Um velho Tabu… ou talvez não!!!

Praticar sexo antes de um jogo de futebol, sim ou não?

Desde há longas décadas que a controvérsia envolve treinadores, preparadores físicos, médicos e jogadores. Sexo antes do jogo - sim ou não?

Desde há longas décadas que a controvérsia envolve treinadores, preparadores físicos, médicos e jogadores. Sexo antes do jogo - sim ou não? A resposta a esta questão “atormenta” todos estes intervenientes, dada a impossibilidade (ainda na actualidade), de dar uma resposta cabal baseada em evidência científica. Mas é bom ou é mau? De que testemunhos dispomos?

NÃO ao SEXO – Já de acordo com Platão, nas Olimpíadas, os atletas deviam evitar actividade sexual antes da competição. António Miguel, antigo jogador de futebol e actual Responsável dos Serviços Médicos do Club Universidad Nacional Plumas (primeira divisão mexicana) afirma: “nos anos 60, os treinadores davam-nos nitrato de potássio porque diziam eles que inibia o desejo sexual, o que fazia da utilização deste produto um hábito em prisões, conventos e casernas (para além dos balneários) ”. Já o todopoderoso pugilista Muhammad Ali (Cassius Clay) afirmava: “sexo antes do combate está proibido para mim nas seis semanas anteriores porque me drena a energia do corpo.” Será?

SIM ao SEXO – De acordo com Edson Arantes do Nascimento (Pelé) – para muitos considerado o melhor futebolista do mundo, o testemunho não podia ser mais diferente – “NUNCA suspendi a actividade sexual com a minha esposa antes de um jogo. Esta coisa de que o sexo ajuda a relaxar é uma verdade comprovada”. Já Juan Carlos Medina, coordenador do Departamento de Desporto da Universidade de Monterrey utiliza o exemplo da Selecção Nacional Holandesa – “Na Copa do Mundo em 1978, na Argentina, vários jogadores estavam acompanhados pelas esposas – só ganharam o 2º lugar… não me venham dizer que não há redução da ansiedade”. Para George Best, considerado o melhor jogador que alguma vez vestiu a camisola da selecção de futebol da Irlanda do Norte – “o sexo antes de um jogo é uma rotina para mim – acreditem que nunca me fez mal”.

A grande questão passa muito pela personalidade do atleta e pelo desgaste físico envolvido. Como afirmava o lendário treinador dos New York Yankees – Casey Stangel “não é o sexo na véspera que faz mal aos rapazes, mas sim ficarem a noite toda acordados à procura dele”. A moderação é a chave – tudo o que vai envolver o sexo – festas, tabaco, álcool e a falta de descanso devem ser evitados. Já não parece haver problema para o atleta em ter actividade sexual desde que prevaleça o descanso necessário, esteja bem hidratado e evite o tabaco e bebidas que alterem a concentração. Também as crenças são importantes – se um atleta pensa que o sexo lhe vai fazer mal, provavelmente é mesmo isso que vai acontecer. No final, é o cérebro quem comanda mais uma vez…

Há que atender às necessidades individuais – para cada atleta há um padrão de ansiedade/concentração ideal antes de uma competição. Se o atleta está demasiado ansioso, a actividade sexual pode ser um factor importante de relaxamento e bom repouso. Já para o atleta que está perfeitamente relaxado, ou com pouco interesse sexual antes da competição, então o mais certo é precisar de uma boa noite de sono – Há que respeitar sempre as preferências individuais porque a consistência dos hábitos é a chave para um bom dia seguinte.

De qualquer forma, em termos fisiológicos, os poucos estudos disponíveis efectuados após 6 dias de abstinência e comparados com o dia seguinte após sexo, demonstraram que actividade sexual não altera funções relacionadas à força de preensão palmar, tempo de reacção, prova de esforço, equilíbrio e poder aeróbico. De acordo com John Bancroft, antigo Director do Instituto Kinsey para a Investigação em Sexualidade, o sexo na noite anterior não altera a “performance” desportiva, mas cuidado com o período refractário. De facto, a libertação de prolactina durante o orgasmo (apontada como principal responsável do estado de relaxamento pós-orgásmico), implica que nas primeiras duas horas após o sexo, a actividade desportiva pode estar algo comprometida – no entanto, não existe qualquer evidência que este estado se prolongue para o dia seguinte.

A questão da “agressividade” ligada à testosterona merece comentário, dado que ainda prevalece a teoria de que a abstinência promove o aumento da testosterona e o orgasmo “drena” esta mesma hormona do organismo. Desta forma, a abstinência levaria a melhor concentração nos momentos decisivos e o sexo levaria a um maior cansaço no dia seguinte. Ora, de facto esta crença não está certa. O facto é que está hoje demonstrado que, após 3 meses de abstinência, as taxas de testosterona plasmática baixam dramaticamente e que a actividade sexual aumenta a produção de testosterona, o que pode permitir a obtenção de um bom patamar atlético no dia seguinte. É uma realidade que os níveis de testosterona são reconhecidamente mais elevados nos homens que apresentam uma vida sexual activa… As conclusões pertencem a cada um…

 

Pedro Vendeira MD, PhD, FECSM - Médico Especialista em Urologia. Responsável do Núcleo de Urologia da Clínica do Dragão-IFA Medical Centre of Excellence - Porto

Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia.

Competência em Sexologia pela Ordem dos Médicos

Investigador Coordenador da ISEX

Membro da Comissão Executiva da Sociedade Europeia de Medicina Sexual

Fellow of the European Committee of Sexual Medicine

Editor-Chefe do Website da Sociedade Europeia de Medicina Sexual

Pedro Venteira - médico especialista em urologia
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro e/ou Farmacêutico.
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