, isto é, consumo excessivo de calorias provenientes de açúcares e gordura e uma ingestão deficitária de cereais e hortofrutícolas. Além disso, aliado ao padrão alimentar inadequado verificam-se baixos níveis de atividade física.

Como devem os pais reagir no que toca à alimentação?

Para além da formação e informação às crianças, é necessário, também, formar e consciencializar os pais para esta epidemia mundial. Os pais deverão ser educados para a importância de uma alimentação saudável e para o seu impacto na saúde. Os pais deverão dar o exemplo e incentivar os seus filhos a obter um estilo de vida saudável, isto é, hábitos alimentares saudáveis com o aumento da ingestão de cereais integrais e hortofrutícolas e com a diminuição da ingestão de alimentos processados, riscos em gorduras, açúcares e sal. Além disso, incentivá-los ao aumento da atividade física.

O que deveriam as escolas e o Estado fazer para ajudar a resolver este problema grave?

A Direção Geral de Saúde desenvolveu um Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, cujos objetivos são:

Aumentar o conhecimento da população portuguesa nesta temática,

Adequar a disponibilidade de alimentos em ambiente escolar e espaços públicos,

Melhorar o modo de atuação dos profissionais que influenciam conhecimentos nesta área,

Desenvolver parcerias e projetos em diversos sectores (agricultura, desporto, educação…).

A temática da alimentação saudável é lecionada em âmbito escolar pelos educadores. As escolas têm indicações relativamente aos alimentos que poderão ou não ser fornecidos em cantinas e bufetes e promovem condições para o aumento da atividade física.

Temos ainda um longo caminho a percorrer no que toca à prevenção da obesidade infantil, mas os primeiros passos já estão a ser dados neste sentido.

E no que se refere ao exercício físico?

O exercício físico deverá ser tanto incentivado pelos pais como pelos educadores. Na escola a atividade física é incentivada através da disciplina de Educação Física, bem como, de atividades extracurriculares disponibilizadas. Os pais deverão incentivar os seus filhos à realização de atividade física, nomeadamente em atividades ao ar livre.

A “culpa” é das famílias ou do sistema social?

A responsabilidade é de ambas as partes. Por um lado, o marketing e a comunicação social incentivam ainda a aquisição de alimentos processados ricos em açúcares, gorduras e sal. Os pais e educadores ainda não têm formação suficiente no que respeita à temática da alimentação saudável e ainda se verifica que os pais têm um padrão alimentar incorreto e são sedentários. Na verdade, os pais são encarados como “modelo” para os seus filhos e se os pais mantiveram hábitos alimentares incorretos e o sedentarismo, também, as crianças seguirão esse mesmo estilo de vida.

Como deveria ser a alimentação tipo de uma criança entre os 7 e os 10 anos?

De um modo geral, deveria ser uma alimentação menos rica em alimentos processados do que aquilo que é a alimentação típica das nossas crianças, hoje em dia. Devia ser uma alimentação mais ricas em legumes, em fruta, em cereais, em tudo o que são “alimentos de verdade” e que são a base da nossa dieta mediterrânica e da nossa roda dos alimentos. São estes alimentos que nos dão os nutrientes de que nós precisamos para o nosso dia-a-dia, nomeadamente as vitaminas e os minerais, nos quais os alimentos processados, são regra geral, muito pobres.

Na sua opinião é respeitada de alguma forma?

Para algumas crianças sim, por terem pais que estão conscientes para a problemática da obesidade e por reconhecerem a importância que uma alimentação saudável representa na saúde e no desenvolvimento dos seus filhos. Mas claramente ainda há um longo caminho a percorrer. Não só junto dos pais, que muitas vezes precisam de uma orientação profissional para conseguirem tornar a alimentação dos seus filhos saudável, sendo ao mesmo tempo apelativa e de fácil adesão para a criança; mas também junto das escolas, em que muitas vezes a oferta alimentar é bastante pobre.

Como aconselharia os pais a alimentar melhor as suas crianças?

Primeiro que tudo, lembraria os pais de que eles são o principal modelo a seguir para aquela criança. E que de nada adianta dizermos a uma criança para ter um determinado comportamento, se o seu “modelo” não o faz. De nada adianta dizer a uma criança que tem que comer sopa todos os dias, se os pais não o fizerem e não derem o exemplo.

Numa sociedade que privilegia cada vez o aspecto físico, a obesidade não poderá afectar as  crianças de uma forma desumana diminuindo a sua autoestima para o resto da vida?

A obesidade não afeta só a auto-estima da criança, como dificulta a sua qualidade de vida, para realizar tarefas como andar, correr ou simplesmente apertar os sapatos; como condiciona a sua saúde, enquanto criança e posteriormente na vida adulta.

Eu defendo que o segredo está na prevenção e não no tratamento. É preciso evitar que as nossas crianças fiquem obesas. É preciso mudar mentalidades, mudar hábitos. Claramente a obesidade condiciona a vida das crianças e elas sofrem com isso.

A genética é assim tão importante quanto se ouve por aí, ou há apenas uma predisposição para a obesidade que pode ser facilmente combatida através do exercício e alimentação?

A genética é um fator importante mas não é o único e nem sequer é o principal. Claramente os maiores determinantes são os maus hábitos alimentares e a inatividade física. E ainda que possa ser a genética, não sendo este um fator modificável, a chave continua a ser melhorar a alimentação e promover a prática de exercício físico.

Nestes casos devem ser efetuados exames clínicos específicos?

Claro que sim, se não houver hábitos alimentares desregrados que justifiquem o excesso de peso e se se tratar de uma criança ativa, é necessário perceber a causa do excesso de peso, que poderá ser de ordem clínica. Nesses casos sim, pode ser necessária a realização de exames médicos. 

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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