Dislexia atinge 5% das crianças em idade escolar

Dificuldades na aprendizagem podem conduzir a uma baixa autoestima

Estima-se que, em Portugal, a dislexia afete cerca de 5% das crianças em idade escolar. Por vezes subdiagnosticada e pouco entendida, esta entidade clínica ainda é olhada com algum preconceito. Para lhe dar a conhecer esta perturbação que, quando não diagnosticada, pode conduzir a problemas comportamentais ou a uma baixa autoestima, o Atlas da Saúde esteve à conversa com os psicólogos Octávio Moura, Marcelino Pereira e Mário Simões, autores do manual “Dislexia: Teoria, Avaliação e Intervenção”, que afirmam ser de máxima importância pais e professores estarem atentos aos sinais precoces da Dislexia.

Estima-se que, em Portugal, cerca de 5% das crianças em idade escolar sejam disléxicas, sendo que o género masculino apresenta uma maior prevalência comparativamente com o feminino. Neste sentido, em que consiste este distúrbio e o que pode explicar o facto de atingir mais rapazes que raparigas? Quais as principais características da dislexia?

A Dislexia é uma perturbação de origem neurobiológica, em que está implicada uma multiplicidade de fatores genéticos, neurofuncionais e neurocognitivos. É caracterizada por dificuldades no reconhecimento preciso e/ou fluente de palavras, por défices nas habilidades de decodificação e por uma reduzida competência ortográfica em crianças com adequada inteligência e instrução. Estas alterações frequentemente resultam de défices no processamento fonológico, que são inesperados em relação às outras competências cognitivas e não são, de forma alternativa, melhor explicadas por alterações sensoriais, linguísticas, emocionais ou outras. Estudos epidemiológicos estimam a prevalência da Dislexia em cerca de 5% das crianças em idade escolar, sendo mais frequente nos rapazes, numa proporção que pode variar de 1,3 a mais de três rapazes para uma rapariga. A maior prevalência de rapazes poderá ser explicada, pelo menos em parte, por algum enviesamento no processo de referenciação destas crianças. Uma vez que os rapazes demonstram uma maior tendência para manifestarem problemas comportamentais e Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção seriam mais facilmente identificadas as suas fragilidades e, por conseguinte, seriam mais rapidamente referenciados para avaliação clínica e sinalizados os seus défices na leitura e escrita. Outras possíveis explicações estarão relacionadas com fatores genéticos, neurológicos e neurolinguísticos.

Como é feito o seu diagnóstico e a partir de que idade se pode concluir a presença deste distúrbio? Não obstante, qual a média de idades para o seu diagnóstico?

A Dislexia só deverá ser diagnosticada após a entrada para o 1º Ciclo do Ensino Básico e quando as dificuldades na leitura e escrita são clinicamente relevantes, persistentes e discrepantes em relação às restantes competências da criança e ao esperado para a sua idade cronológica. O diagnóstico da Dislexia é complexo e deverá ser apenas realizado por profissionais com comprovada experiência na sua avaliação. É uma avaliação abrangente que se realiza mediante um conjunto de procedimentos estandardizados e da administração de um amplo protocolo de provas que incluem uma entrevista clínica/psicoeducativa; análise da história desenvolvimental, escolar e familiar; análise de informação cumulativa de relatórios, portfólios e avaliações escolares; observação qualitativa das dificuldades nos processos leitores e ortográficos; resultados obtidos em testes neurocognitivos (inteligência, consciência fonológica, nomeação rápida, memória de trabalho verbal, funções executivas, etc.) e testes estandardizados de avaliação da leitura e escrita (por exemplo, precisão leitora e ortográfica, fluência e compreensão leitora, precisão na leitura e escrita de palavras regulares, irregulares e pseudopalavras); entre outros.

É possível rastrear sinais precoces ainda antes da frequência no 1º ciclo?

Sendo a Dislexia uma perturbação do neurodesenvolvimento é possível identificar vários sinais precoces durante a infância. Os défices na consciência fonológica, na nomeação rápida, na memória de trabalho verbal e no conhecimento do impresso são os mais relevantes preditores precoces de Dislexia independente do sistema ortográfico em que a criança aprende a ler (alfabético ou não alfabético; com diferentes níveis de transparência/opacidade). Apesar destes preditores precoces serem já claramente evidentes durante o período pré-escolar, o diagnóstico da Dislexia só poderá ser efetuado após o início da aprendizagem formal da leitura e escrita. O rastreio dos sinais precoces da Dislexia é fundamental para que uma intervenção reeducativa ocorra o mais cedo possível, pois está demonstrado que uma intervenção fonológica é claramente mais eficaz durante o período pré-escolar e nos anos iniciais da escolaridade. Isto é, aos primeiros sinais precoces de dificuldades na leitura e/ou de Dislexia deverá de ser realizada uma avaliação especializada e uma adequada intervenção. Inversamente, o atraso na identificação da Dislexia poderá levar ao acumular de dificuldades nas várias áreas curriculares, a uma menor eficácia da intervenção e ao surgimento de alterações emocionais.

Quais os principais sinais a que pais/educadores devem estar atentos?

Na idade pré-escolar os sinais que pais e educadores deverão prestar particular atenção são um atraso no desenvolvimento da linguagem, alterações na produção articulatória de alguns fonemas, dificuldades em tarefas simples de consciência fonológica (por exemplo, rimas e segmentação silábica), fragilidades na aquisição de conceitos espácio-temporais, na aprendizagem e recordação de algumas letras (vogais), entre outros. Na idade escolar os sinais mais relevantes são um atraso na aprendizagem da leitura (dificuldades na recordação das vogais, consoantes e ditongos; inserção, omissão, substituição e inversão de letras; confusão entre grafemas foneticamente próximos: p/t, ch/j, f/v,...), dificuldade nas correspondências grafema-fonema, no reconhecimento preciso de palavras frequentes, nas habilidades de decodificação (leitura de pseudopalavras), uma velocidade da leitura significativamente abaixo do esperado para o nível escolar, lacunas na compreensão da leitura de textos devido à baixa precisão e fluência leitora, muitos erros ortográficos, dificuldades nos processos ortográficos associados à composição de textos (na planificação, estruturação e organização das ideias no texto; na utilização de vocabulário diversificado na escrita de textos), dificuldades na memória verbal (por exemplo, na memorização dos diversos conteúdos curriculares, conceitos/nomes, dias da semana, meses do ano, tabuada, etc.), dificuldades em executar corretamente ordens/instruções complexas de tarefas, recusa ou reduzida motivação pela leitura ou pela aprendizagem escolar, dificuldades na aprendizagem de uma segunda língua (em particular no inglês), curtos períodos de atenção, entre vários outros sinais.

Os professores, na sua generalidade, estão despertos para o problema?

Os professores, na generalidade, encontram-se despertos para a problemática da Dislexia. A informação sobre as características, sinais precoces e sintomas da Dislexia são frequentemente difundidos e encontram-se disponíveis em várias plataformas (internet, jornais, revistas, cursos de formação de professores, etc.), pelo que o acesso à informação está claramente facilitado. Por outro lado, as dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita são relativamente frequentes nas crianças que iniciam a alfabetização, o que faz com que os docentes tenham bastante experiência nestas situações. Contudo, um pequeno conjunto de crianças que experienciam estas dificuldades iniciais irão manter as acentuadas e persistentes dificuldades na leitura e escrita, mesmo após todo o reforço da aprendizagem e apoio suplementar. A grande maioria destes casos serão, muito provavelmente, crianças com Dislexia. A distinção entre o que é uma trajetória de desenvolvimento normal da leitura e o que é um défice no seu desenvolvimento (i.e., Dislexia) é que já suscita maiores dúvidas entre a classe docente, o que faz com que muitas vezes haja um atraso na identificação destas situações e no seu encaminhamento para uma avaliação especializada. Outra das áreas onde é necessária mais informação e formação de professores é nas estratégias de intervenção e nas atividades mais ajustadas em função das manifestações disléxicas evidenciadas pela criança.


O manual, publicado sob a chancela da Editora Pactor, pretende ser uma obra recurso a psicólogos, professores ou terapeutas da fala, útil também para pais e educadores que pretendem saber mais sobre a disléxia

Quais as causas da dislexia? Há quem pense que esta terá uma origem genética, que pode ser hereditária… Há alguma razão para se acreditar que se alguém na família é disléxico há uma grande probabilidade de outros o virem a ser (por exemplo: se o pai é disléxico os filhos também o podem vir a ser)?

A Dislexia é uma perturbação do neurodesenvolvimento de base neurobiológica. Estudos epidemiológicos demonstram a elevada prevalência da Dislexia entre vários membros de uma mesma família, o que sugere a hereditariedade desta perturbação. Por exemplo, a probabilidade de um rapaz apresentar Dislexia é próxima dos 50% no caso da figura paterna ser disléxica e de 40% no caso de ser a figura materna. A influência genética na Dislexia tem sido igualmente examinada a partir de estudos com gémeos, onde a concordância de diagnóstico é significativamente maior entre gémeos monozigóticos (70% de concordância) do que entre gémeos dizigóticos (40% de concordância). Estudos de genética molecular têm identificado alguns cromossomas (sobretudo os cromossomas 6 e 15) e genes (sobretudo os genes DYX1C1, DCDC2 e KIAA0319) associados à Dislexia. Para além da genética, um vasto conjunto de estudos neuroimagiológicos têm convergido na associação das dificuldades leitoras em indivíduos com Dislexia com as regiões parietal-temporal, occipital-temporal e inferior-frontal do hemisfério esquerdo, bem como com a presença de anomalias na integridade da substância branca do fascículo arqueado.

Após o diagnóstico, que medidas devem ser tomadas? Qual o tratamento?

A intervenção na Dislexia deverá ocorrer o mais precocemente possível, dada a sua maior eficácia na fase inicial da aprendizagem da leitura. Em geral, uma intervenção através de métodos fónicos é a abordagem mais eficaz no início da aprendizagem da leitura e quando ocorrem marcadas dificuldades na conversão grafema-fonema e nas habilidades de decodificação. Para além dos métodos fónicos, uma intervenção no processamento lexical, na fluência leitora (através da estratégia de “leituras repetidas”), nas trocas fonológicas, na consciência fonológica e na memória verbal são, necessariamente, abordagens terapêuticas a incluir num processo de reeducação da Dislexia. Obviamente que o plano de intervenção terá que ser ajustado em função das dificuldades manifestadas pela criança, das imprecisões na leitura/escrita apresentadas e do seu perfil neurocognitivo obtido. Não existe uma única intervenção para todos os casos e “tipologias” de Dislexia, pelo que a terapêutica terá que ser ponderada em função de todas estas especificidades. Para além desta intervenção na leitura e escrita, poderá vir a ser necessária a aplicação de algumas medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão (e.g., Decreto-Lei n.º 54/2018), nomeadamente através da diferenciação pedagógica, das acomodações curriculares e das adequações ao processo de avaliação.

Que comorbilidades lhe podem estar associadas? E qual o seu impacto na autoestima da criança?

As comorbilidade mais frequentemente da Dislexia são a Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção (PHDA) e a Discalculia. A Dislexia e a PHDA coocorrem no mesmo indivíduo numa frequência muito superior há observada na população tipicamente normal, com 15% a 40% das crianças com Dislexia a apresentarem critérios sintomatológicos de PHDA. Por seu lado, a Dislexia e a Discalculia coocorrem entre 30% a 70% dos indivíduos, com 10% a 55% das crianças com Dislexia a revelarem dificuldades significativas na matemática. Se, por si só, a Dislexia conduz a um conjunto de dificuldades na aprendizagem, quando associada a outras perturbações do neurodesenvolvimento (PHDA e/ou Discalculia) poderá comprometer significativamente toda a aprendizagem escolar. Em função destas dificuldades de aprendizagem pode emergir um vasto espetro de reações emocionais, normalmente traduzidas numa baixa autoestima e autoconceito académico, insegurança, ansiedade, sintomas psicossomáticos, sentimentos de tristeza, culpa, vergonha e frustração, entre outros.

Para concluir, que conselhos gostariam de deixar aos pais e professores? E que mitos gostariam de desconstruir?

O principal conselho que pode ser deixado aos pais e professores é estarem particularmente despertos para os sinais precoces de Dislexia e para as dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita. Na eventualidade de reconhecerem alguns sinais/sintomas da Dislexia deverão recorrer, o mais brevemente possível, a uma avaliação especializada para se compreender a etiologia dessas dificuldades. Confirmando-se o diagnóstico de Dislexia deverá ser implementado, de imediato, um processo de intervenção na Dislexia.

Os principais mitos que normalmente surgem associados à Dislexia e que devem ser desconstruídos são: (1) o Dislexia é sinónimo de baixa inteligência; (2) a Dislexia está associada a dificuldades na lateralidade, perceção visual e na confusão entre a direita/esquerda; (3) não é possível identificar sinais precoces de Dislexia antes da entrada para o 1º Ciclo do Ensino Básico; (4) todas as crianças que apresentam dificuldade na leitura e escrita são disléxicas; (5) não existem diferenças entre os alunos com Dislexia ou os alunos que revelam dificuldades a ler/escrever (i.e., maus leitores); (6) não existe tratamento para a Dislexia.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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INFORMAÇÕES ESSENCIAIS COMPATÍVEIS COM RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DO MEDICAMENTO NOME DO MEDICAMENTO: Microlax, 450 mg/5 ml + 45 mg/5 ml, Solução rectal e Microlax, 270 mg/3 ml + 27 mg/3 ml, Solução rectalCOMPOSIÇÃO QUALITATIVA E QUANTITATIVA: Composição por microclister: Citrato de sódio: 450 mg ou 270 mg; Laurilsulfoacetato de sódio 45 mg ou 27 mg. Excipiente q.b.p.: 5 ml ou 3 ml. FORMA FARMACÊUTICA: Solução rectal (enema). A solução é viscosa, incolor e contém pequenas bolhas de ar incorporadas. INFORMAÇÕES CLÍNICAS – Indicações terapêuticas: Tratamento sintomático da obstipação rectal ou recto-sigmoideia; Encopresis; Obstipação durante a gravidez, obstipação associada ao parto e cirurgia (uso pré e pós­operatório); Preparação do recto e sigmóide para exames endoscópicos. Posologia e modo de administração: Adultos e crianças de idade superior a 3 anos: Administrar o conteúdo de uma bisnaga por dia. Na obstipação marcada pode vir a ser necessária a aplicação do conteúdo de duas bisnagas. Crianças até 3 anos: Na maioria dos casos é suficiente uma bisnaga de Microlax a 270 mg/3 ml + 27 mg/3 ml. Modo e via de administração: 1. Retirar a tampa da cânula (Microlax a 270 mg/3 ml + 27 mg/3 ml) ou quebrar o selo da cânula (Microlax a 450 mg/5 ml + 45 mg/5 ml). 2. Comprimir ligeiramente a bisnaga até aparecer uma gota na extremidade da cânula. 3.Introduzir a cânula no recto. 4.Comprimir completamente a bisnaga. 5.Retirar a cânula, mantendo a bisnaga comprimida. Contra-indicações:Hipersensibilidade às substâncias activas ou a qualquer dos excipientes. Advertências e precauções especiais de utilização: Recomenda-se evitar a utilização de Microlax no caso de pressão hemorroidária, fissuras anais ou rectais e colites hemorrágicas. Interacções medicamentosas e outras formas de interacção: Não foram realizados estudos de interacção. Efeitos indesejáveis: Doenças gastrointestinais: Frequência desconhecida (não pode ser calculado a partir dos dados disponíveis): Como em relação a todos os medicamentos do género, um uso prolongado pode originar sensação de ardor na região anal e excepcionalmente rectites congestivas. DATA DA REVISÃO DO TEXTO: Janeiro de 2009. Para mais informações deverá contactar o titular de Autorização de Introdução no Mercado. Medicamento não Sujeito a Receita Médica.