O diagnóstico tardio nos homens

O que é que a Doença Venosa e Hemorroidária têm em comum?

 Novembro é o mês da saúde masculina, mas a conversa costuma deixar para segundo plano alguns problemas que muitos homens conhecem bem, mas dos quais preferem não falar. É o caso da Doença Hemorroidária e da Doença Venosa Crónica, ambas doenças vasculares, ambas comuns, e ambas geralmente ignoradas, a primeira por vergonha, a segunda mais por desconhecimento. Mas quando o desconforto já condiciona o trabalho, o desporto ou o sono, o homem chega finalmente à consulta, muitas vezes com a doença num estadio avançado.

“Tanto nos homens como nas mulheres, tudo o que envolva a região anal ainda está envolto num grande estigma”, confirma Ezequiel Silva, cirurgião colorretal e proctologista. “O que significa que as pessoas acabam por esconder muito os seus sintomas, e isso acaba por impactar negativamente na sua qualidade de vida”

Mas se isto é verdade tanto para o homem como para a mulher, o especialista realça que, no entanto, os homens tendem “a chegar mais tarde à consulta, com casos piores e a ocultar mais a sintomatologia”.

Os motivos que levam a que também a Doença Venosa Crónica seja diagnosticada mais tarde nos homens podem ser diferentes, mas o resultado é idêntico, refere Paulo d'Almeida, angiologista e cirurgião vascular. “A Doença Venosa continua a não ser vista como devia, quer pelos profissionais de saúde, quer até pelos próprios doentes, especialmente do género masculino. Estamos a falar de uma doença muito incidente e prevalente na sociedade, uma doença crónica e evolutiva que, num estadio avançado, pode culminar no aparecimento de uma úlcera. E quando chegamos a estas fases, causa uma imensa repercussão social, nomeadamente em absentismo laboral e perda de qualidade de vida. Mas, mesmo assim, continua a ser desvalorizada.”

O que leva, então, os homens a desvalorizar a doença? “Normalmente, não têm os sinais e sintomas iniciais de que as senhoras se queixam mais, que é a sensação de perna pesada, cansada ou inchada. Isto tem a ver com a fisiologia do género masculino: maior massa muscular, habitualmente maior atividade física e, portanto, os homens aparecem nas consultas já num estadio bastante avançado.”

 

Doença Hemorroidária: o preço do esforço e do sedentarismo

Quando se trata da Doença Hemorroidária, homens e mulheres partilham fatores de risco. “Na mulher, há um contexto associado à gravidez, em que os sintomas podem piorar, mas em termos de fatores de risco, acabam por ser semelhantes e são eles: a obstipação e tudo o que está na sua origem - pouco exercício físico, erros alimentares, pouca ingestão de fibras, de água ou outro tipo de hidratação adequada - maior dificuldade em ir à casa de banho, fezes mais duras, maior esforço evacuatório, que pode levar a alterações anatómicas da região perianal”, explica Ezequiel Silva.

No caso dos homens, determinadas profissões e atividades podem contribuir para o agravamento dos sintomas. “A obstipação e o esforço evacuatório são fatores importantes no desenvolvimento e agravamento da Doença Hemorroidária. Em algumas pessoas, o levantamento de cargas ou o esforço físico intenso podem também desencadear ou agravar queixas, como hemorragia, dor ou prolapso hemorroidário.

A propósito do mês dedicado à saúde masculina, o especialista reforça a importância de “falarmos, cada vez mais, destes sintomas, desta patologia, desmistificar, fazer com que as pessoas não sintam que este assunto é um tabu. Porque o facto de esconderem que têm este problema só lhes vai roubar qualidade de vida, fazer com que sofram em silêncio, sem necessidade”.

Por isso, considera que “quando algo nos está a acontecer com um impacto negativo no nosso dia a dia, sem dúvida que o devemos alterar”. O que significa estar atento aos sintomas da Doença Hemorroidária e procurar ajuda. Mas quando? “Na presença de sangramento, que pode ser mais ou menos abundante, nas idas à casa de banho ou quando fazemos algum esforço. E também quando há dor, desconforto ou um peso/pressão anal que nos limita no nosso dia a dia.”

A boa notícia é que existem formas simples de diagnosticar e tratar a Doença Hemorroidária. “O diagnóstico é geralmente feito na própria consulta, através da história clínica e do exame proctológico, que pode incluir a observação da região anal, o toque retal e a anuscopia. Este último exame permite observar diretamente o canal anal, é realizado em consulta e, não exige preparação prévia.

Quanto ao tratamento, “pode incluir alterações do estilo de vida e dos hábitos intestinais, medidas que muitas vezes desconhecemos ou desvalorizamos. Existem medicamentos tópicos que podem aliviar os sintomas durante as crises e fármacos venoativos que podem contribuir para a melhoria de determinadas manifestações da Doença Hemorroidária. Existem ainda tratamentos instrumentais, realizados em consulta, e diferentes técnicas cirúrgicas. Um diagnóstico correto é essencial para escolher o tratamento mais adequado a cada doente.”

É um facto que, em alguns casos, poderá ser necessária intervenção cirúrgica. Mas Ezequiel Silva esclarece que as coisas já não são como antes. “Historicamente, a cirurgia clássica era feita sem nenhum acompanhamento, sem recurso a tecnologia. Uma cirurgia associada a dor no pós-operatório e as pessoas preferiam sofrer do que tentar procurar uma alternativa. Neste momento, temos um conjunto de soluções que fazem com que a experiência do pós-operatório de uma cirurgia clássica seja incomparável com o que era feito há 20 anos. Mas também há outras abordagens minimamente invasivas, tanto a terapêutica que é feita no consultório como algumas cirurgias com recurso a laser ou radiofrequência que podem melhorar muito a sintomatologia.”

 

Doença Venosa Crónica: quando o diagnóstico chega tarde

A Doença Venosa Crónica tem, explica Paulo d'Almeida, “maior incidência nas mulheres”. Mas o impacto nos homens é grande. “É frequente, especialmente nos estados mais avançados, o aparecimento das chamadas flebites, que são coágulos que se formam no interior das veias, das varizes, e que causam um quadro inflamatório com dor intensa. E, muitas vezes, os homens recorrem pela primeira vez a uma consulta de cirurgia vascular precisamente devido a essa complicação, que pode ter riscos graves, porque o coágulo pode soltar-se e ir até aos pulmões.”

A prevenção começa nos hábitos do dia a dia. Paulo d’Almeida aponta, em primeiro lugar, as “medidas higieno-dietéticas: a dieta é fundamental, uma alimentação rica em fibras, promover hábitos de vida saudáveis, caminhar”. Quem passa o dia de pé ou sentado precisa de mexer as pernas: “Os doentes com atividades profissionais que os obrigam a estar de pé muito tempo, ou muito tempo sentados, devem ser instruídos a fazer movimentos com as pernas, porque o sangue, para vencer a força da gravidade, precisa de uma bomba muscular.”

Seguem-se outros cuidados: “Há ainda que evitar o uso de roupas muito apertadas, promover o calçado confortável, o exercício físico e, depois, temos a terapia compressiva, a chamada meia elástica, que não vai curar ou fazer desaparecer as varizes, mas é um instrumento terapêutico que exerce uma compressão sobre as pernas, ajudando o sangue a circular de volta ao coração e evitando a sobrecarga destas veias”. Existe ainda a terapia farmacológica, em que “os fármacos venoativos têm um papel importante, porque vão aliviar os sintomas e sinais” e, “em último recurso, a terapia cirúrgica”.

Os fatores de risco são semelhantes nos dois sexos: “a obesidade, o sedentarismo e a predisposição genética”. A diferença está na atitude, porque elas procuram ajuda mais depressa do que eles. O especialista defende que não se deve esperar: “A medicina do século XXI é uma medicina muito preventiva. E devemos ouvir aquele ditado que diz que não se deve correr atrás do prejuízo. Portanto, as pessoas devem efetivamente fazer uma avaliação logo que começarem a notar sintomas de peso e de cansaço nas pernas, ou aparecimento, por exemplo, de aranhas vasculares, ou alguma variz mais saliente. Porque quanto mais cedo for diagnosticado, menos invasivo é o tratamento. E, por vezes, quando os doentes já nos chegam num estadio muito avançado, o tratamento é mais invasivo, podendo haver a necessidade de se recorrer a cirurgia.”

Fonte: 
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Nota: 
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