Estudo

Amamentação associada a um início mais tardio da puberdade nas raparigas

Estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) sugere que as raparigas amamentadas tendem a entrar mais tarde na puberdade do que aquelas que nunca foram alimentadas com leite materno.

Os resultados do artigo “Human Milk Feeding Practices and Pubertal Timing: Insights from the Generation XXI Population-Based Birth Cohort” basearam-se na análise de dados da coorte de nascimento Geração 21 e foram recentemente publicados numa revista científica The Journal of Nutrition.

 

A puberdade está a começar cada vez mais cedo e isso tem consequências para a saúde

Nas últimas décadas, tem-se verificado uma tendência global para um início cada vez mais precoce da puberdade, em especial nas raparigas. Este fenómeno constitui uma preocupação de saúde pública, uma vez que a puberdade precoce está associada a um maior risco de várias doenças na idade adulta, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancro, como o cancro da mama, por exemplo.

Neste contexto, a equipa de investigação do ISPUP, liderada por Marta Pinto da Costa, quis perceber se a amamentação e a duração do período de amamentação poderiam influenciar o momento em que as crianças entram na puberdade.

O estudo analisou dados de 4515 crianças (2239 raparigas e 2276 rapazes) da coorte Geração 21. O desenvolvimento pubertário foi avaliado aos 10 anos de idade, através da escala de Tanner (um método clínico estabelecido que classifica o desenvolvimento físico associado à puberdade). A prática de amamentação foi categorizada em quatro grupos: crianças que nunca receberam leite materno; crianças que receberam leite materno de forma não exclusiva; crianças amamentadas exclusivamente durante menos de 4 meses e crianças amamentadas exclusivamente durante 4 meses ou mais. A idade da primeira menstruação (menarca) foi também recolhida em avaliações de seguimento realizadas aos 13 e aos 18 anos.

 

Qualquer exposição ao leite materno parece fazer diferença, mesmo que por pouco tempo

Comparando com as raparigas que nunca foram amamentadas, aquelas que foram alimentadas com leite materno apresentaram um desenvolvimento pubertário menos avançado aos 10 anos de idade. Em particular, as raparigas amamentadas exclusivamente durante 4 meses ou mais tiveram uma probabilidade significativamente menor de apresentar um desenvolvimento pubertário mais avançado nessa avaliação.

Relativamente à menarca, as raparigas amamentadas exclusivamente também tenderam a ter a primeira menstruação mais tarde. No entanto, esta associação deixou de ser estatisticamente significativa após o ajuste para o índice de massa corporal (IMC) da criança, o que sugere que o peso corporal pode ser um dos mecanismos através dos quais a amamentação influencia o calendário pubertário.

Uma outra observação relevante é que os resultados foram semelhantes entre os diferentes grupos de amamentação, sugerindo que qualquer exposição ao leite materno — independentemente da duração exata ou do grau de exclusividade — pode estar relacionada com um início mais tardio da puberdade nas raparigas. Nos rapazes, não foram encontradas associações consistentes e estatisticamente significativas, resultado que os investigadores atribuem ao facto de as raparigas iniciarem tipicamente a puberdade mais cedo, tornando-se assim mais provável detetar associações numa avaliação realizada aos 10 anos.
 
"As nossas descobertas reforçam a importância das políticas públicas que apoiem a amamentação prolongada", afirma Marta Pinto da Costa, primeira autora do estudo. Entre as medidas destacadas pela investigadora contam-se a extensão das licenças de maternidade, a criação de pausas para amamentação no local de trabalho, a disponibilização de instalações dedicadas à extração e conservação de leite materno nas empresas e o acesso a creches no local de trabalho ou nas proximidades.
A Organização Mundial da Saúde recomenda a amamentação exclusiva durante os primeiros 6 meses de vida, complementada com outros alimentos até aos 2 anos ou além. Em Portugal, a licença de maternidade com remuneração integral cobre apenas os primeiros 4 meses, fator que os autores identificam como potencialmente limitante para a manutenção da amamentação exclusiva.
 
O artigo "Human Milk Feeding Practices and Pubertal Timing: Insights from the Generation XXI Population-Based Birth Cohort" foi publicado por investigadores do EPIUnit — Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), com a colaboração do CIBEROBN e do ISGlobal (Barcelona). O trabalho beneficiou de financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Fonte: 
Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP)
Nota: 
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