15 de fevereiro | Dia Internacional da Criança com Cancro

A Oncologia Pediátrica pela óptica do enfermeiro

Ao longo da vida o ser humano depara-se inúmeras vezes com o processo de adoecer, no entanto há patologias que não são expectáveis que ocorram em determinadas idades pelo seu carácter de cronicidade e gravidade, como a doença oncológica quando ocorre na infância/adolescência.

O cancro é uma doença com elevada incidência, sendo que não escolhe géneros, classes sociais ou idades. Em Portugal está a aumentar o número de crianças/adolescentes com cancro, do mesmo modo que aumenta também o número de doentes que sobrevivem ao fim de cinco anos (Costa e Silva, 2005).

Embora seja uma doença grave, cada vez mais as taxas de cura e de sobrevivência aumentam dada a evolução de novas terapêuticas mais eficazes. Os meios de diagnóstico mais evoluídos permitem uma deteção mais pormenorizada das caraterísticas do tumor de modo a adequar da melhor forma os meios de tratamento a utilizar (cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia).

Enfermeiro é elemento fulcral no apoio ao doente e família

No entanto, receber um diagnóstico de cancro continua a ser um momento de grande impacto, tanto para a criança/adolescente, como para a família. Nesse momento tudo é colocado em causa. O enfermeiro, desde o diagnóstico, é um elemento fulcral para o apoio ao doente e família, ajudando-a na adaptação a todas as fases do processo de doença.

Como referem Lima et al. (1996), a hospitalização da criança com cancro implica um sem número de características específicas, a possibilidade de um mau prognóstico, a cronicidade da doença, os efeitos secundários agressivos da terapêutica, a alteração da auto-imagem, os internamentos prolongados e frequentes, bem como uma alteração de todo o curso de vida da criança (ausências escolares, distancia da família e amigos).

A dinâmica familiar destas crianças/adolescentes e das suas famílias também é bastante alterada. Sendo enfermeira a exercer funções num serviço de Oncologia Pediátrica, e apesar de no serviço onde trabalho um dos pais poder permanecer junto da criança 24h/dia, é compreensível que estes se sintam exaustos e ansiosos por vários motivos como: impotência por assistirem ao sofrimento dos filhos durante a hospitalização, insegurança de saberem resultados acerca da eficácia da terapêutica, distância da restante família e impedimento transitório de seguirem a sua vida profissional.

Família culpabiliza-se por não ter detetado sintomas da doença

Quando uma criança adoece toda a rede familiar é afectada tanto nas rotinas, afastamento do domicílio e rede social de apoio, absentismo a nível laboral dos pais, perda de capacidade económica. Sendo a doença oncológica uma patologia crónica, esta ansiedade é mantida no tempo e alocada a diversos motivos como culpabilização por não terem detectado os sintomas da doença do filho precocemente, incerteza e insegurança vivenciadas durante o tratamento e o cariz negativo da doença, muitas das vezes associada a morte (quando se trata de uma criança é ainda um acontecimento antinatural).

Para o enfermeiro que exerce funções em oncologia pediátrica todos os dias são um desafio. Durante o acolhimento os pais são, desde logo, “assaltados” pela insegurança quando veem o nome do serviço à entrada, quando veem crianças sem cabelo (alopécia) no corredor. A doença ainda é extremamente estigmatizante e muitas pessoas ainda a vêem como uma fatalidade, cabendo ao enfermeiro desmistificar esta crença.

Fazer acreditar que a pessoa que faz o penso do cateter também pode brincar e cantar

As crianças, apesar de doentes, têm o direito de continuar a brincar e o mais complicado, a meu ver, é ganhar a sua confiança. É fazê-las acreditar que a pessoa que lhe faz o penso do cateter central pode ser também aquela que brinca com ela e lhe canta músicas infantis.

Relativamente aos adolescentes, é compreensível que haja uma maior dificuldade ao ajustamento a um diagnóstico e tratamento de um tumor. A adolescência é uma fase do ciclo vital de transição à qual está implícita uma crise de desenvolvimento que, quando acoplada ao aparecimento de uma doença oncológica, faz com que ocorram duas crises em simultâneo, a de desenvolvimento e uma crise situacional (surgimento de doença), o que vai dificultar ao adolescente o processo de lidar com esta doença e seus efeitos sociais, físicos e emocionais.

Sendo o cancro uma patologia à qual ainda se associa socialmente sofrimento e morte, e estando o adolescente numa fase de desenvolvimento da sua independência e construção da identidade, um diagnóstico de cancro nesta fase da vida implica várias perdas: saúde, alteração da imagem corporal, objetivos de vida, planos para o futuro, com consequentes mudanças no estilo de vida (Barros, 2008).

Enfermeiro confidente do adolescente, dos medos e sentimentos sobre a doença

Devido à facticidade da doença e às alterações que esta implica, o enfermeiro é muitas das vezes o profissional a quem o adolescente confia muitos dos seus medos e sentimentos perante a doença assumindo o papel de ajudar o adolescente a desenvolver um processo de ajustamento e adaptação às diferentes fases da patologia.

O enfermeiro de oncologia pediátrica é um elo fundamental da equipa de saúde, sendo muitas das vezes, dada a quantidade de internamentos e duração longa dos mesmos, encarado como um elemento essencial no desenrolar do curso da patologia dos seus doentes, vivenciando os seus medos, angústias, fracassos e vitórias. Pelo que, tem também de se proteger e tentar não carregar os problemas dos doentes e famílias consigo quando se ausenta do hospital, uma vez que este serviço tem uma carga emocional bastante pesada.

Para mim, como enfermeira nesta área, torna-se essencial acompanhar o percurso dos doentes e famílias, mesmo após a saída do internamento. Tanto quando as situações têm um desfecho menos bom - e acompanhamos a família no processo de luto disponibilizando-nos sempre para telefonarem ou virem ao serviço quando sentirem necessidade (o que acontece frequentemente) -, ou acompanhando os nossos meninos e jovens após saírem de tratamento, quando entram na faculdade, quando retomam a sua vida no domicílio e só regressam ao hospital para consultas de rotina.

É de salientar que esta é uma área bastante gratificante para o enfermeiro. Apesar de exigir muito deste profissional de saúde, tanto tecnicamente, como a nível emocional, também traz recompensas de enorme gratidão por parte de crianças/adolescentes e suas famílias. Isto é o mais importante, pois é para eles que estamos presentes todos os dias a dar o nosso melhor.

Bibliografia
- BARROS, Sónia – O contributo do enfermeiro no processo adaptativo do adolescente a uma doença oncológica. Dissertação de Mestrado em Ciências de Enfermagem. Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar: Universidade do Porto (2008).
- COSTA e SILVA, E. – Há mais crianças com cancro. Diário de Notícias. 31 Janeiro, 2005
- LIMA, et al. – Assistência á criança hospitalizada: reflexões acerca da participação dos pais. Revista Latino-Americana de Enfermagem. 7 (2). P.33-39.

Ana Filipa Cavaleiro Pascoinho, Enfermeira com Pós-licenciatura em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Serviço Oncologia Pediátrica – Departamento Hospital Pediátrico - Centro Hospitalar Universitário de Coimbra

Nota: 
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