54% dos portugueses apresenta níveis elevados de sofrimento psicológico. Contudo, 63% considera ter uma boa saúde mental

Mais de metade dos portugueses (53,6%) apresenta níveis elevados de sofrimento psicológico, mas 63,4% considera que o seu estado de saúde mental é bom ou muito bom. Este contraste é uma das principais conclusões do novo estudo realizado pela ConsumerChoice sobre a saúde mental em Portugal e que aplicou a Kessler Psychological Distress Scale (K10), escala de 10 perguntas utilizada para avaliar o nível de sofrimento psicológico das pessoas.
A análise procurou compreender ainda a perceção dos inquiridos em relação ao recurso a acompanhamento especializado, os fatores que influenciam o bem-estar psicológico e a perceção de estigma associada à saúde mental.
Apesar dos níveis de sofrimento psicológico identificados, a maioria dos entrevistados (72,1%) considera que a sua saúde mental está melhor ou igual à do período homólogo. Entre os fatores associados a uma perceção de melhoria estão as melhores condições de trabalho (22,2%) e uma melhor condição financeira (23,3%).
A dimensão económica surge, contudo, também como uma das principais fontes de pressão: a situação financeira e o custo de vida são apontados por 47,5% dos participantes como o motivo que mais contribui negativamente para a sua saúde mental.
“Há um dado neste estudo que merece particular atenção. Podemos acreditar que estamos bem e, ainda assim, estar a acumular níveis significativos de sofrimento psicológico. Esse contraste mostra que falar de saúde mental não pode limitar-se à forma como cada pessoa avalia o seu próprio estado. A ansiedade, sobretudo entre os mais jovens e as mulheres, e o peso crescente das preocupações financeiras mostram-nos também que o bem-estar psicológico não acontece de forma isolada e é profundamente influenciado pelas condições em que vivemos, trabalhamos e gerimos o nosso dia a dia. Mais do que normalizar a conversa sobre saúde mental, precisamos de criar condições para que pedir apoio seja também normal”, refere Nassrin Majid, Diretora-Geral da ConsumerChoice.
O estudo indica também que 54,3% nunca recorreu a um profissional relacionado com a saúde mental. Entre aqueles que já procuraram este tipo de acompanhamento, 31% fizeram-no há cerca de um ano e 23% há mais de um ano, mostrando que este recurso tende a ocorrer com alguma distância temporal.
Quando questionados sobre quais os motivos da última ida ao médico, as consultas de rotina ou prevenção surgem em primeiro lugar, com 46,6% das respostas. Se forem consideradas as consultas para renovação de receitas ou realização de exames, este valor sobe para 67,8%. Já as idas ao médico motivadas por doenças/perturbações do foro mental representam 12% das respostas.
A ansiedade destaca-se como o principal motivo para a marcação de consultas relacionadas com a saúde mental (72,9%). Este fenómeno assume particular expressão entre os mais jovens, com 88,9% dos participantes entre os 18 e os 24 anos a identificar a ansiedade como motivo para procurar este tipo de acompanhamento. No caso das mulheres, a percentagem chega aos 86,8%, face aos homens que apresentam valores de ansiedade muito inferiores (58.3%).
Por fim, o estudo revela que o recurso a acompanhamento especializado continua a depender sobretudo da iniciativa dos próprios indivíduos, num contexto em que persistem sinais de estigma associados à procura de apoio psicológico – cerca de 63% aponta que ainda há um certo preconceito em receber acompanhamento psicológico.
É importante salientar que este questionário não consiste num diagnóstico clínico, funcionando somente como um indicador do estado psicológico dos inquiridos.
