Sistema digestivo

Parasitoses intestinais

Atualizado: 
05/04/2016 - 11:36
Os parasitas intestinais, são designados por helmintas que penetram no corpo, sendo capazes de viver e alimentar-se no seu interior. A maioria das infestações ocorre em regiões tropicais ou países em vias de desenvolvimento em que a água e os alimentos podem não ser devidamente limpos, sendo as crianças as mais afetadas.

Nematodos
São parasitas cilíndricos, havendo cerca de 60 espécies capazes de viver no homem, sendo os mais conhecidos e frequentes, o Ascaris lumbricoides (lombriga), e o Enterobius vermicularis (oxiúre). São parasitas de corpo redondo e filamentoso não anelado cujo comprimento varia entre milímetros a 2 metros.

Ciclo de vida dos Nematodos
O ciclo de vida varia entre 2 espécies, o homem, hospedeiro principal e hospedeiros intermédios (pequenos animais como o caracol) e a infestação pode resultar da ingestão de alimentos contaminados. Os ovos são capazes de sobreviver anos no chão húmido, onde podem germinar formando-se larvas que atingem o ser humano quando ele ingere os alimentos contaminados.

As larvas podem passar à corrente sanguínea e disseminar-se por várias partes do corpo, como pulmões, retornando ao intestino onde atingem a fase adulta, que põe os ovos que são eliminados pelas fezes.

Sintomas da infestação por Nematodos

Os sintomas dependem da espécie infestante, podendo cursar assintomática. Uma infestação grave em crianças pode conduzir a um estado se deficiência nutricional, ao atraso no crescimento e mal-estar geral. Podem surgir:

  • Febre;
  • Cansaço;
  • Rash alérgico cutâneo (urticária);
  • Dores abdominais;
  • Sensação de enjoo, vómitos e/ou diarreia;
  • Obstrução abdominal;
  • Nervosismo.

Nos pulmões, podem ocasionar ruídos respiratórios, tosse, entre outros problemas. Podem ainda surgir sintomas específicos de cada tipo de parasita.

Prevenção e terapêutica da infestação por Nematodos
A base da prevenção da infestação por nematodes consiste nas melhorias sanitárias e educação populacional.

Nos países em que a infestação por nematodos é frequente, pode ser prevenida a infestação individual evitando ingerir alimentos crus, vegetais e saladas. As crianças não devem brincar em locais com condições sanitárias deficientes, em zonas em que as fezes humanas são usadas como fertilizantes. A lavagem das mãos é indispensável antes e após comer, beber ou tocar em alimentos, ir ao toilete ou mudar fraldas.

Oxiuríase
É provocada por Enterobius vermicularis, que afeta muitas crianças atingindo também o adulto, podendo ser facilmente identificado pelo farmacêutico e tratado com Medicamentos Não Sujeitos a Receita Médica (MNSRM). Pode afetar cerca de 20% das crianças, atingindo 65% da população institucionalizada.

Os oxiúres são parasitas pequenos, finos, brancos entre 2 mm e 13 mm de comprimento que infetam os intestinos.

Ciclo de vida dos Oxiúros e transmissão da infestação
Os oxiúros vivem cerca de 5-6 semanas nos intestinos. A infestação resulta da ingestão de ovos que atingem a fase matura nos intestinos. Após acasalamento, o macho morre e a fêmea desloca-se para o cego e reto e coloca os ovos durante a noite na área perianal ficando presos à mucosa e à pele. Os ovos que aí permanecem podem transformar-se em larvas que retornam ao intestino. O prurido ocasionado pelos ovos na região perianal provoca coceira e transferência dos ovos para as mãos seguidas de ingestão. Este ciclo perpetua a infestação no mesmo indivíduo, podendo ser transmitido a terceiros através de objetos contaminados, como roupa da cama, vestuário, etc.

Os ovos podem sobreviver até 2 semanas fora do corpo e, os que caem do ânus ficam na roupa individual e da cama podendo, ao serem dispersos, passar a contaminar a poeira da casa e o chão e ser inalados por terceiros. Nas instituições a transmissão é facilitada pelo contato entre as pessoas.

Sintomas de Oxiuríase
O sintoma mais desagradável é o prurido e o desconforto na região perianal, que pode acordar o doente durante a noite e provocar insónia. Pode ocorrer redução do apetite e perda de peso. A coceira pode ferir o ânus e, quando a infestação é intensa pode surgir dor anal e provocar irritação. No género feminino, quando o tratamento não é atempado pode ocasionar vaginite. O parasita pode colocar ovos na vagina ou uretra, pelo que o médico deve observar a mulher com sintomas de corrimento vaginal, cama molhada ou problemas urinários.

Identifica-se a infestação pela presença dos parasitas brancos de cerca de 1 cm sobre as fezes e por vezes sem volta do ânus e ainda, pelo prurido anal.

Pode suspeitar-se de oxiuríase quando há prurido anal intenso durante a noite e, para confirmar a presença de ovos, pode colocar-se um adesivo na região anal à noite que, quando retirado de manhã, é observado ao microscópio para identificação de ovos e eventualmente larvas.

Aconselhamento ao doente com Oxiuríase
O tratamento inclui medicamentos e medidas de higiene pessoal para evitar a manutenção do ciclo de infestação e de infestação de terceiros.

As recomendações gerais para pessoas com oxiuríase podem resumir-se da seguinte forma:

  • Tomar duche todas as manhãs para remover os ovos e bactérias da região anal;
  • Lavar bem as mãos e debaixo das unhas após cada ida ao toilete e antes de cada refeição;
  • Mudar diariamente a roupa interior;
  • Mudar frequentemente os lençóis da cama, especialmente todas as semanas após o tratamento;
  • Manter as unhas curtas;
  • As crianças devem dormir de luvas de algodão quando dormem;
  • Limpar bem a casa, especialmente os quartos e toiletes, removendo bem todo o pó;
  • Não comer no quarto;
  • Todos os membros do agregado familiar que estejam infestados devem ser tratados no mesmo dia;
  • Evitar os alimentos e bebidas muito açucaradas e ingerir alimentos ricos em fibra para evitar obstipação.

Oxiuríase e a criança na escola
A criança com oxiuríase pode ir à escola mas devem ser mantidas as medidas de higiene para que ela não tenha ovos nos dedos e unhas, devendo reforçar-se a higiene antes de sair para a escola para não contaminar terceiros.

Tratamento pelas medidas de higiene
Dado que a medicação mata os parasitas mas não os ovos, que podem sobreviver 2 semanas, as medidas de higiene devem manter-se durante este período de tempo para evitar a ingestão ou inalação dos ovos. Na presença de infestação num elemento do agregado familiar, todo o agregado deve ser tratado ao mesmo tempo, mesmo indivíduos assintomáticos, para que haja erradicação da infestação.

Os bebés até 3 meses de idade devem ser sujeitos só a medidas de higiene.

Como medidas de higiene é fundamental primeiro destruir os ovos que estão em casa, através das seguintes medidas:

  • Lavar a roupa de dormir e de cama, as toalhas e brinquedos, o que pode ser feito à temperatura normal desde que a lavagem seja efetiva;
  • Aspirar bem a casa e lançar fora o saco após o uso. As camas e os locais onde as crianças brincam devem merecer uma atenção especial;
  • Lavar muito bem as casas-de-banho e todas as superfícies com um pano molhado em água quente e deitar fora o pano depois de utilizado;
  • Lavar toda a loiça muito bem, particularmente talheres e bancadas de cozinha.

Depois, todos os membros do agregado familiar devem ter os seguintes cuidados, durante 2 semanas:

  • Vestir cuecas e pijama de calças justas mudando-os todas as manhãs. Isto evita que se coce durante o sono e que toque no ânus, assim como evita que os ovos passem facilmente para a roupa da cama. Se necessário, pode dormir com luvas de algodão;
  • Tomar banho todas as manhãs ou lavar em torno do ânus para retirar os ovos que estejam depositados. A lavagem efetua-se mal se levante da cama;
  • Mudar e lavar a roupa de dormir diariamente.

Medidas de higiene pessoal para evitar que se contamine de novo:

  • Lavar as mãos e esfregar bem debaixo das unhas, nas seguintes ocasiões: logo que se levanta de manhã, após usar o toilete, após mudar a fralda, antes de comer ou de preparar alimentos;
  • Não roer as unhas ou colocar dedos na boca e desencorajar as crianças a que o façam;
  • Não partilhar toalhas;
  • Manter as escovas dos dentes dentro de armário fechado e lavá-las antes de as utilizar.

Note-se que pode não ser a casa a principal fonte de contaminação, mas a escola, particularmente se os toiletes forem limpos inadequadamente, podendo ser esta a causa da criança manter a infestação.

Oxiuríase e gravidez
Durante o primeiro trimestre da gravidez não devem ser tomados anti-helmínticos, no entanto as medidas de higiene podem ser efetivas.

Como os parasitas morrem ao fim de 6 semanas, desde que não se ingiram de novo, ovos ou larvas, evita-se a reinfestação. Assim, se as medidas de higiene forem mantidas durante 6 semanas pode quebrar-se o ciclo de reinfestação pela libertação dos oxiúros pelos intestinos.

Durante o 2º e 3º trimestre, o médico decide se é adequada a terapêutica medicamentosa, administrando-se habitualmente o mebendazol.

Oxiuríase e amamentação
Durante a amamentação, o tratamento de escolha são também as medidas de higiene, mantidas durante 6 semanas. Colocando-se a questão do tratamento medicamentoso, o médico recomenda habitualmente o mebendazol.

Ascaridíase
Provocada pelo Ascarides lumbricoides (lombriga), parasita que infesta o homem numa prevalência muito inferior à oxiuríase provocando consequências mais prejudiciais. Na suspeita desta infestação o doente deve ser dirigido para o médico embora possa ser tratado com MNSRM.

É uma infestação menos fácil de identificar do que a oxiuríase.

Os ovos são ingeridos através dos alimentos e da água contaminados com fezes e eclodem nos intestinos. As larvas passam pela corrente sanguínea e sistema linfático migrando para o pulmão, fígado, traqueia e esófago, regressando aos intestinos. As infestações ligeiras podem ser assintomáticas mas as graves podem ocasionar perturbações intestinais graves e por vezes fatais. 

Autor: 
Prof. Doutora Maria Augusta Soares
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
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