Quem cuida dos animais também precisa de cuidar de si

Quando um animal entra numa clínica ou num hospital veterinário, a atenção está naturalmente centrada no seu diagnóstico, tratamento e recuperação. Mas, do outro lado, estão profissionais que acompanham diariamente situações de doença, dor, urgência e, por vezes, perda. Para os médicos veterinários, cuidar de um animal de companhia implica também lidar com a preocupação e as expectativas dos seus cuidadores e com decisões que podem ser emocionalmente exigentes.
Esta realidade tem vindo a ser reconhecida como uma questão relevante para a saúde e o bem-estar dos próprios profissionais. Um estudo nacional realizado com 833 profissionais veterinários em Portugal revelou que 27,4% relatam burnout e 27,7% fadiga por compaixão, enquanto 17,2% experienciam depressão extremamente grave. A nível europeu, 91% dos veterinários descrevem-se como stressados e 23% já se ausentaram do trabalho por mais de duas semanas devido a depressão, esgotamento ou fadiga de compaixão.1
Há decisões para as quais não existe uma resposta simples
Uma das dimensões mais exigentes da profissão surge quando é necessário comunicar que um animal tem uma doença grave, que o prognóstico é reservado ou que determinado tratamento não teve o resultado esperado. Nestes momentos, o médico veterinário precisa de transmitir informação clínica complexa, mas também de acompanhar um cuidador que pode não estar preparado para aquilo que está a ouvir.
A situação pode tornar-se ainda mais difícil quando é necessário discutir até onde faz sentido avançar com o tratamento. Os avanços da medicina veterinária permitem hoje tratar doenças e prolongar a vida dos animais em situações que anteriormente teriam poucas opções terapêuticas. No entanto, nem sempre prolongar o tratamento significa melhorar a qualidade de vida.
É nestas situações que a componente emocional da profissão se cruza diretamente com a responsabilidade clínica. O veterinário tem de tomar decisões baseadas na avaliação médica, mas também precisa de comunicar essas decisões, gerir expectativas e acompanhar emocionalmente a família.
Quando o sofrimento passa a fazer parte da rotina
Estas situações não acontecem de forma isolada. Ao longo da sua atividade, os profissionais veterinários acompanham casos que podem prolongar-se durante semanas ou meses e estabelecem, muitas vezes, relações próximas com os animais e os seus cuidadores. Por isso, os momentos de agravamento da doença ou de perda podem assumir uma dimensão particularmente exigente.
A exposição continuada a estas situações pode também ter impacto nos próprios profissionais, sobretudo quando existe uma relação próxima com o animal e a sua família. Reconhecer esse impacto não significa retirar importância à componente técnica da profissão, mas compreender que cuidar também implica lidar com emoções, tanto próprias como das pessoas que acompanham o animal.
Cuidar de quem cuida
Promover o bem-estar das equipas veterinárias passa também por criar condições para que os profissionais possam partilhar experiências, procurar ajuda quando necessário e desenvolver ferramentas para lidar com situações particularmente exigentes. Neste sentido, a AniCura assume o compromisso de acompanhar os seus profissionais, disponibilizando diversas formas de apoio para promover o seu bem-estar e ajudá-los a lidar com os desafios emocionais associados à profissão.
Referência
- Peixoto, M. M. (2025). Suicide risk in veterinary professionals in Portugal: Prevalence of psychological symptoms, burnout, and compassion fatigue. Archives of Suicide Research.
