Quais os riscos?

Há uma geração que não desliga: dependência pela tecnologia está a aumentar

Afeta crianças, jovens e até adultos. A dependência pela tecnologia tem vindo a aumentar e, em alguns casos, é tão grave quanto a dependência ao álcool ou drogas. Alterações nos padrões do sono ou nos hábitos alimentares são algumas das principais manifestações.

Em Portugal estima-se que cerca de um quarto das crianças e jovens já não passa sem a internet. O estudo realizado pelo ISPA mostra que estes passam mais de seis horas diárias ligados ao mundo digital, privilegiando os contactos online aos presenciais. Um dado preocupante, no entender de Ivone Patrão, Psicóloga e Terapeuta Familiar, autora do manual “Geração Cordão: a geração que não desliga”.

De acordo com a especialista “a internet e a rede móvel são das invenções mais fabulosas da Humanidade, com potencialidades fascinantes”, no entanto, é bom saber que também apresenta riscos.

“Tenho estudos com crianças, jovens e pais e em todos se percebe que há uma percentagem das amostras que revelam dependência da tecnologia”, afirma adiantando que um dos riscos do uso abusivo e contínuo da tecnologia é a inibição social e relacional, “o que traz repercussões a longo prazo no planeamento do projeto de vida profissional e pessoal”.

Embora considere que é bom “estar ligado”, garante que não é saudável estar dependente de “um cordão para ser alimentado a todos os níveis”.

“Se olharmos para a história há ciclos que se definem pela intensidade de experimentação de alguma novidade. As tecnologias estão a desempenhar esse papel. Neste momento, ainda estamos num crescente de ligação à tecnologia e de maior afastamento do físico, do toque, do cheiro”, explica a especialista.

Assim, há crianças e jovens que podem estar em risco, sobretudo se o seu contexto estiver associado a situações de vulnerabilidade, como é o caso de depressão ou acontecimentos de vida negativos, “caso não tenham um suporte social e familiar ajustado às suas necessidades”. Um jovem que passe 10 horas diárias a jogar online, que apresente alterações no sono ou alimentares e que não interage socialmente é, de acordo com a psicóloga, um jovem em risco.

Neste sentido, ao longo do manual, Ivone Patrão deixa algumas orientações para pais, professores e para a comunidade em geral quanto ao uso saudável da tecnologia. “De uma forma geral, diria que devemos começar a casa pela base, por isso a primeira orientação de todas é: a necessidade de se falar sobre este tema em família, na escola, na comunidade”, começa por explicar, acrescentando a necessidade de se estabelecerem pontos de concordância entre todos de modo a que sejam implementadas as mesmas regras em casa e na escola.

“É necessário diálogo e negociação entre pais, filhos e escola desde tenra idade. Se este assunto não for discutido desde cedo, já perdemos uma parte do comboio. Neste diálogo é importante a adequação das regras ao nível de desenvolvimento e idade da criança ou jovem e ao contexto familiar”, assinala referindo que é essencial compartimentar o tempo de modo a abranger todas as atividade relevantes para o bem-estar de todos. “Deve existir, em família, a possibilidade de instituir, pelo menos, um dia sem tecnologia”, dá como exemplo.

Por outro lado, a especialista alerta para a necessidade dos próprios pais saberem dar o exemplo. “O que os pais não têm consciência é que também são modelos virtuais. Ou seja: os filhos também acompanham e visualizam o comportamento online dos pais sobretudo nas redes sociais”, adverte.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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