Nove em cada 10 portugueses desconhecem vacinas de adultos fora do Programa Nacional de Vacinação

É o que mostra o estudo "Barreiras à Vacinação em Portugal", uma iniciativa do MOVA - Movimento Doentes pela Vacinação, com o apoio da Spirituc, cujos resultados mostram uma população que acredita na vacinação como princípio, uma crença que, no entanto, não se traduz depois numa decisão informada.
A auscultação feita à população nacional revela que, do total de inquiridos, 46,6% têm diagnosticada pelo menos uma doença crónica, sendo a doença cardiovascular a mais prevalente (55,8%), seguida da respiratória (23,3%), um retrato que, complementado com o facto de apenas 29,5% considerarem a sua condição "mais ou menos controlada", sugere uma proporção significativa de doença crónica com controlo parcial.
Os dados mostram também que a esmagadora maioria dos inquiridos (94,4%) afirma reconhecer os benefícios da vacinação, destacando a "proteção contra doenças graves" como o principal benefício, assim como a “imunidade de grupo”. No entanto, há um desconhecimento generalizado sobre as vacinas de adultos: 63,9% não sabem quais as que estão integradas no PNV, taxa que atinge os 76,4% nas pessoas sem doença crónica; metade da população (50,2%) não sabe quais as vacinas especificamente recomendadas para a sua faixa etária ou condição (41% dos quais com doença crónica) e o desconhecimento agrava-se quando se deixa o universo do PNV - 90,5% desconhecem a existência de vacinas para adultos fora do programa e 62,1% não conseguem identificar quais gostariam de ver incluídas no futuro.
"A vacinação é um ato de proteção individual e coletiva e as pessoas sabem disso, como mostram os dados. Mas não é possível pedir que se protejam, e que protejam quem as rodeia, através da vacinação, quando lhes falta o conhecimento básico sobre quais as vacinas disponíveis", refere José Albino, representante do MOVA.
Perceção de ausência de risco
Entre quem não se vacina anualmente contra a gripe ou a COVID-19, o principal motivo apontado é não se sentir em risco (38,8%), perceção que tem reflexo na priorização: metade (50,0%) não considera a vacinação sazonal uma prioridade pessoal, número que sobe para 67,5% entre quem não tem doença crónica. É nos doentes crónicos com vacinas em atraso (7,6% do total) que este padrão se torna mais preocupante: cerca de 45% têm consciência do atraso, mas consideram "não ter necessidade" de se vacinar.
Desconhecimento e incompreensão de conceitos críticos
A maioria dos inquiridos (74,9%) nunca ouviu falar dos conceitos "hesitação vacinal" ou "fadiga vacinal", ainda que 56,8% associem estes termos a problemas graves de saúde pública, isto mesmo sem os conhecer previamente. E a maioria não consegue justificar essa associação, o que aponta para uma perceção intuitiva e superficial, em vez de conhecimento consolidado. Até porque 21,1% admitem nunca ter refletido sobre o impacto da vacinação de terceiros na imunidade de grupo e na proteção comunitária.
“Temos visto crescer, um pouco por todo o mundo, as teorias da conspiração e os movimentos antivacinas, o que tem sido interpretado como um problema de confiança na ciência, nas instituições e nas farmacêuticas. Mas os dados aqui recolhidos sugerem uma leitura diferente: quando quase três em cada quatro pessoas dizem nunca ter ouvido falar em 'hesitação vacinal' ou 'fadiga vacinal', e ainda assim mais de metade associa estes conceitos, sem os conhecer, a problemas graves de saúde pública, parece-nos que não há uma convicção informada, mas talvez uma perceção que tem por base a falta de conhecimento. Ou seja, a desconfiança em relação às vacinas pode ter como resultado a já referida falta de informação", diz José Albino.
Receio de efeitos adversos e dúvidas quanto à eficácia
A maioria (51,3%) dos inquiridos diz não haver barreiras à vacinação e aqueles que as reconhecem destacam o medo de efeitos adversos (22,3%), mais acentuado nos adultos dos 36 aos 44 anos (32,8%) e nas pessoas sem doença crónica (28,0%). No entanto, este receio não se traduz necessariamente em convicção: 26,9% concordam que as vacinas podem provocar efeitos adversos graves, mas 35,2% estão indecisos ("nem concordo nem discordo").
Seguem-se, como barreiras, a falta de informação (16,1%), dúvidas sobre a eficácia (15,7%), a falta de recomendação médica (10,1%) e a desconfiança nas autoridades de saúde ou na indústria farmacêutica (6,8%).
Falta de abordagem médica na população saudável e mais jovem
Enquanto ¾ dos doentes crónicos referem que o médico assistente aborda a questão da vacinação em consulta, essa proporção cai para 43,3% na população sem doença crónica. O problema acentua-se entre os mais jovens: 21,7% dos adultos entre os 18 e os 35 anos dizem que o médico nunca aborda o tema.
Mas o contacto com os profissionais de saúde faz diferença, com a comunicação com estes profissionais a destacar-se como a medida mais valorizada para melhorar a adesão à vacinação: 60% dos inquiridos consideram-na a medida com maior impacto direto na adesão, e 85,4% dos doentes crónicos afirmam que estariam mais predispostos a vacinar-se caso recebessem informação personalizada do seu médico.
As campanhas de sensibilização surgem como via complementar, particularmente relevante para desmistificar efeitos adversos e reforçar a perceção de risco, um défice já identificado como mais acentuado na população sem doença crónica.
Adesão reduzida a vacinas não-sazonais
O inquérito revela ainda que, à exceção da COVID-19 (80,3%) e da gripe (53,3%), a toma de outras vacinas nos últimos cinco anos é residual: 7,5% para a pneumocócica, 4,9% para o HPV, 1,5% para o VSR e 1,3% para a Herpes Zóster.
"Este estudo mostra que há ainda muito a fazer quando se trata da vacinação. É urgente que se alargue, em nome da saúde pública, o Programa Nacional de Vacinação também à vida adulta, tal como já acontece na infância, e é imperativo o reforço da informação. Só com um programa estruturado, e não apenas com recomendações dispersas que poucos conhecem, se pode pedir às pessoas que assumam a responsabilidade de se vacinar e de proteger quem as rodeia", conclui José Albino.
