Maioria das crianças em Portugal não sabe como agir numa emergência por falta de formação

A realidade é simples e preocupante: muitas crianças não sabem quando ligar para o 112, o que dizer numa chamada de emergência ou como agir perante um adulto inconsciente. Num país onde a literacia em saúde continua a ser insuficiente, esta lacuna pode transformar momentos críticos em tragédias evitáveis.
O alerta surge após o caso recente que comoveu o país, quando um menino de 9 anos conseguiu salvar a mãe ao ligar para o número de emergência e contactar o INEM. O episódio tornou-se viral e levantou uma questão inevitável: quantas crianças saberiam fazer o mesmo?
Para a equipa clínica da SalusLive, centro de referência nacional na área da intervenção pediátrica, a resposta é inquietante.
“Foi um final feliz, mas também um alerta. A verdade é que a maioria das crianças nunca recebeu qualquer orientação sobre como agir numa situação de emergência. Não sabem que podem ligar para o 112, não sabem o que dizer e muitas vezes entram em pânico”, explica Raquel Cunha, diretora geral da SalusLive.
UMA FALHA ESTRUTURANTE NO SISTEMA EDUCATIVO
Apesar da crescente preocupação com a segurança e o bem-estar infantil, a formação em emergência continua praticamente ausente do quotidiano escolar.
Em muitas escolas, os alunos aprendem conteúdos complexos, mas não recebem ferramentas práticas para lidar com situações reais – como um familiar que desmaia, um acidente doméstico ou uma crise súbita de saúde.
Segundo especialistas em desenvolvimento infantil, a falta de preparação não significa que as crianças não sejam capazes de agir. Pelo contrário, quando orientadas de forma adequada, conseguem reagir com surpreendente eficácia.
“O problema não é a incapacidade das crianças. O problema é que ninguém lhes ensina”, sublinha a mesma fonte.
PREPARAR AS CRIANÇAS PARA SALVAR VIDAS
Foi precisamente para responder a esta lacuna que a SalusLive decidiu lançar a iniciativa “Missão 112 – Como agir em situação crítica?”, uma atividade prática e adaptada a crianças entre os 6 e os 12 anos que acontece no próximo dia 22 de março.
A sessão pretende ensinar, de forma acessível e dinâmica, competências básicas de resposta em situações de emergência, incluindo:
- Quando e como ligar para o 112;
- Que informações devem ser transmitidas numa chamada de emergência;
- Como manter a calma em momentos de grande stress;
- O que fazer – e o que evitar – enquanto aguardam ajuda.
“O objetivo não é assustar as crianças, mas capacitá-las. Queremos que saibam que, mesmo sendo pequenas, podem ter um papel decisivo numa situação crítica”, explica a responsável clínica.
EDUCAR PARA A EMERGÊNCIA DEVERIA SER PRIORIDADE
Para o centro clínico, iniciativas como esta não deveriam ser exceção, mas sim parte integrante da educação das crianças.
Num contexto em que muitos acidentes ou emergências médicas acontecem dentro de casa, as crianças são frequentemente as primeiras testemunhas. Saber agir pode fazer a diferença entre uma resposta rápida ou minutos perdidos.
“Ensinar uma criança a pedir ajuda corretamente pode literalmente salvar uma vida. É uma competência tão importante quanto aprender a ler ou a escrever”, conclui Raquel Cunha.
