Opinião

Bactérias multirresistentes: pelo nosso próprio erro, estamos a chegar à era pós-antibiótico

Atualizado: 
23/05/2019 - 16:55
Com o uso incorreto e indiscriminado de antibióticos, as bactérias vão criando inúmeras resistências, sendo necessários antibióticos de largo espectro e de tratamento hospitalar para as tratar.
Bactérias multirresistentes

Os antibióticos são um grupo de medicamentos usado para tratar infeções causadas por bactérias, não sendo eficazes no tratamento de infeções virais, como por exemplo a vulgar gripe.

Foi em 1928 que o jovem médico Alexander Fleming descobriu por acidente o primeiro antibiótico, a penicilina. Foi provavelmente a descoberta mais marcante da medicina. Pela primeira vez fomos capazes de vencer a “luta” contra bactérias causadoras de infeções, que eram na época a principal causa de morte.

Poucos anos depois, em 1942, Alexander Fleming ganhou o prémio Nobel da Medicina e no seu discurso alertou que o uso inapropriado dos antibióticos poderia tornar as bactérias mais fortes. E assim foi.

Com esta inovação, na era da dita Medicina Moderna, os médicos pensaram que tinha sido descoberta a solução para tratar definitiva e eficazmente todas as infeções bacterianas. E os Antibióticos, os salvadores da época, começaram a ser prescritos indiscriminadamente e para todos os tipos de infeção, causando a chamada resistência bacteriana, que fez das bactérias as “superbacterias multirresistentes” e sem antibiótico capaz de as tratar.

Quando temos uma infeção bacteriana os microrganismos que a causam vão-se multiplicando no nosso organismo, podendo sofrer algumas mutações. Ao tomarmos um antibiótico, mesmo que seja o mais adequado, existem sempre algumas bactérias que não são mortas e que se multiplicam e se tornam resistentes ao antibiótico tomado. Como resultado, numa infeção posterior, esse mesmo antibiótico já não é eficaz e tem que se tomar outro, de espectro mais alargado.

Com o uso incorreto e indiscriminado de antibióticos, as bactérias vão criando inúmeras resistências, sendo necessários antibióticos de largo espectro e de tratamento hospitalar para as tratar. Mas muitas vezes já não existem antibióticos que consigam debelar essas “superbacterias” e estamos novamente a morrer de infeções graves, exatamente como acontecia há 90 anos, no tempo de Alexander Fleming.

Existem algumas atitudes simples que devemos respeitar para tentar evitar que este problema de saúde pública continue a tomar esta dimensão:

  • Não utilize antibióticos sem serem prescritos pelo seu médico e apenas para infeções bacterianas;
  • Respeite a duração do tratamento e não páre de tomar mesmo que se sinta melhor;
  • Não tome antibióticos que restaram de tratamentos prévios;
  • Não guarde sobras de antibióticos em casa. Se sobrar entregue na farmácia;
  • Não se sinta mal tratado se o seu médico não prescrever antibióticos. Eles não tratam tudo, apenas infeções bacterianas. Não se esqueça que as infeções virais não cedem ao tratamento antibiótico e que se os tomarmos só aumentamos as resistências.

Ironia do destino, se achávamos que tínhamos descoberto a solução das infeções bacterianas, agora, pelo nosso próprio erro, estamos a chegar à era pós-antibiótico e praticamente já não temos antibióticos adequados para as tratar.

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Autor: 
Dra. Ana Miranda - Serviços Clínicos da Médis
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
Pixabay