Universidade de Coimbra identifica mecanismo responsável pelo aumento da atividade neuronal na epilepsia

Os resultados da investigação, publicados na revista Brain, mostram como níveis elevados da proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro (BNDF) favorecem o desenvolvimento da epilepsia. O BDNF é essencial para o funcionamento do sistema nervoso, para a regulação da comunicação entre neurónios e para a plasticidade neuronal, importante na aprendizagem e na formação de memórias. Embora o seu papel já fosse conhecido no desenvolvimento da epilepsia, os mecanismos celulares responsáveis pelos seus efeitos permaneciam pouco esclarecidos.
A epilepsia afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo e caracteriza-se pela ocorrência de crises resultantes de uma atividade elétrica excessiva e sincronizada no cérebro. Recorrendo a um modelo animal da doença, a equipa do CNC-UC demonstrou que o BNDF aumenta a presença de recetores para o neurotransmissor glutamato nas sinapses, as regiões onde os neurónios comunicam entre si. Este aumento torna as células nervosas mais sensíveis aos sinais provenientes das células vizinhas, reforçando a comunicação entre neurónios. Como consequência, pode favorecer a hiperatividade cerebral característica da epilepsia.
“Este trabalho permite compreender melhor como o BDNF, uma proteína produzida naturalmente pelo cérebro, intensifica a comunicação entre os neurónios, e identifica um mecanismo que contribui para a hiperatividade cerebral, na sequência da qual são desencadeadas as crises epiléticas”, explica o investigador principal do CNC-UC e docente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Carlos B. Duarte.
O estudo identificou igualmente a via de sinalização celular responsável por este processo. Ao ativar o seu recetor na superfície dos neurónios, o BDNF desencadeia uma cascata de eventos moleculares que culmina no aumento da expressão de recetores NMDA na membrana das células. Quando esta via de sinalização é interrompida, as alterações induzidas pelo BDNF deixam de ocorrer, confirmando a importância deste mecanismo na hiperexcitabilidade neuronal.
Com este estudo, abre-se também a hipótese de estudar este mecanismo noutras doenças neurológicas em que a comunicação entre neurónios se encontra alterada em processos cerebrais fundamentais, como a aprendizagem e a memória.
O artigo científico GluN2A-NMDA receptors mediate the effect of BDNF on network hyperexcitability in hippocampal neurons (Recetores GluN2A-NMDA mediam o efeito do BDNF na hiperexcitabilidade da rede nos neurónios do hipocampo, em português) está disponível em https://doi.org/10.1093/brain/awag164.
