Rede de apoio é essencial para a grávida

Quando a depressão vem com o parto

Tristeza, falta de apetite, insónia, sentimento de inutilidade ou de culpa são algumas das principais manifestações da depressão perinatal. Uma perturbação depressiva que atinge cerca de 12% das mulheres grávidas e que, muitas vezes, só é diagnosticada depois do bebé nascer.

Ficou conhecida no século XIX mas só em meados do século seguinte é que começaram a surgir estudos referentes ao tema. A depressão perinatal é a depressão que surge na gravidez, parto ou período pós-parto e que se pode prolongar até um ano após o nascimento do bebé, caso não seja tratada.

Alguns estudos sugerem que as alterações hormonais, próprias deste período, possam influenciar o desenvolvimento deste quadro clínico. No entanto, há outros fatores de risco.

“Os fatores de risco são múltiplos e subdividem-se em três grupos principais: sociais, psicológicos e biológicos”, começa por explicar a responsável pela Consulta de Psiquiatria Perinatal no Hospital Lusíadas, em Lisboa, Ana Peixinho.

De acordo com a psiquiatra, os fatores de risco sociais “incluem o nível socioeconómico, a exposição a traumas, a situações de vida adversas e a stress, a violência doméstica, o relacionamento marital, o apoio social, o desejo de estar grávida e também o facto de ser emigrante”.

Já do ponto de vista psicológico há traços da personalidade que podem predispor a mulher para a depressão, a par da existência prévia de doença psiquiátrica – ansiedade, Perturbação de Stress Pós-traumático, depressão e abuso de substâncias. Por outro lado, “a existência de história familiar de doença psiquiátrica é também um fator de risco para Depressão Perinatal”.

A idade, a susceptibilidade genética e hormonal, a existência de doenças crónicas e de complicação na gravidez são exemplo de outros fatores de risco importantes. “A depressão pós-parto surge frequentemente em mulheres que já têm filhos, em gravidezes múltiplas, em partos pré-termo e quando os recém-nascidos têm baixo peso ao nascer”, esclarece a especialista.

A verdade é que se estima que cerca de 11% das mulheres durante a gravidez, e cerca de 13% no primeiro trimestre pós-parto, apresentam um quadro de depressão perinatal. “Não existe diferença significativa entre a prevalência ou incidência entre mulheres grávidas e não grávidas. Contudo, a identificação e o tratamento da depressão é menor nas mulheres grávidas, o que dá uma percepção de menor prevalência”, revela Ana Peixinho.

No entanto, os sintomas de depressão podem ocorrer em qualquer fase e variam na intensidade, duração e tipo. Estes incluem tristeza, perda de prazer e interesse nas atividades, alteração do apetite, insónia, agitação ou lentificação psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, desesperança ou dificuldade em concentrar-se e tomar decisões, bem como “ideias recorrentes de morte, de suicídio ou comportamentos suicidários”.

“Estes sintomas estão presentes durante pelo menos duas semanas, ocorrendo na maioria dos dias e causam sofrimento significativo ou têm implicação negativa no desempenho social, ocupacional ou noutras áreas do funcionamento pessoal”, explica a médica psiquiatra.

Mães deprimidas podem interromper a amamentação

A depressão perinatal pode afetar a qualidade de vida, a dinâmica familiar e a relação entre a mãe e o bebé.

De acordo com alguns estudos, a depressão pós-parto pode levar a mãe a interromper a amamentação mais precocemente e a ter maior dificuldade em estabelecer uma relação afetiva com o bebé. Algumas investigações relacionam ainda esta perturbação com uma menor adesão aos cuidados de saúde, com graves consequências não só para a grávida como para o bebé.

Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, explicam os investigadores, observa-se que os filhos de mães deprimidas apresentam choro excessivo e menor manifestação de interesses logo após o nascimento.

Por outro lado, é possível encontrar níveis semelhantes nas alterações de cortisol, noradrenalina e dopamina em ambos. O que suporta a hipótese de que as alterações biológicas pelas quais a mãe passa, durante este período, podem afetar o desenvolvimento do humor do bebé.

É por tudo isto que, de acordo com a médica psiquiatra Ana Peixinho, “é importante estar atento para a depressão no contexto da gravidez e não exclusivamente no período pós-parto”. “Uma identificação atempada minimiza o prejuízo, não só durante a gravidez como também no período pós-parto e aumenta a taxa de tratamento”, explica.

O despiste de Depressão Perinatal faz-se através do preenchimento de um questionário em três momentos: na primeira consulta da gravidez, durante o primeiro trimestre e na primeira consulta pós-parto. “Esta escala, inicialmente utilizada para a depressão pós-parto e atualmente aplicada à depressão perinatal, é composta por 10 itens relativos à presença de sintomas depressivos nos últimos sete dias. O tempo médio de administração deste questionário é de cinco minutos e é de autopreenchimento. Se o resultado obtido for sugestivo de depressão, a mulher é referenciada para a consulta de psiquiatria”, revela Ana Peixinho.  

Durante a gravidez, a mulher deverá ser acompanhada pelo médico assistente e por um técnico de referência, como o enfermeiro, com frequência de cursos pós-parto de modo a sentir uma rede de suporte que lhe permitirá viver esta fase com maior tranquilidade, sabendo que pode expressar os seus receios e emoções livremente.

“No período pós-parto, a existência de visitas periódicas e individualizadas, o apoio telefónico, a psicoeducação e a aprendizagem de estratégias para lidar com as dificuldades do sono são ainda essenciais para prevenir a depressão”, acrescenta a Coordenadora da Unidade de Psiquiatria e Psicologia do Hospital Lusíadas Lisboa.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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