Desequilíbrio da flora intestinal

Diarreia associada à toma de antibióticos

Atualizado: 
16/05/2019 - 17:20
No dia Europeu do Antibiótico, o gastroenterologista Jorge Fonseca fala-nos de um efeito secundário, bastante frequente, associado à toma deste medicamento: a diarreia. Saiba como prevenir e tratar.
Diarreia e antibióticos

A diarreia é um efeito secundário frequentemente associado à toma de antibióticos e pode surgir durante a toma ou até 2 meses após o final do tratamento.

Num indivíduo saudável, o intestino está colonizado por diversas bactérias de diferentes espécies. Muitas destas bactérias são benéficas e contribuem para o equilíbrio da microbiota intestinal, antigamente chamada flora intestinal. A relevância do equilíbrio ecológico da microbiota intestinal para a saúde tem sido sobejamente demonstrada.

Os antibióticos são prescritos para combater infeções bacterianas, eliminando os microrganismos responsáveis pela infeção. No entanto, para além de eliminarem as bactérias nocivas, atuam num largo espectro de bactérias, levando a alterações do equilíbrio natural dos microrganismos intestinais. Como consequência pode ocorrer diarreia associada à toma do antibiótico. A incidência deste tipo de diarreia depende de inúmeros fatores tais como o antibiótico administrado, a duração do tratamento, o contacto com agentes infeciosos e a suscetibilidade do doente em questão.

Independentemente dos mecanismos envolvidos na etiologia da diarreia infeciosa, pode observar-se, habitualmente, um desequilíbrio da flora intestinal. O método principal de proteção do ecossistema intestinal contra a agressão microbiana é a ação sinérgica dos seus mecanismos de regulação e defesa (barreira microbiana, barreira imunitária, movimentos intestinais) que asseguram uma situação de equilíbrio. Estes são os principais meios de defesa do ecossistema intestinal contra as agressões de origem microbiana exógenas ou endógenas.

Como se trata a diarreia aguda?

Uma das principais consequências da diarreia é a desidratação, pelo que a primeira medida a implementar é a reposição de líquidos e sais para garantir a hidratação. Também se deve ter cuidado com a alimentação e ingerir alimentos que reduzam a diarreia. Se necessário, podem ser administrados medicamentos para alívio dos sintomas.

O tratamento com fármacos antidiarreicos com ação obstipante, apesar de ser muito comum, não traz benefícios práticos em casos de diarreia aguda. Estes medicamentos podem diminuir a frequência de dejeções, no entanto não aceleram a eliminação dos agentes patogénicos.

A utilização de antibióticos no tratamento da diarreia apenas é recomendada em casos muito específicos e requer sempre a avaliação médica.

Alguns microrganismos vivos (bactérias e leveduras), tais como Lactobacillus rhamnosus, Bifidobacterium bifidum e Saccharomyces boulardii, não patogénicos, são utilizados na prevenção e tratamento da diarreia provocada por diferentes agentes etiológicos. Para que estes microrganismos exerçam a sua ação benéfica no intestino, é necessário que os mesmos sejam resistentes à acidez do estômago, aos fluidos intestinais e à temperatura corporal (aproximadamente 37ᵒC). Estes microrganismos, ao modificarem a composição da microbiota intestinal, criam condições que limitam a multiplicação dos agentes patogénicos.

Saccharomyces boulardii – Tratamento da diarreia aguda e prevenção da diarreia associada à toma de antibióticos

A temperatura ideal para o Saccharomyces boulardii é entre os 22-30℃, no entanto esta levedura sobrevive aos 37℃, dando-lhe a vantagem de ser um dos microrganismos vivos utilizados que melhor resiste à temperatura do corpo humano.[1]

O efeito benéfico de S. boulardii é conseguido através de diversos mecanismos, entre os quais a adesão à superfície da mucosa intestinal, competindo com os agentes patogénicos; fortalecimento do efeito barreira da mucosa intestinal e estimulação das defesas imunitárias não específicas.

A associação de Saccharomyces boulardii à terapêutica com antibióticos, em crianças e adultos, reduz o risco de ocorrência de diarreia associada à toma de antibióticos.

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[1] World Journal of Gastroenterology, World Journal of Gastroenterology www.wjgnet.com Volume 16 Number 18 May 14 2010 

 

Autor: 
Professor Doutor Jorge Fonseca - Gastroenterologista
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.