Apenas 10% dos doentes recorrem ao médico por problemas de incontinência

“Incontinência urinária é também um problema cultural”

Estima-se que, em todo o mundo, mais de 60 milhões de pessoas sofram de incontinência urinária. Em Portugal, cerca de 33% das mulheres com mais de 40 anos apresentam sintomas da doença mas apenas 10% recorre ao médico. Para assinalar o Dia Mundial da Incontinência Urinária, o urologista Rui Borges descreve-nos a condição no feminino.

O que é a incontinência urinária?

A incontinência urinária é uma situação patológica que resulta da incapacidade em armazenar e controlar a saída da urina.

É caraterizada por perdas urinárias involuntárias que se apresentam de forma muito diversificada, desde fugas muito ligeiras e ocasionais, a perdas mais graves e regulares.

Atualmente, 33% das mulheres com mais de 40 anos têm sintomas da doença epenas 10% destes doentes recorrem ao médico. Os restantes recorrem à automedicação ou à autoprotecção.

Além de ser encarada como um tabu que diz respeito apenas à intimidade da mulher a incontinència urinária é também um problema cultural. Muitas vezes quer a mãe quer a avó sofreram da mesma doença pelo que a mulher assume a incontinència urinária com uma herança familiar e que faz parte do normal envelhecimento. Esta situação condiciona a vida da doente a todos os níveis; pessoal, sexual, familiar, social e laboral.

Existem múltiplos factores de risco como é o caso da raça, da predisposição familiar ou de anormalidades anatómicas e neurológicas, fatores obstétricos e ginecológicos, como por exemplo a gravidez, o parto e a paridade, os efeitos laterais da cirurgia pélvica e radioterapia ou o prolapso genital.

Ou podem ser fatores promotores, como a Idade, a obesidade, a obstipação, o tabaco, as atividades ocupacionais, as infecções urinárias, a menopausa ou a medicação.

Quando se fala de incontinência feminina referimo-nos fundamentalmente a três tipos:

Incontinência de esforço – perdas de urina relacionada com o esforço e que acontecem quando o indivíduo se ri, tosse, espirra, faz exercício, se curva ou pega em algo pesado e decorre da fragilidade dos músculos pélvicos que suportam a bexiga e a uretra. Em alturas de maior esforço, a pressão abdominal aumenta e o esfíncter (válvula responsável pela retenção da urina na bexiga) perde a força e deixa escapar a urina.

Incontinência por urgência ou imperiosidade – perda de urina acompanhada ou imediatamente precedida por uma vontade súbita ou urgente de urinar. A bexiga apresenta contrações súbitas, causando urgência em urinar.

Este tipo de incontinência pode estar relacionado com o envelhecimento e o avanço da idade, mas também surge em idades mais jovens, associado a doenças neurológicas ou muitas vezes sem causas identificáveis.

Incontinência mista – combinação da incontinência de esforço com a incontinência de

urgência.

O diagnóstico da incontinência urinária é muito simples e começa na história clínica e no exame físico. São também necessários uma ecografia pélvica, umas análises ao sangue e urina e por vezes um diário miccional. Em algumas situações pode ser necessário alguns exames mais específicos como é o caso do exame urodinâmico.

O tratamento da incontinência urinária da mulher é possível em todos os grupos etários e se no caso da IU por imperiosidade é o tratamento medicamentoso que permite com maior eficácia uma melhoría clínica, na IU de esforço o tratamento de eleição é o cirúrgico.

A cirurgia tem um papel muito importante não apenas pela sua elevada eficácia mas também pela sua simplicidade de execução com mínimos efeitos indesejáveis para o doente. Consiste na colocação de uma fita de material sintético sob a uretra, por meio de uma abordagem vaginal, com uma pequena incisão de um a dois centímetros. A intervenção dura poucos minutos e o internamento é geralmente de um dia. A recuperação é rápida, em poucos dias a doente pode voltar à actividade normal.

Tem uma alta taxa de sucesso, acima de 90% e a taxa de complicações é baixa.

Dr. Rui Borges - Urologista Hospital Lusíadas Porto
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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