Nos bastidores do sonho de ser pai

Entre seringas e sorrisos, o trabalho silencioso dos enfermeiros de fertilidade

Muitos casais fazem planos para o futuro e, para alguns, o sonho de ter um filho é uma prioridade. No entanto, nem sempre esse caminho acontece de forma simples, levando cada vez mais pessoas a procurar informação, apoio e soluções médicas.

Nos tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA), os enfermeiros desempenham um papel essencial, muitas vezes invisível, assegurando o acompanhamento clínico, a gestão dos tratamentos e a proximidade que transmite confiança e segurança aos utentes. “Sofremos com eles e alegramo-nos com as suas vitórias”, resume Alexandra Monteiro, enfermeira coordenadora da clínica Ferticentro, ao descrever o que significa estar ao lado destes casais num processo que, muitas vezes, se sustenta no apoio emocional.

“Lidamos diariamente com a frustração de pacientes que já passaram por vários tratamentos e, embora sejam as médicas a comunicar o “beta negativo” (beta-hCG – exame que indica se há ou não gravidez), somos muitas vezes nós que apoiamos emocionalmente essas situações. É fundamental saber lidar com essas frustrações”, refere.

Mas esta é também uma função onde a precisão clínica é inegociável. Um único detalhe pode comprometer semanas de preparação: “Uma ecografia marcada fora do dia correto pode comprometer o tratamento”, alerta Alexandra Monteiro.

De tal forma que “desde 2025, a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR) passou a incluir na sua estrutura um núcleo de enfermagem, o que nos permite participar em encontros científicos e discutir casos clínicos", explica. “Este reconhecimento valoriza o nosso papel enquanto enfermeiros de PMA, fortalece a confiança que os pacientes depositam em nós e contribui para a melhoria contínua da qualidade dos cuidados prestados, nomeadamente através do reforço da formação e da atualização profissional”, acrescenta.

Após a prescrição médica, são os enfermeiros que assumem o acompanhamento diário: explicam doses, horários, mecanismos da medicação e orientam cada exame. Este acompanhamento contínuo garante que cada mulher se sente segura e confiante em cada etapa do processo.

A comunicação com a equipa médica é igualmente determinante. "Somos o elo de continuidade entre os casais e toda a equipa de fertilidade. A enfermeira precisa conhecer detalhadamente o protocolo aplicado, incluindo pequenas nuances que podem influenciar o sucesso do tratamento", explica Alexandra Monteiro, dando como exemplo as alterações na espessura do endométrio, a duração de determinados medicamentos ou a dosagem exata de progesterona. "Nenhum protocolo é totalmente rígido."

Em situações de urgência, o papel do enfermeiro de fertilidade é também central e vai desde receber o relato de dor ou desconforto de uma paciente e coordenar uma avaliação rápida, até atuar em bloco operatório em estreita colaboração com o médico ginecologista e o anestesiologista.

"O que mais surpreende os pacientes é a dimensão empática da nossa atuação", garante a especialista. “Acompanhar casais e sentir a alegria de um “beta positivo” é uma felicidade imensa. Estarmos presentes em cada etapa, apoiando-os nos desafios e nas frustrações – como perdas ou abortos – cria um vínculo profundo e humano. Sentimos cada resultado com intensidade. Este contacto próximo permite-nos construir confiança, empatia e laços que vão muito além do acompanhamento clínico”, conclui.

 

Fonte: 
Guesswhat
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.