Perturbação obsessivo-compulsiva pode ter origem no desenvolvimento inicial do cérebro

Sabia que a forma como o cérebro se desenvolve antes do nascimento e nos primeiros anos pode influenciar o risco de perturbação obsessivo-compulsiva (POC), ou seja, pensamentos intrusivos e comportamentos repetitivos, que afetam 2 a 4% da população global? Publicado na revista “Nature Communications”, o maior estudo mundial de neuroimagem desta doença aponta as suas bases para alterações estruturais em várias regiões do cérebro, com padrões genéticos específicos, que ocorrem muito antes do aparecimento dos sintomas.
A pesquisa reuniu 4519 participantes (2255 com POC, 2264 saudáveis) de 26 países. Envolveu cerca de 200 cientistas de 89 instituições de 20 países e foi liderada pela Universidade de Yale (EUA). O investigador principal em Portugal foi Pedro Morgado, do Instituto de Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho e do Centro Clínico Académico de Braga (2CA-Braga). Esta colaboração internacional resulta do consórcio científico ENIGMA-OCD, que integrou dados de 47 bases de neuroimagem.
A investigação identificou novos padrões associados à atividade de genes do desenvolvimento e funcionamento dos neurónios, reforçando a hipótese da origem da doença em alterações neurobiológicas precoces. “A POC é uma das perturbações psiquiátricas mais incapacitantes e tem sido diagnosticada há décadas por critérios clínicos, sem biomarcadores definidos; por isso, este estudo é um passo relevante para uma sua caracterização neurobiológica mais completa e para desenvolver abordagens terapêuticas mais direcionadas”, frisa Pedro Morgado.
O responsável salienta que os resultados atingidos são muito robustos, por juntarem grandes volumes de dados e de abordagens do consórcio, incluindo o contributo de Portugal neste impacto global. Da parte do ICVS/UMinho e 2CA-Braga, contou com os cientistas Pedro Morgado, Ana D. Costa, Afonso Fernandes, Mafalda Machado-Sousa, Maria Picó-Pérez e Ana Araújo. Participaram ainda Miguel Castelo-Branco e Isabel C. Duarte, do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional de Coimbra.
Dobras do córtex cerebral associadas à POC
Ao contrário de estudos anteriores centrados em três medidas da estrutura cerebral, a pesquisa avaliou 13 características (nove corticais e quatro subcorticais). Entre elas, mapeou pela primeira vez na POC a curvatura do córtex e a organização estrutural entre diferentes regiões cerebrais. Verificou-se que a curvatura do córtex, sobretudo nas regiões frontal e parietal, se manteve entre pacientes medicados e não medicados, o que pode ser um marcador da doença. Já a redução da espessura, área e volume cerebral foi influenciada pelo estado de medicação, podendo também indiciar uma doença crónica ou grave.
Por outro lado, registaram-se alterações nas zonas de processamento sensorial e controlo do movimento, reforçando a sua importância na POC. E numa ação inovadora, a equipa da Universidade de São Paulo ligou as alterações cerebrais à atividade de genes envolvidos no desenvolvimento dos neurónios antes e após o nascimento, admitindo que a POC tem origem em fases muito precoces do desenvolvimento cerebral. Esta ligação foi confirmada através da análise de tecido cerebral de doentes submetidos a cirurgia, aproximando pela primeira vez os resultados da neuroimagem e da genética.
