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Incontinência Fecal: 1 em 10 mulheres adultas sofre com o problema

Atualizado: 
24/06/2022 - 12:46
Atinge 2% da população mundial, sendo mais frequente entre as mulheres, no entanto, raramente ouvimos falar de Incontinência Fecal. Com a ajuda de António Manso, Coordenador do Centro de Referência do Cancro do Reto do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e o primeiro cirurgião a implantar um neuromodulador para o seu tratamento, há 20 anos, em Portugal, mostramos o que precisa saber sobre o tema.

A Incontinência fecal

De acordo com o especialista a incontinência fecal consiste “na perda involuntária de fezes líquidas ou sólidas com uma regularidade mensal”, incluindo urgência defecatória.

Um problema que afeta, sobretudo, o sexo feminino acima dos 70 anos. Entre as principais causas, o cirurgião destaca “o trauma obstétrico e a maior fraqueza do pavimento pélvico”.

Outras causas incluem os traumatismos ou as alterações anatómicas e funcionais provocadas por cirurgias, alterações da motilidade intestinal e doenças degenerativas que provoquem alterações da força e sensibilidade.

Diagnóstico e tratamento: primeiro neuromodulador foi implantado há 20 anos

Segundo António Manso, “o diagnóstico é clínico, mas existem vários exames necessários para o estudo da incontinência fecal para identificar as causas e qual o melhor tratamento”.

Quanto ao tratamento, o especialista explica que “se existir um defeito anatómico do reto ou do aparelho esfincteriano anal significativo que possa ter impacto na continência este deve ser corrigido em primeiro lugar”. Depois, única opção válida é a Estimulação Nervosa Sagrada, sublinha.

Esta opção terapêutica “consiste em colocar um elétrodo nas raízes sagradas de S3/S4 e depois, através de corrente elétrica, por meio dum pequeno gerador semelhante a um pacemaker cardíaco, fazer uma estimulação elétrica nervosa. Estes são os nervos responsáveis pela enervação pélvica e da musculatura anal. Pelo aumento do tónus muscular pode existir aumento da continência, mas também existe um efeito no sistema autónomo que aumenta a sensibilidade anorretal, afetando o funcionamento intestinal”.

Estando indicada para “todos os doentes sem deformidades anatómicas importantes e com incontinência fecal significativa e impactante na qualidade de vida”.

O primeiro procedimento do género foi realizado há 20 anos e representou um passo importante no tratamento da Incontinência Fecal que até aqui não disponha de qualquer opção terapêutica. Segundo António Manso, já há “mais de 200 doentes tratados e com uma centena e meia de doentes com neuromodulador implantado”.

Incontinência fecal tem um impacto social e económico importante

De acordo com o especialista, a incontinência fecal (IF) pode ser devastadora e com efeitos na vida diária. “A incapacidade de controlar os hábitos intestinais resulta na perda de confiança, do autorrespeito e da compostura. Essas consequências são agravadas pelo estigma social associado à IF e ao sigilo normalmente associado à condição”, explica.

No que diz respeito ao seu impacto económico, embora este inclua “custos diretos (produtos de higiene pessoal, consultas ambulatoriais, testes de diagnóstico e custos médicos e cirúrgicos) e indiretos (perda de produtividade e alterações necessárias nos hábitos de vida)”, não é fácil de medir. “Como é uma doença é crónica, torna-se difícil medir o impacto económico, principalmente porque a eficácia dos tratamentos pode diminuir com o tempo e os dados disponíveis sobre os custos diretos e indiretos são extremamente limitados”, sublinha.

De modo a minimizar este impacto, António Manso, considera que “devia existir uma maior divulgação das terapêuticas para incontinência fecal, porque, pela minha experiência, é uma patologia desconhecida para muitos e relativamente à qual os doentes normalmente têm receio de procurar ajuda”.

Não havendo forma de a prevenir, a não ser evitando o trauma obstétrico e o traumatismo cirúrgico nas cirurgias que envolvem o complexo esfincteriano anal, é importante que se tome consciência de que este problema existe, é mais frequente do que supomos, mas tem tratamento.

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Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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