O impacto silencioso do diagnóstico tardio no Cancro da Próstata

Homens continuam a desvalorizar os sinais silenciosos do cancro da próstata

“Vou para a semana.” “Quando tiver tempo eu marco.” “É só da idade.” “Não deve ser nada.” Estas são algumas das justificações mais repetidas entre a população masculina quando o tema é a saúde preventiva. Sob o mote “A consulta que ficou para depois”, e no âmbito do mês de sensibilização para o Cancro da Próstata, este alerta pretende expor as barreiras psicológicas e sociais que levam os homens a adiar a ida ao urologista, chamando a atenção para as consequências críticas do diagnóstico tardio.

O cancro da próstata assume-se atualmente como o segundo tumor mais diagnosticado entre os homens a nível mundial, com mais de 1,4 milhões de novos casos por ano (2). Em Portugal, o cenário reflete o peso crescente da doença na saúde pública, estimando-se o surgimento de cerca de 7.500 novos casos anualmente (3). Mais alarmantes são as projeções futuras: estudos recentes indicam que o número global de diagnósticos desta patologia poderá duplicar até 2040, atingindo a barreira dos 2,9 milhões de casos (1). Este aumento esperado é impulsionado, em grande parte, pelo envelhecimento populacional e pelo aumento da esperança média de vida (2). Em média, estima-se que 1 em cada 6 homens venha a ser diagnosticado com cancro da próstata ao longo da vida (4). Especialistas reforçam que a prevenção, o acompanhamento regular e o diagnóstico precoce continuam a ser fundamentais para reduzir o impacto da doença e aumentar as hipóteses de tratamento eficaz.

 

O estigma do silêncio e os sinais de alerta

Apesar da elevada prevalência e dos avisos claros de que a deteção atempada oferece taxas de sobrevivência e de cura muito elevadas, adiar a avaliação médica continua a ser um comportamento comum. O silêncio masculino é alimentado por barreiras psicológicas profundas: a tendência para desvalorizar os sintomas, o desconforto em falar sobre a saúde masculina, o receio do diagnóstico ou o estigma e vergonha associados a possíveis alterações da função sexual ou urinária (5,6). Contudo, os especialistas reforçam que procurar ajuda pode fazer toda a diferença no prognóstico da doença: adiar é comum, mas ignorar é perigoso.

Muitos homens continuam também a interpretar sintomas urinários como uma consequência inevitável do envelhecimento, atrasando a procura de ajuda médica e contribuindo para diagnósticos mais tardios. Para além do impacto clínico, alterações persistentes podem afetar significativamente o sono, a autoestima, a vida profissional e as relações pessoais, comprometendo progressivamente a qualidade de vida.

A idade média de diagnóstico situa-se nos 65 anos, sendo os casos mais prevalentes a partir dos 50 anos (7). Há que trabalhar para aumentar a consciencialização para uma patologia que, em muitos casos, evolui silenciosamente de forma assintomática durante anos, surgindo as queixas frequentemente já em fases mais avançadas.

Para além da idade, existem outros fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença, como histórico familiar de cancro da próstata, excesso de peso, sedentarismo ou determinadas alterações genéticas hereditárias. Por isso, os especialistas recomendam maior vigilância sobretudo a partir dos 50 anos ou mais cedo em homens com antecedentes familiares (7).

Embora a doença possa não apresentar sinais numa fase inicial, existem sintomas aos quais os homens devem estar atentos, sobretudo quando persistem no tempo. De acordo com o Instituto da Próstata (7), os sinais mais frequentes incluem:

  • Necessidade frequente de urinar, especialmente durante a noite;
  • Dificuldade em iniciar ou interromper a micção;
  • Jato urinário fraco ou interrompido;
  • Sensação de não esvaziar completamente a bexiga;
  • Ardor ou dor ao urinar;
  • Presença de sangue na urina;
  • Dor lombar ou pélvica persistente;
  • Cansaço inexplicável e perda de peso em fases mais avançadas.

 

Embora estes sintomas possam também estar associados a outras condições benignas que afetam significativamente o bem-estar e a qualidade de vida, como a Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP), os especialistas alertam para a importância de não ignorar alterações persistentes. O mais importante é agir atempadamente e procurar acompanhamento médico perante sintomas que persistem ou interferem com a qualidade de vida.

Quando identificado precocemente, o Cancro da Próstata apresenta taxas de sobrevivência muito elevadas, reforçando a importância do acompanhamento regular e da valorização dos sinais de alerta.

“A ideia de que os homens evitam ir ao médico por desleixo não corresponde totalmente à realidade. Muitas vezes existe medo, vergonha ou dificuldade em reconhecer que determinados sintomas justificam avaliação médica. O maior desafio que enfrentamos no consultório é o timing. Recebemos demasiados doentes que atrasaram a avaliação por acreditarem que a ausência de dor significava ausência de doença. O toque retal (palpação da próstata para detetar a existência de nódulos ou áreas irregulares, com consistência dura) e a análise do PSA (antígeno específico da próstata) são dois exames essenciais para a avaliação clínica. O diagnóstico precoce continua a ser o fator mais importante para melhorar o prognóstico: quanto mais cedo houver avaliação, maiores serão as opções terapêuticas e menor o impacto na qualidade de vida”, explica Dr. José Santos Dias, médico urologista e Diretor Clínico do Instituto da Próstata.

Também a Associação Portuguesa dos Doentes da Próstata (APDP) tem alertado para a necessidade de combater o estigma associado às doenças da próstata. José Graça, Vice-Presidente da APDP, defende a urgência de normalizar o diálogo: “O cancro da próstata tem hoje uma taxa de sobrevivência elevada quando diagnosticado precocemente. No entanto, muitos homens evitam procurar ajuda médica por receio de falar sobre sintomas urológicos, tais como a incontinência urinária, e pela possível alteração da função sexual. Precisamos de promover uma literacia em saúde mais robusta e diminuir o estigma que existe em relação à doença. Ir ao urologista não é um sinal de vulnerabilidade; é um ato de responsabilidade. Não podemos deixar para depois a consulta que nos pode salvar a vida”.

 

Quebrar o silêncio sobre a saúde da próstata

Com o objetivo de contribuir para uma conversa mais aberta e informada sobre saúde masculina, a plataforma digital prostata-hbp.pt, promovida pela Recordati Portugal, disponibiliza conteúdos claros e acessíveis sobre as patologias da próstata, sintomas urinários e sinais de alerta. A ferramenta ajuda a clarificar mitos e a preparar a conversa com o médico assistente, incentivando os homens a procurarem acompanhamento sem receio ou constrangimento.

 

Prevenir e acompanhar a saúde da próstata deve deixar de ser um tabu partilhado em silêncio. No Cancro da Próstata, a literacia em saúde assume-se como o primeiro passo para que “a consulta que ficou para depois” passe a ser a prioridade de hoje e possa fazer toda a diferença no momento do diagnóstico.

 

Referências:

  1. Harris E. Prostate Cancer Cases Might Rise to 3 Million Globally by 2040. 2024;331(20):1698.
  2. International Agency for Research on Cancer (IARC). Global Cancer Observatory: Cancer Today – Prostate cancer, Worldwide, 2022. Lyon: IARC, WHO.
  3. International Agency for Research on Cancer. Global Cancer Observatory: Portugal Fact Sheet (GLOBOCAN 2022). Lyon: IARC.
  4. Liga Portuguesa Contra o Cancro / Prevalência. Dados epidemiológicos do Cancro da Próstata em Portugal. Disponível em: https://www.ligacontracancro.pt/novembroazul/
  5. Pan S, et al. Effects of stigma, anxiety and depression, and uncertainty in illness on quality of life in patients with prostate cancer: a cross-sectional analysis. BMC Psychol. 2023 Apr 25;11(1):129.
  6. Larkin D, et al. (2022). A systematic review of disease related stigmatization in patients living with prostate cancer. PLoS One, 17, e0261557.
  7. Instituto da Próstata. Sintomas urinários obstrutivos e irritativos / Patologia Prostática. Disponível em: https://www.institutodaprostata.com/pt/problemas/cancro-da-prostata

 

 

Fonte: 
Tinkle
Nota: 
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