Especialistas defendem regras europeias de segurança alimentar para setor que poderá valer €3,26 mil milhões em 2033

Visto como alternativas mais sustentáveis e com menor impacto ambiental na sua produção, o mercado europeu para alimentos à base de insetos poderá crescer de 192,7 milhões de dólares em 2025 para 3,72 mil milhões de dólares em 2033 (cerca de 3,26 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual). Contudo, alertam investigadores portugueses na revista científica Foods, é necessário desenvolverem-se critérios específicos para avaliar contaminantes como metais pesados, resíduos de pesticidas, medicamentos veterinários, poluentes orgânicos persistentes e micotoxinas em alimentos à base de insetos.
De acordo com os autores do Instituto Universitário de Ciências da Saúde (IUCS) da CESPU e da empresa Tecmafoods, apesar da rápida evolução prevista neste setor, os critérios utilizados pela regulamentação europeia para avaliar esta nova geração de alimentos continuam a basear-se na abordagem aplicada a outras categorias alimentares, como carne, peixe ou ovos.
“Um dos aspetos a considerar nos alimentos à base de insetos é poderem espoletar reações alérgicas num número reduzido de consumidores com alergias conhecidas a marisco ou a ácaros, necessitando da devida identificação no rótulo”, alerta Joana Prata, professora auxiliar no IUCS-CESPU e membro integrado do 1H-TOXRUN-UCIBIO.
Esta revisão científica, publicada em junho na revista Foods, analisou 72 estudos sobre contaminantes químicos, riscos microbiológicos e potencial alergénico associados aos alimentos à base de insetos. E concluiu que os níveis de contaminantes químicos, como metais pesados, pesticidas ou micotoxinas, são geralmente baixos e situam-se dentro da gama observada noutros alimentos de origem animal quando a produção decorre sob condições controladas.
Segundo os investigadores, a segurança destes produtos depende sobretudo do controlo da cadeia de produção. A qualidade dos substratos utilizados na alimentação dos insetos é apontada como um fator determinante para prevenir contaminantes químicos, enquanto as boas práticas de higiene, processamento e armazenamento são essenciais para reduzir riscos microbiológicos.
A Tecmafoods salienta: "Este estudo confirma aquilo que orienta o nosso trabalho diário: a segurança dos alimentos à base de insetos decide-se no controlo da cadeia de produção, desde a qualidade do substrato até às práticas de processamento. É também por isso que defendemos um quadro regulatório próprio para este setor, capaz de proteger o consumidor sem travar a inovação."
Na União Europeia, os insetos destinados ao consumo humano são classificados como novel foods e só podem ser comercializados após avaliação científica pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e autorização pela Comissão Europeia. Apesar de existirem 2205 espécies de insetos que são consumidos em todo o mundo, apenas quatro espécies (gafanhoto migratório, grilo doméstico, larva da farinha amarela e larva da farinha menor) são autorizadas para consumo humano na Europa.
“Os alimentos à base de insetos têm um modo de produção sustentável e podem contribuir para diversificar as fontes de proteína disponíveis no futuro. A legislação europeia já permite a sua comercialização para consumo humano, mas muitos dos critérios de segurança continuam a basear-se em limites definidos para outras categorias alimentares. À medida que este mercado se expande, é importante uma abordagem regulatória capaz de proteger os consumidores, apoiar a inovação e reforçar a confiança em novos ingredientes alimentares”, conclui outra das autoras do estudo, Sara Silva, também membro da unidade de investigação 1H-TOXRUN-UCIBIO do IUCS-CESPU.
