Europa lança o assistente de IA ResPECT

Transformar a experiência dos doentes em melhores cuidados

Financiado pelo Horizonte Europa, o projeto ResPECT vai articular a voz dos doentes, o apoio à decisão clínica e a inteligência dos sistemas de saúde em toda a Europa.

Milhões de pessoas com cancro da mama ou depressão enfrentam um pesado fardo físico, psicológico, social e financeiro que continua invisível ou que não recebe a devida atenção nos cuidados de saúde rotineiros. Os instrumentos de avaliação de resultados reportados pelos doentes fornecem informação valiosa, mas tendem a reduzir experiências complexas a pontuações numéricas. Ao mesmo tempo, os profissionais de saúde deparam-se com dados clínicos fragmentados e com exigências de documentação cada vez maiores. As ferramentas digitais de que dispõem também nem sempre estão bem integradas na prática clínica.

O ResPECT - Generative AI Assistant: A Paradigm Shift in Burden Assessment for Cancer and Mental Health Care (Assistente de IA Generativa: Uma Mudança de Paradigma na Avaliação da Pressão nos Cuidados Oncológicos e de Saúde Mental) é um novo projeto europeu de investigação e inovação que quer mudar esta realidade. É financiado pelo programa Horizonte Europa, no âmbito do concurso GenAI4EU, dedicado a aplicações de inteligência artificial (IA) generativa na saúde orientadas para os utilizadores finais. O projeto terá a duração de quatro anos, reúne 22 parceiros e inclui uma avaliação clínica em oito países europeus.

O ResPECT vai desenvolver um assistente virtual fiável e multilingue, em conformidade com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). O assistente terá duas vertentes. A primeira é um assistente médico, pensado para apoiar doentes e profissionais de saúde. A segunda é um assistente de políticas de saúde, dirigido a decisores políticos e sistemas de saúde.

 

Assistente Médico

O Assistente Médico vai apoiar a prestação de cuidados personalizados. Para isso, vai combinar as experiências relatadas pelos doentes com informação clínica relevante e com conhecimento baseado nas orientações clínicas. O objetivo é

ajudar os doentes a descrever, por palavras suas, os sintomas, as preocupações e as necessidades que sentem. Simultaneamente, o assistente vai disponibilizar aos profissionais de saúde informações concisas, estruturadas e clinicamente relevantes.

A ferramenta deverá reduzir a carga cognitiva dos profissionais de saúde e o tempo que dedicam à documentação clínica. Deverá também contribuir para cuidados atempados e baseados na evidência. A solução será avaliada num ensaio clínico multicêntrico, aleatório e controlado, que incluirá doentes com cancro da mama em estádio inicial ou com depressão moderada a grave.

 

Assistente de Políticas de Saúde

O Assistente de Políticas de Saúde vai centrar-se nos sistemas de saúde. Vai agregar informação estruturada sobre as experiências dos doentes em diferentes populações. Com base nessa informação, ajudará a identificar necessidades por satisfazer, padrões do peso da doença e eventuais lacunas nos cuidados.

Métricas de monitorização das desigualdades vão permitir comparar regiões, grupos de doentes e sistemas de saúde. Estes dados vão apoiar a definição de referências de desempenho e a afetação de recursos. Vão ainda ajudar a criar estratégias de política de saúde mais ajustadas às necessidades identificadas, em toda a Europa.

O projeto é coordenado pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha. O consórcio reúne centros clínicos de referência, especialistas em inteligência artificial e saúde digital, associações de doentes, economistas da saúde e peritos em políticas de saúde. Integra também líderes em metodologia, de reconhecido prestígio internacional. Entre os membros contam-se os co-coordenadores das Lancet Commission on Cancer and Health Systems, and Mental Health Effects of the COVID-19 Pandemic.

“Com o ResPECT, queremos transformar as experiências vividas pelos doentes em informação concreta que permita melhorar os cuidados e tornar os sistemas de saúde mais inteligentes em toda a Europa”, explica André Pfob, coordenador do projeto na Universidade de Heidelberg e no Hospital Universitário de Heidelberg.

Entre os parceiros do ResPECT encontra-se a Fundação Champalimaud, uma organização de referência dedicada à investigação biomédica e à prestação de cuidados clínicos. Através do Breast Cancer Research Programme (BCRP - Programa de Investigação em Cancro da Mama) e do Digital Neurotherapeutics Centre (DNTx - Centro de Neuroterapêutica Digital), a Fundação Champalimaud irá contribui com conhecimentos multidisciplinares nas áreas da oncologia, saúde mental, inteligência artificial (IA) e saúde digital centrada no doente. “Iremos liderar o desenvolvimento da tecnologia de IA que está na base do ResPECT. Esta permitirá captar e interpretar as experiências dos doentes, através das suas próprias palavras, e transformar a forma como tradicionalmente medimos e comunicamos os resultados em saúde. De seguida, iremos testar esta abordagem em contextos clínicos reais, com doentes afetados por cancro e problemas de saúde mental, mantendo sempre os doentes e os profissionais de saúde no centro do processo”, afirma Maria João Cardoso, Diretora do BCRP. O contributo da Fundação Champalimaud estende-se também à tradução das necessidades dos doentes e dos profissionais de saúde

em requisitos práticos, através de processos de codesign, e ao recrutamento de participantes com cancro da mama ou depressão para o ensaio clínico ResPECT.

O ResPECT integra ainda o GenAI4Health Cluster, que reúne iniciativas europeias dedicadas à utilização responsável da IA generativa na medicina e nos cuidados de saúde. Através desta colaboração, o projeto contribuirá para um esforço europeu mais alargado, que procura articular a inovação tecnológica, a implementação clínica e os cuidados centrados no doente, tendo sempre em conta a ética, a proteção de dados e os requisitos regulamentares.

Este projeto dá espaço aos doentes para descreverem, por palavras suas, aquilo que estão a viver. Assim, não reduz as suas experiências a questionários de resposta fechada e procura antes captar toda a complexidade dessa vivência. O objetivo é transformar estas vozes em informação clara e útil para os profissionais de saúde e em evidência comparável para os decisores políticos. Deste modo, o projeto quer contribuir para sistemas de saúde mais responsivos, eficientes e sustentáveis em toda a Europa.

 

Fonte: 
Kreab
Nota: 
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