Afeta 80% das mulheres, mas não se fala sobre isso

Melancolia pós-parto é mais frequente do que pensa

O nascimento de um bebé é um dos momentos mais felizes na vida de uma mulher, mas também dos mais complexos a nível emocional. Se por um lado é um acontecimento muito desejado, por outro, pelas alterações que implica, este é também período muito stressante resultando, na maioria das vezes, na chamada melancolia pós-parto.

Irritabilidade, tristeza, choro fácil, cansaço ou insegurança são alguns dos principais sintomas de melancolia pós-parto, uma disforia puerperal bastante comum, que se estima que afete cerca de 80% das mulheres no período pós-parto. Embora se distinga de depressão pós-parto, uma vez que se resolve espontaneamente no período estimado de duas semanas, o «baby blues», como também ficou conhecido, é um estado natural e que nada tem de errado. Por isso, não se condene!

Basicamente, a disforia puerperal consiste num conjunto de alterações de humor, que se relacionam com o reequilíbrio hormonal que ocorre após o parto. “Embora seja uma dificuldade transitória, esta dificuldade de regulação das emoções surpreende a mulher e deixa-a menos capaz de usufruir de uma fase que julgaria de enamoramento e felicidade”, começa por explicar Isabel Gomes, psicóloga na Clínica da Mente.

A culpa, essa recai sobre as intensas e bruscas alterações hormonais a que a mulher está sujeita antes e depois do parto. “Toda a alteração física do corpo da mulher para conter um bebé ao longo de nove meses termina no parto, que é um momento, por si só, stressante”, avança a especialista explicando que “a adaptação hormonal feita para uma ligação com o bebé termina subitamente e começa um tempo de grande exigência que é o cuidado do bebé, de cansaço e de uma natural insegurança da mãe”, sobretudo se for de “primeira viagem”.

A par do cansaço ou da insegurança podem surgir outros sintomas como as alterações do apetite, dificuldade de concentração ou preocupação excessiva com a saúde do bebé. Estes podem surgir logo imediatamente ao parto e desaparecer naturalmente ao fim de aproximadamente duas semanas. “Apesar de este ser um estado de intensas alterações, elas são de curta duração”, revela Isabel Gomes. Por isso, e uma vez que aparecem e desaparecem de forma espontânea, não necessitam de tratamento. “Aceitar que este é um estado comum e natural desta fase e que, apesar de interferir na disposição não interfere no afeto e na ligação com o bebé” é, de acordo com a psicóloga, meio caminho andado para ultrapassar esta fase transitória com maior tranquilidade. Importante ainda é partilhar o que sente, dividir tarefas e evitar a autocensura.

É que apesar de este ser um momento tão desejado, ele é também um momento muito exigente. E é essencial saber que não está sozinha.

“O tema gravidez e da maternidade é extremamente idealizado, como se tudo a ele associado fosse cor de rosa. Na verdade, é um tempo extremamente exigente e difícil, com todas as inseguranças que acarreta na vida de uma mulher, de um casal, além das mudanças físicas e emocionais”, explica a especialista.

Este é ainda um período em que a mulher assume uma nova responsabilidade. O errado é pensar que a responsabilidade é apenas sua e é também aqui que a família tem um papel bastante importante. “À família cabe o difícil papel de compreender o estado da mãe como algo natural desta fase e aceitar sem censura. Com isso, permite não sobrecarregar ainda mais a mãe de pressão e exigência, que ela já tem em demasia”, aconselha.

De acordo com Isabel Gomes é ainda importante dar-lhe carinho e participar no cuidado do bebé “para que a mãe se possa ir restabelecendo”.

E porque é importante falar sobre este tema, não tenha medo de partilhar com os que lhe são mais próximos o que sente. Do que tem medo. O que a deixa ansiosa. E deixe que cuidem de si. “Quando se fala numa percentagem que pode ir até aos 80% das mulheres, é estranho que este seja um tema tão pouco falado”, comenta Isabel Gomes.

“Saber que este estado de labilidade emocional é vivenciado por tantas mulheres ajuda a redimensionar o problema. Saber que é passageiro traz um alento, daí ser fundamental partilhar, ouvir outros casos, sentir-se escutada e entendida”, conclui a especialista.

Qual o limite entre a tristeza passageira e a depressão pós-parto?

De acordo com a psicóloga Isabel Gomes, a tristeza ligeira é uma reação a algum acontecimento (e que no «baby blues» não tem que ser significativo) ou pensamento negativo que passa com “relativa rapidez”, dando lugar a outros sentimentos.

“A depressão pós-parto é uma perturbação emocional que surge ou se diagnostica após o parto”, exigindo um acompanhamento especial pela intensidade e pela forma como condiciona a vida da mulher.

Estando associada a algum acontecimento da vida mais negativo e doloroso e que, nas palavras da psicóloga, “não se consegue ressignificar”, habitualmente, a depressão já está presente durante a gravidez. “Existe aqui um quadro clínico que se mantém estável e que destabiliza, de forma consistente, o equilíbrio emocional da mãe, conduzindo a uma dificuldade em criar vínculo com o seu bebé, conduzir naturalmente a sua vida e cuidar de si”, explica adiantando que “neste caso, não passa espontaneamente ao fim das primeiras semanas e necessita de apoio, quer familiar, quer de técnicos especializados”.

Apesar de haver sintomas que são comuns aos dois estados, na depressão o estado é mais intenso e duradouro, com uma tristeza mais profunda e persistente. Apatia e desinteresse estão também presentes, conduzindo a uma dificuldade em criar ligação com o bebé.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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