Doentes com asma grave esperam por um acesso que não chega

Os números falam por si: cerca de quatro em cada dez pessoas com asma grave são admitidas anualmente num hospital devido a um ataque de asma, resultado de uma doença que está longe de ser apenas respiratória. "Estamos a falar de um problema que limita substancialmente a qualidade de vida, que dificulta a realização de tarefas quotidianas, que se traduz num cansaço extremo e fadiga e que, nos casos mais graves, apresenta mesmo um risco de morte associado", refere Ana Gonçalves, presidente da AAG. Apesar de medicados, estes doentes continuam a ter queixas, a enfrentar crises que se sucedem e agudizações que continuam a acontecer.
É aqui que as terapêuticas biológicas fazem a diferença: reduzem as agudizações, controlam as exacerbações e são medicamentos seguros, com eficácia comprovada. A estes benefícios junta-se a sua capacidade de reduzir, ou mesmo eliminar, a necessidade de corticoterapia oral prolongada, um dado relevante, dado que a cortisona, usada durante anos para controlar a asma grave, tem efeitos secundários sérios e bem documentados: osteoporose, diabetes, hipertensão, cataratas, supressão do sistema imunitário, entre outros.
O uso prolongado não é inócuo, e os riscos acumulam-se, razão pela qual a Iniciativa Global para a Asma (GINA) recomenda que a manutenção com corticosteroides orais seja utilizada apenas como último recurso, após todas as outras terapêuticas, incluindo os biológicos, terem sido tentadas ou não estarem disponíveis.
"As terapêuticas biológicas são, hoje, a melhor forma de evitar esses tratamentos prolongados, protegendo o doente não apenas da asma, mas também das consequências da medicação que usa para a controlar", reforça Ana Carvalho Gonçalves. "A manutenção do tratamento ao longo do tempo é também fundamental para alcançar um controlo sustentado da doença e, em alguns casos, até mesmo a remissão."
Apesar da evidência, os doentes com asma grave foram excluídos do regime excecional de comparticipação das terapêuticas biológicas, o mecanismo que lhes permitiria aceder a esta medicação fora do SNS, recorrendo ao setor privado. Ficam assim dependentes do sistema público, onde as esperas por uma consulta de imunoalergologia vão muito além dos 120 dias recomendados. Em algumas unidades, os doentes aguardam mais de quatro vezes esse prazo: na ULS Alentejo Central, a espera chega aos 544 dias; na ULS Braga, aos 476 dias.
Neste Dia Mundial da Asma, a AAG reafirma o que tem defendido de forma consistente: "os doentes com asma grave merecem acesso equitativo às terapêuticas que a ciência já provou serem eficazes. Continuar a excluí-los do regime excecional de comparticipação não é apenas uma injustiça, mas uma decisão com custos humanos e sociais reais, que se traduz em internamentos evitáveis, em qualidade de vida perdida e em riscos desnecessários para a saúde de quem já enfrenta, todos os dias, uma doença exigente".
