Incontinência Urinária, Gravidez e Parto

Mais de 50% das grávidas têm episódios de incontinência urinária

Atualizado: 
14/03/2018 - 12:27
A incontinência urinária é definida pela perda involuntária de urina. Esta situação é, em rigor, um sintoma e pode ser provocada por uma variedade de defeitos: da bexiga, da uretra ou das estruturas de suporte dos órgãos pélvicos.

A incontinência urinária é um dos problemas mais frequentes nas consultas de urologia feminina e é causa de sofrimento psicológico, limitação da vida social, familiar e profissional por razões de higiene e o receio emitir odor a urina que possa ser percebido pelos outros.

A gravidez e o parto estão associados ao risco de desenvolver incontinência urinária por razões que ainda não estão bem determinadas, mas que se relacionam essencialmente com lesões dos músculos, ligamentos e/ou nervos pélvicos. Este tipo de incontinência: Incontinência de Esforço, resulta da lesão dos ligamentos que suportam a uretra e o respetivo esfíncter (anel muscular que encerra a uretra e controla a continência urinária). Este defeito de suporte, resulta em hipermobilidade da uretra- uma descida exagerada da uretra durante esforços. 

A consequência, é a incapacidade da mesma em conter a urina armazenada na bexiga, durante aumentos da pressão abdominal, que acontecem ao realizar esforços como tossir, espirrar, carregar pesos ou fazer exercício.

Mais de 50% da grávidas têm episódios de incontinência durante o decurso da gestação. Esta incontinência geralmente resolve com o parto. No entanto, até 10% destas mulheres mantêm a incontinência pós-parto e algumas que não tiveram perdas até esta altura, também podem ficar incontinentes no pós-parto. Felizmente a maior parte destas mulheres acabam por recuperar nas semanas e meses que se seguem.

Assim, o risco de incontinência aumenta com o número de gestações. No entanto, o maior fator de risco parece ser o parto, sobretudo o tipo de parto. Se o nascimento for por cesariana, a incontinência que se desenvolve durante a gravidez, em regra geral, é transitória e resolve com o tempo. O parto vaginal, por outro lado, acarreta maior risco de incontinência persistente.  Este risco parece ser maior com o primeiro parto e sobretudo com partos traumáticos e complicados. Partos muito prolongados aumentam a probabilidade de incontinência persistente.  E no caso de partos com fórceps ou ventosas o perigo é maior. Também no caso de lacerações graves do períneo, o risco de prolapsos e incontinência aumenta. A episiotomia, protege destas rasgaduras e ajuda a evitar estas complicações.

Uma maneira de tratar e fazer profilaxia deste problema é o ensino de exercícios de reabilitação do pavimento pélvico. Os exercícios de Kegel, são o tipo de exercício de reabilitação mais conhecido. O objetivo é hipertrofiar o músculo do pavimento pélvico e aprender como o usar para aumentar o encerramento da uretra durante esforços.

No entanto, este tipo de reforço muscular não repõe o defeito que está na origem da incontinência. É apenas um mecanismo de compensação.

O problema é que em muitos casos, este reforço não é suficiente para compensar o efeito da perda de sustentação da uretra. Nestes casos, embora haja diminuição das perdas, o problema não fica resolvido e a doente continua com perdas. Nestes casos a solução é cirúrgica. Passa por colocar um reforço sob a uretra de modo que esta fique impedida de descer durante os esforços.

Este tipo de cirurgia é realizado com fitas de material sintético que se posicionam sob a uretra por meio de uma pequena incisão vaginal. Esta técnica cirúrgica que foi desenvolvida há cerca de 20 anos tem tido alguns desenvolvimentos ao longo do tempo, no sentido de uma maior simplificação e maior segurança, tem-se mantido no seu princípio básico, inalterada. Estas fitas, colocadas sob a região média da uretra apenas estão encostadas, sem exercer pressão.

Durante os esforços, a uretra é empurrada para baixo, de encontro á resistência desta fita, que a encerra e impede a saída da urina.

O que este texto descreve é a situação mais vulgar da incontinência urinária de esforço. No entanto, há que ressalvar que há muitas outras situações que resultam em incontinência urinária, bem como frequentemente a incontinência é um dos problemas de um conjunto de outras anomalias a tratar em cada doente específica.

A abordagem de cada pessoa implica uma avaliação cuidada e as soluções, não  são “standard” mas sim individualizadas para cada um.

Autor: 
Dr. João Varregoso - Urologista Coordenador da Unidade de Urologia do Hospital Lusíadas Lisboa
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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