Doenças continuam subdiagnosticadas

No feminino: as doenças da tiroide mais frequentes

Atualizado: 
22/05/2019 - 15:20
Estima-se que cerca de um milhão de portugueses sofra de distúrbios da Tiroide e que mais de metade desconhece a doença. A falta de conhecimento sobre o que são e como se manifestam pode justificar estes números.

Localizada na base do pescoço, “imediatamente abaixo da laringe” também conhecida por maçã-de-adão, a tiroide é a glândula que “controla” o nosso metabolismo através da produção de duas hormonas essenciais: “T3 e a T4 que quando são libertadas atuam em quase todas as células do nosso organismo”. Estas hormonas, para além de controlarem a velocidade das funções químicas do corpo (a chamada velocidade metabólica), “atuam diretamente no crescimento de crianças e adolescentes, na regulação dos ciclos menstruais, na fertilidade, no peso, na memória, na concentração, no humor e no controlo emocional”

De acordo com Inês Sapinho, especialista em Endocrinologia no Hospital Cuf Descobertas, estas regulam ainda a frequência cardíaca e respiratória, a pressão arterial e o funcionamento do intestino. “Simplificando, podemos afirmar que as hormonas tiroideias regulam a velocidade de funcionamento das células, garantindo o equilíbrio do organismo”, resume. Quando desreguladas, provocam distúrbios que comprometem este equilíbrio.

O Hipotiroidismo e o Hipertiroidismo são os distúrbios da Tiroide mais frequentes, apresentando maior prevalência no sexo feminino. No entanto, estas não são as únicas patologias que lhe estão associadas, pelo que vale a pena estar atento aos principais sinais.

“A probabilidade de as mulheres desenvolverem problemas da tiroide é 5 a 8 vezes superior aos homens. A razão não é clara, mas pode estar associada a fatores genéticos, hormonais e ambientais”, explica Inês Sapinho.

O Hipotiroidismo, que pode atingir entre 1 a 8,5% da população e que se manifesta maioritariamente em mulheres entre os 40 e os 50 anos, caracteriza-se pela diminuição da produção e secreção das hormonas da tiroide. “A redução dos níveis de hormonas tiroideias faz diminuir toda a velocidade de funcionamento do nosso organismo”, adianta destacando o cansaço, a falta de energia, a obstipação ou o aumento de peso como alguns dos principais sintomas. “Em situações extremas pode levar ao coma”, alerta.

A causa mais frequente é a doença autoimune, no entanto, este distúrbio pode surgir “como resultado de uma remoção da glândula por cirurgia ou pós tratamento com iodo radioativo, entre outras”.

O tratamento padrão para o hipotireoidismo envolve o uso diário de uma versão sintética da hormona tiroideia em falta.

No Hipertiroidismo passa-se exatamente o contrário, uma vez que este distúrbio é causado por uma produção excessiva de T4 e T3, afetando aproximadamente 2% de mulheres e 0,2% de homens a nível mundial. É, no entanto, mais comum em mulheres entre os 20 e os 40 anos.

“Existem muitas causas para o hipertiroidismo sendo que a principal causa é uma doença autoimune, causada por anticorpos que estimulam a glândula (Doença de Graves)”, refere a especialista.

“De acordo com a causa, a idade do doente, outras doenças associadas, podemos optar por um tratamento médico, isto é, com comprimidos, por tratamento com iodo radioativo ou pela cirurgia”, explica.

Quanto aos sintomas, o excesso de hormonas em circulação traduz-se numa aceleração de todas as funções, pelo que as manifestações clínicas passam por irritabilidade, ansiedade, insónias, aumento de apetite, emagrecimento, aumento do trânsito intestinal, intolerância ao calor, tremor das mãos ou falta de concentração. “No entanto, a preocupação maior é com as palpitações que podem evoluir para arritmias graves”, destaca entre as principais complicações.

Patologia nodular aumenta com a idade

Mais frequentes no sexo feminino, os nódulos podem estar associados a história familiar de nódulos da tiroide, antecedentes de irradiação prévia da cabeça e do pescoço e a deficiência de iodo. E, ao contrário do que se possa pensar, são quase sempre benignos. O tratamento pode ser ou não cirúrgico, dependendo do resultado da sua análise.

Habitualmente estes manifestam-se através de uma saliência indolor no pescoço, podendo existir rouquidão, endurecimento e presença de gânglios aumentados no pescoço.

Quanto às causas, a especialista afirma que não existe um único motivo para o aparecimento de nódulos, embora se pense que possam resultar de um desenvolvimento anormal do tecido glandular, uma deficiência em iodo ou inflamação da tiroide.

Diagnóstico é fácil, simples e acessível

Muitas vezes silenciosas e provocando sintomas inespecíficos, as doenças da tiroide podem demorar algum tempo até serem diagnosticadas, no entanto, basta uma análise sanguínea para serem detetados eventuais problemas.

Já os nódulos, estes são muitas vezes detetados pelos próprios doentes ou pelo médico ao fazer a palpação cervical. “Para o esclarecimento é necessário realizar uma ecografia tiroidea e, se necessário, realizar a citologia aspirativa ecoguiada. Todos os doentes com patologia nodular também devem fazer a avaliação da função tiroidea”, explica Inês Sapinho, endocrinologista.

No âmbito da Semana Internacional da Tiroide, cujo tema deste ano é “devemos assumir o controlo”, a especialista aconselha a que esteja, por isso, atento aos sinais. “É verdade que muitos sintomas são inespecíficos, sobrepondo-se ao de outras doenças e podem resultar do cansaço profissional e familiar, mas pela simplicidade com que podemos fazer a avaliação da função tiroidea não a devemos adiar”, aconselha.

“Sempre que o nosso corpo nos esteja a dar sinais de que algum não está bem, como por exemplo com as manifestações já aqui descritas, é importante pensar que se deve recorrer ao médico para fazer um despiste”, reforça.  

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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