Para o celíaco cada migalha conta

Assintomática ou atípica: doença celíaca apresenta uma variedade de sintomas

Atualizado: 
01/03/2019 - 12:11
De origem autoimune e sem cura, a Doença Celíaca afeta entre 10 a 15 mil portugueses. No entanto, o número de celíacos pode chegar aos 100 mil. De acordo com a Associação Portuguesa de Celíacos a taxa de subdiagnóstico situa-se nos 85%. A multiplicidade de sintomas ou a sua ausência são os principais responsáveis por este quadro.

A doença celíaca (DC) é uma patologia crónica, de origem autoimune e sem cura, que surge na sequência da ingestão de glúten em indivíduos geneticamente susceptíveis. “Composto por prolaminas e glutaminas, principais constituintes do trigo, centeio, cevada e aveia”, o glúten desencadeia no intestino delgado uma resposta inflamatória mediada pelo sistema imunitário que, ao longo do tempo, conduzirá à destruição da mucosa intestinal. De acordo com Rita Jorge, nutricionista, “esta destruição leva à diminuição da sua capacidade de absorção dos nutrientes”.

Entre os sintomas mais frequentes destacam-se as cólicas, diarreia, distensão abdominal ou emagrecimento (habitualmente, nas crianças). No entanto, há quem apresente uma sintomatologia mais diversificada e extra-intestinal, como anemia ferropénica, osteopenia/osteoporose, dermatite herpetoforme, estomatite aftosa recorrente, infertilidade e abortos recorrentes, ou alterações neurológicas, da função da tiroide ou alterações da função hepática. E há casos ainda em que os sintomas são tão ligeiros que raramente levantam suspeita.

Por outro lado, diz-se que a Doença Celíaca é assintomática quando o doente é portador do gene da patologia mas este está “adormecido”. “Por esse motivo devem ser rastreados os familiares de primeiro grau do celíaco, que têm maior probabilidade de desenvolver a doença, bem como aqueles que apresentam patologias que, reconhecidamente, se relacionam com a Doença Celíaca”, explica a especialista. É o caso da Diabetes tipo 1, tiroidite autoimune / híper ou hipotiroidismo, a dermatite herpetiforme, ataxia, Síndrome de Down, Síndrome de Turner ou de Williams e a deficiência seletiva de IgA.

É graças a esta multiplicidade de sintomas que se estima que uma percentagem elevada de casos se encontra por diagnosticar. De acordo com Rita Jorge, “em Portugal, aponta-se que existam entre 10 a 15 mil pessoas diagnosticada com a doença celíaca. Estima-se no entanto, que o número de celíacos efetivo, ao nível nacional, se situe entre os 70 e os 100 mil”.

O único tratamento conhecido para esta patologia consiste no cumprimento rigoroso, sem exceções, de uma dieta isenta de glúten. “Apenas a eliminação desta proteína da alimentação permite que o intestino regenere por completo da lesão e o organismo recupere”, reforça a nutricionista. Assim, os alimentos que contém glúten – trigo, centeio, cevada e aveia – devem ser substituídos, e podem eles ser produtos de pastelaria, massas alimentícias, sopas de pacote, panados e salgados, entre outros. São ainda proibidos ingredientes como o amido destes quatro cereais, proteína vegetal, fibras alimentares, aditivos do grupo dos E-14xx, malte, xarope ou extrato de malte.

Uma vez que “existem ainda alimentos que podem conter glúten disfarçadamente, é necessário confirmar sempre os ingredientes presentes na rotulagem”, adverte a nutricionista.

Hortícolas, fruta, lacticínios, carne, pescado e ovos devem fazer parte de uma dieta rigorosa mas saudável e equilibrada.  

Trigo-sarraceno, milho, quinoa, arroz, tapioca e batata são exemplos de ingredientes bem-vindos na dieta de um celíaco.

O não cumprimento de uma dieta isenta de glúten incidirá negativamente sobre a qualidade de vida do doente. “Enquanto um celíaco tratado, que cumpre a dieta isenta de glúten, apresenta uma esperança média de vida igual à de um cidadão comum, aquele que não sabe que é portador da DC, além de muitas vezes sofrer de sintomatologia variada que afeta negativamente a sua qualidade de vida, reduz drasticamente esse indicador, estando muito mais exposto, por exemplo, a desenvolver algumas formas de cancro”, chama a atenção a especialista.

Por tudo isto, quanto mais cedo for o seu diagnóstico, melhor o prognóstico da doença celíaca. E fuja da contaminação cruzada! “Para o celíaco a migalha conta. A ingestão de qualquer quantidade de glúten, por mínima que seja, é prejudicial para o celíaco, favorecendo o aparecimento de lesões na mucosa intestinal”, sublinha Rita Jorge.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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