Tumores benignos

Miomas uterinos: perdas sanguíneas e dor podem condicionar as férias

Os miomas uterinos, também conhecidos por fibromiomas, são tumores benignos com origem no miométrio e que afetam entre 20 a 40% das mulheres em idade reprodutiva. Uma percentagem que aumenta com a idade. Perdas de sangue e dor são alguns dos sintomas que parecem ter grande impacto na mulher, sobretudo nesta época do ano, condicionando as férias de verão.

Nesta época do ano, em que habitualmente se desfrutam as férias, é fácil perceber o forte impacto que os sintomas associados aos miomas – que contam com perdas sanguíneas abundantes ou persistentes e dor – podem causar, condicionando ou impedindo a realização de tarefas ou atividades próprias do verão, como desportos aquáticos, caminhadas ou simples passeios. Este impacto é ainda maior se estiver associada a anemia. “O cansaço associado interfere nas atividades diárias e, claro está, no bem-estar geral que se exige para usufruir de forma adequada das férias”, afirma a especialista em ginecologia e obstetrícia, Margarida Martinho.

No entanto, a existência destes sintomas depende do tamanho e localização dos tumores.

“Os fibromiomas são tumores benignos com origem na camada muscular do útero. Têm habitualmente uma forma arredondada e classificam-se de acordo com a zona do miométrico para onde crescem: submucosos, quando crescem para o interior do útero; intramurais, quando crescem no interior da camada muscular, e subserosos, se crescem para o exterior do útero”, explica a especialista do Hospital de São João, no Porto.

Uma menstruação mais abundante ou perdas de sangue fora do período menstrual,e  que podem resultar em anemia, constam da sintomatologia frequentemente associada aos miomas submucosos. “Menos frequentemente podem causar dores abdominais localizadas na região inferior do abdómen e são também os que mais afetam a fertilidade feminina”, acrescenta Margarida Martinho.

Os miomas subserosos quando volumosos podem causar dor abdominal, aumento do volume do abdómen e sintomas de compressão de outros órgãos abdominais, como a bexiga levando a mulher a sentir necessidade de ir à casa de banho com bastante frequência.

“Os miomas designados por intramurais, em função das suas dimensões, podem associar-se à dor abdominal, mas também a perdas de sangue exageradas”, refere a especialista justificando assim o impacto negativo que incorre no dia-a-dia da mulher afetada.

Tendo em conta, no entanto, que a grande maioria dos miomas não apresentam qualquer sintoma, a sua verdadeira incidência não é conhecida, estimando-se que esta varie entre 5 a 80% dependendo da idade e da raça, “com uma prevalência de 20 a 40% nas mulheres em idade reprodutiva e de 70 a 80% aos 50 anos”.

“Têm sido apontados vários fatores de risco para o desenvolvimento de miomas uterinos: idade, menarca precoce, história familiar (1º grau), raça negra, obesidade, hipertensão arterial, dieta (carnes vermelhas, álcool, cafeína) e a mulher que nunca deu à luz”, esclarece.

Sabe-se, por exemplo, que a incidência dos miomas é duas a três vezes superior na raça negra “causando mais vezes sintomas, sendo maiores e em maior número”. No entanto, parecem contribuir para o seu desenvolvimento vários fatores – genéticos, hormonais e de crescimento.

“40% dos miomas apresentam anomalias nos cromossomas”, revela a ginecologista. Por outro lado, alguns estudos sugerem que os estrogénios e a progesterona podem estimular o seu desenvolvimento, bem como algumas substâncias produzidas pelas células da camada muscular do útero podem levar ao seu desenvolvimento.

Fertilidade e saúde sexual

De acordo com Margarida Martinho, o impacto dos miomas na fertilidade é ainda fonte de dicussão entre os especialistas. “No entanto, cada vez mais é consensual que os miomas de tipo submucoso (os que crescem para a cavidade uterina) têm um impacto negativo na fertilidade da mulher e devem ser tratados de forma a aumentar a probabilidade de uma gravidez”, revela. Porém, nos outros tipos de miomas é mais difícil estabelecer essa relação de forma tão consistente.

Quanto ao seu impacto na saúde sexual, os miomas sintomáticos são os que condicionam de forma significativa esta atividade. “As perdas sanguíneas abundantes ou persistentes, muitas vezes associadas à dor abdominal (por vezes agravadas pela atividade sexual) são um fator limitante importante a uma vida sexual ativa e satisfatória”, justifica a ginecologista.

Não obstante, os principais riscos ou complicações associados aos fibromiomas são a anemia grave – com necessidade de tratamento com ferro ou transfusão -, e a necessidade urgente de cirurgia.

No caso de haver necessidade de recorrer a tratamento cirúrgico, este pode consistir na remoção do útero (histerectomia), na remoção do mioma (miomectomia) ou na embololização das artérias uterinas que “alimentam” o tumor.

De acordo com Margarida Martinho, a histerectomia é “neste contexto, o tratamento com maior eficácia, sobretudo a longo prazo, mas também muito radical e com riscos cirúrgicos associados”. “A miomectomia, apesar dos riscos da cirurgia, mantém a fertilidade da mulher”, compara.

No caso da embolização das artérias uterinas ou outras técnicas similares, a especialista afirma, mesmo admitindo que constituem alternativas terapêuticas a considerar, que são ainda bastante controversas.

Quando não é necessário recorrer ao tratamento cirúrgico, o tratamento hormonal é apontado como a principal opção, apresentando bons resultados na diminuição das hemorragias e no tamanho dos miomas. “Os tratamentos hormonais que têm essa capacidade são essencialmente os Agonistas da GnRH que produzem uma menopausa artificial com diminuição das hormonas femininas, mas que pelos seus efeitos secundários relacionados com a diminuição dos estrogénios não podem ser utilizados a longo termo, e o acetato de Ulipristal que interfere com a ação de outra hormona feminina, a progesterona, e que atualmente tem vindo a ser mais usado, uma vez que os estudos têm demonstrado a sua eficácia e segurança clínica”, explica.

Dada a incidência destes tumores, e sobretudo por, na sua grande maioria, não apresentarem qualquer sintoma, a especialista em ginecologia e obstetrícia do Hospital de São João apela a que esteja atenta. “Sendo difícil a sua prevenção, o mais importante é apostar no diagnóstico precoce o que implica a realização de consultas de rotina, pelo menos anuais, e a valorização de sinais e sintomas como o aparecimento de dores abdominais ou de perdas sanguíneas não habituais ou o aumento de perdas menstruais assim como o aumento do volume abdominal”, sublinha. 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
Pixabay