Entrevista

Além de raro, o carcinoma de células de Merkel não é fácil de diagnosticar

Atualizado: 
19/06/2018 - 11:33
O Carcinoma de células de Merkel é um tipo de cancro de pele muito raro e agressivo que atinge sobretudo adultos acima dos 50 anos, com história de exposição solar prolongada. À margem do encontro “Deep in Merkel Cell Carcinoma”, que decorreu no passado fim de semana no Porto, o Atlas da Saúde esteve à conversa com Maria José Passos, a presidente do Intergrupo Português de Melanoma, que deposita esperança na imunoterapia como tratamento do futuro.

O que é o carcinoma de células de Merkel (CCM) e qual a sua incidência?

O carcinoma de células de Merkel é um tumor maligno da pele, muito raro e agressivo, frequentemente associado ao vírus polioma. É um tumor imunogénico em que a via PD1/PDL1 encontra-se muitas vezes desregulada (superativada).

Nos EUA a sua incidência quintuplicou desde 1986 e atualmente ronda cerca de 2500 novos casos por ano. A mortalidade aos 5 anos é de 33-46%.

Quais as causas e principais grupos de risco?

As causas são desconhecidas. Em 95% dos casos o MCC aparece em caucasianos, com história de exposição solar prolongada, idade superior a 50 anos e imunodeprimidos (HIV+, LLC, doentes transplantados)

Quais as manifestações clínicas deste carcinoma? Quais as partes do corpo mais atingidas?

Geralmente apresenta-se como um nódulo cutâneo ou subcutâneo isolado, frequentemente em áreas expostas ao sol, como a face e membros.

Sendo frequentemente mal diagnosticado, o que contribui para o seu subdiagnóstico?

Não se trata de mal diagnosticado. O CCM é um tumor muito raro, cujo diagnóstico pode ser difícil. Exige patologistas experientes e diagnóstico diferencial com outros tumores, como o melanoma, linfoma entre outros.

Qual o tratamento? E que novidades existem nesta área?

O tratamento da doença localizada é cirúrgico, consistindo na excisão da lesão primária, por vezes seguido de radioterapia. Mais de 95% dos doentes fica sem doença detetável, mas cerca de metade dos casos reaparece.

A doença localmente avançada e / ou metastática tem um comportamento agressivo, mas na maioria dos casos responde bem à quimioterapia, só que infelizmente estas respostas não são duradouras e a doença volta rapidamente, levando à morte em poucos meses. A necessidade de obter terapêuticas mais eficazes levou à realização de vários ensaios clínicos com novos fármacos inibidores de diferentes check point imunológicos (anti PDL1 e anti PD1) que se revelaram promissores nesta indicação, com aumento da PFS, respostas duradouras e com um perfil de toxicidade favorável. Um destes medicamentos foi recentemente aprovado pela FDA e EMA em 1ª e 2ª linha para o tratamento da doença avançada e existem mais dois a aprovar num futuro próximo.

Decorrem outros estudos interessantes com estes agentes imunológicos também em adjuvância e neo-adjuvância, cujos resultados temos que aguardar.

Tratando-se de um cancro cutâneo raro e bastante agressivo, qual o seu prognóstico (com ou sem disseminação) O que pode condicionar o seu prognóstico?

A extensão da doença com envolvimento de vários órgãos tem pior prognóstico que a doença localizada e está associada a uma sobrevivência baixa.

É possível haver recidivas? Nestes casos, qual ou quais os tratamentos indicados? Podemos falar em cuidados paliativos?

Sim. O tratamento vai depender do tipo de recidiva e se há envolvimento sistémico, a nível de órgãos nobres. (por exemplo, pulmão, fígado, cérebro). Nestes casos o prognóstico é pior. Se a doença for oligometastática poderá haver hipótese de operar; de contrário teremos que recorrer à quimioterapia ou à imunoterapia.

Os cuidados paliativos devem ser parte integrante do tratamento de todos os doentes oncológicos em fase avançada, visando o controle dos sintomas e o conforto do doente.

No âmbito desta temática, quais as principais recomendações? Que mensagem gostaria de deixar?

O mais importante é a prevenção e deteção precoce à semelhança do que acontece nos tumores cutâneos mais frequentes. É importante evitar os comportamentos de risco como exposição solar crónica exagerada e intensa (12-16h) sobretudo na infância.

Pela sua raridade, o tratamento de eleição destes doentes deveria ser a sua inclusão em ensaios clínicos multicêntricos internacionais.

Acredito que a imunoterapia num futuro próximo vai melhorar a vida dos doentes com CMM, como acontece no melanoma avançado, no pulmão e em outros tumores.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.