Efeitos da radiação solar no aparelho visual

Como proteger os olhos das crianças do sol

Atualizado: 
04/07/2016 - 15:58
As crianças passam mais tempo expostas à luz ambiente do que os adultos, estimando-se que, em média, recebam três vezes mais radiação. Os efeitos nocivos provocados pelas radiações UV são o que verdadeiramente está em causa quando se fala de exposição solar, sobretudo se se tiver em conta que 75 por cento da radiação que chega à retina ocorra antes dos 10 anos de idade. Entre as lesões oculares destacam-se as relacionadas com a exposição às radicações a longo prazo e que, por isso, justificam uma proteção ocular adequada desde a infância.

“A luz solar é composta por vários componentes, entre os quais, as radiações ultravioletas (UV) que se situam no espectro luminoso num dos extremos da luz vísivel. Estes raios UV são aqueles que maiores danos podem provocar no aparelho visual, no caso de haver exposição não protegida”, começa por explicar o oftalmologista Eugénio Leite.

Dependendo do comprimento de onda, os raios UV encontram-se divididos em raios UV-A, UV-B e UV-C.

“A importância da camada do ozono e as alterações a que está sujeita é um aspeto que devemos ter em atenção”, acrescenta justificando que esta camada tem como principal função “para além de estabilizar a concentração de oxigénio na atmosfera, o filtrar dos raios UV da luz solar”.

Sabe-se, hoje, que  existe uma correlação entre a exposição solar e certos tipos de doenças oculares que vem demonstrar que o dano ocular pode decorrer, para além de uma exposição crónica ao sol, “dos efeitos acumulados de uma exposição “normal” aos raios UV sem a proteção adequeada”.

De acordo com o professor universitário, as lesões oculares podem ser agudas (ou imediatas) ou surgirem a médio e longo prazo tendo, em alguns casos, efeitos irreversíveis.

Entre as lesões agudas, Eugénio Leite, salienta a importância de não se descurarem as queimaduras palpebrais. Para além de relembrar o seu papel na função ocular, faz questão de referir que estas apresentam elevado risco de desenvolver “patologia tumoral ao longo da vida, se demasiadamente expostas”.

Por outro lado, refere-se à fotoqueratite, ou queimadura solar da córnea, como a lesão aguda mais grave. “Os sintomas são a dor, que pode ser intensa, sobretudo na presença de luz, e a diminuição da acuidade visual geralmente transitória”, explica.

Este tipo de lesão depende do comprimento de onda – “quanto menor o comprimento de onda, mais frequente e mais grave a lesão” – e da intensidade da radiação.  Deste modo, no caso dos raios UV-C, que apresentam o menor comprimento de onda, uma pequena quantidade de radiação é suficiente para provocar este tipo de lesão. No entanto, este é um tipo de radiação que praticamente não chega à superfície terrestre.

“A maior parte destas lesões são provocadas por equipamentos como os aparelhos de soldadura.  No entanto, este tipo de lesão pode surgir também em situações de exposição prolongada aos UV-B, como acontece na neve, sobretudo a neve fresca que reflete cerca de 85 por cento da radiação”, adianta o oftalmologista.

Entre lesões, relacionadas com exposição às radiações UV, a longo prazo encontram-se as alterações da transparência do cristalino, que favorecem o  aparecimento de cataratas, e que dependem da ação dos raios UV-B e UV-A; e a degenerescência macular relacionada com a idade, considerada uma das lesões oculares mais graves.

“De entre as complicações por exposição dos raios UVs mais graves, destaca-se a degenerescência  macular. Uma doença que atinge a zona central da retina – macula – e que pode conduzir à cegueira central irreversível. Como o nome indica aparece habitualmente numa fase tardia da vida, por altura da sexta década, e pode estar relacionada com a toxicidade da luz. Nestes casos, os efeitos da radiação são cumulativos ao longo da vida”, explica Eugénio Leite.

A importância do uso de óculos de sol
Embora  a maioria das pessoas use óculos escuros  para melhorar  o conforto visual na presença de luz solar, os óculos de sol são uma peça essencial para a proteção do aparelho visual desde tenra idade.  

De acordo com o Professor Eugénio Leite, “o principal objetivo para o uso de óculos escuros deve ser a sua capacidade de proteger a criança das radiações agressivas para o aparelho visual, devendo filtrar 100 por cento das radiações ultravioletas (UV-A, UV-B e UV-C) e, se possível, filtrar a componente azul da luz visível”.

Deste modo, as crianças devem usar óculos de sol a partir do momento em que consigam o seu manuseamento de forma autónoma.  “A proteção relativamente à radiação solar tem importância apenas a partir da idade em que a criança adopta um estilo de vida que lhe traz maior exposição, ou seja, quando começa a ter atividades ao ar livre”, acrescenta ainda, relativamente à idade a que se adequam.

A escolha dos óculos de sol deve obedecer, como aconselha o especialista, a vários critérios. “Os pais devem certificar-se que os óculos de sol dos seus filhos oferecem a máxima proteção. Para quem não sabe, a categoria de lentes não está relacionada com a filtração dos UV. É naturalmente ideal escolher óculos de sol que filtrem todos os raios UV, de preferência todas as que são 100 por cento anti UV, independentemente da categoria da lente. Em seguida poderá optar entre as diferentes categorias em função da finalidade a que os óculos de sol se destinam”, explica Eugénio Leite.

“Ao escolher óculos de sol deve optar por uns com uma boa cobertura do rosto para melhor proteger  os olhos frágeis da criança. Idealmente, os óculos de sol devem ter lentes altas e uma forma arqueada com boa cobertura das zonas laterais da caras”, acrescenta.

De acordo com o especialista, os óculos de sol de uma criança, e até mesmo de um adulto, não devem deixar marcas na cara ou nas orelhas ou causar incómodo. “O ideal é serem confortáveis com a categoria de lente correta (conforto de visão) e com uma boa armação”, refere.  Por outro lado,  “as crianças podem levar os óculos de sol ao limite, razão pela qual deverá escolher um modelo resistente em que não haja riscos para a criança se se quebrarem”.

Outro critério a ter em conta é qualidade óptica das lentes, que irá depender de dois fatores: cor e tipo de lente.

“As lentes devem possuir boa qualidade óptica, que pode ser verificada observando o aspeto global das lentes como simetria, matéria e cor. Para as crianças recomenda-se o uso de lentes ditas inquebráveis. Com relação à cor, devemos optar por lentes com tons cinza e castanho”, explica.

Eugénio Leite recomenda o aconselhamento junto de um profissional óptico, a respeito desta matéria,  e explica porque é mais perigoso usar óculos sem proteção adequada do que não usar nenhuns.

“Qualquer oftalmologista é objectivo e claro a respeito de óculos sem proteção adequada: não deve usá-los! A utilização de lentes que não oferecem proteção adequada é considerada mais perigosa do que simplesmente não usar óculos de sol. Isso porque possuímos naturalmente mecanismos de defesa que são inibidos com baixa luminosidade. Quando estamos no escuro a nossa pupila dilata-se e facilita a entrada da luz solar. O mesmo acontece quando usamos óculos de sol com lentes escuras: a pupila dilata-se, entra mais luz solar com as respectivas radiações, e se os óculos não possuírem proteção adequada danificam mais a nossa visão do que se estivéssemos sem óculos, pois inibem os mecanismos de defesa naturais”, afirma o Diretor Clínico das Clínicas Leite, em Coimbra.

A proteção ocular com lentes de proteção solar é, deste modo, recomendada sobretudo em dias de maior índice UV, “durante os períodos do dia em que a radiação é mais intensa – das 10h ás 15h – e nos locais de maior exposição, a grandes altitudes (montanha) ou superfícies muito refletoras (neve e grandes superfícies de água)”.

Chapéus, bonés ou sombrinhas são excelentes complementos para proteção à exposição solar. “Protegermo-nos quando nos expomos ao ar livre deve ser um hábito diário, incluindo neste pack o uso de protetores solares”, afiança Eugénio Leite.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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