Criada tecnologia inovadora para diagnósticos e tratamentos do cancro mais precisos

Ao identificar moléculas de açúcar associadas a tumores com uma precisão sem precedentes, a invenção abre novas possibilidades para diagnósticos mais seletivos e terapias contra o cancro. Por este trabalho, Paula Videira e a sua equipa foram selecionadas como finalistas na categoria “Research” (Investigação) do Prémio Inventor Europeu 2026 por um júri independente.
Distinguir células tumorais de tecido saudável
O cancro continua a ser um dos mais graves desafios de saúde pública na Europa. Segundo a Comissão Europeia, registou cerca de 2,7 milhões de novos casos de cancro em 2024, sendo esta a segunda principal causa de morte em geral e a principal causa de morte em pessoas com menos de 65 anos.
Uma das principais dificuldades no diagnóstico e tratamento do cancro é a identificação de características moleculares que distingam claramente as células tumorais do tecido saudável. As células cancerígenas apresentam frequentemente moléculas de açúcar alteradas, conhecidas como glicanos, na sua superfície. Embora estes glicanos possam atuar como marcadores de doença, estruturas semelhantes podem também estar presentes em células normais, tornando extremamente difícil uma atuação seletiva sem afetar o tecido saudável.
A equipa de Videira respondeu a este desafio com o desenvolvimento do L2A5, um anticorpo que reconhece glicanos associados a tumores numa configuração específica que está exposta nas células cancerígenas, mas ausente ou inacessível no tecido saudável. Esta seletividade molecular permite que o anticorpo se ligue às células malignas, preservando as células saudáveis, alcançando um nível de precisão que abordagens anteriores não conseguiam atingir.
“Não houve um momento ‘eureka’. Foi um processo cumulativo. Cada experiência reforçava a nossa confiança. No entanto, quando observámos o nosso anticorpo a ligar-se ao tecido tumoral, mas não ao tecido saudável, percebemos o potencial terapêutico da nossa invenção,” afirma Paula Videira.
Sustentar a investigação oncológica a longo prazo
A investigação que levou ao L2A5 resultou de um trabalho académico de longo prazo na área da glicobiologia associada ao cancro, conhecida pela sua complexidade e dificuldade na translação desse conhecimento. O progresso exigiu anos de experimentação, aperfeiçoamento e validação, frequentemente com resultados incertos.
Apesar destes desafios, a equipa de Paula Videira persistiu, combinando investigação fundamental com uma visão clara de aplicação médica e estabelecendo parcerias com a Universidade NOVA de Lisboa, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO) e o Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf. O resultado é um anticorpo patenteado com elevado potencial para utilização no diagnóstico do cancro e como base para terapias direcionadas, incluindo conjugados anticorpo-fármaco.
“A nossa história não poderia vir de uma única área disciplinar. Na investigação, por vezes surgem dúvidas, mas quando partilhamos ideias, a energia torna-se coletiva. Fomos avançando juntos”, afirma Paula Videira. “Equipas fortes constroem-se não só com pessoas, mas também com instituições, e ter acesso ao ambiente certo fez toda a diferença.
Paula Videira e a sua equipa são uma das três finalistas na categoria “Research” (Investigação) do Prémio Inventor Europeu 2026. Os outros finalistas da presente categoria são Mikko Möttönen, por um bolómetro criogénico ultrassensível para monitorizar sistemas quânticos, e Adrian Hill, pela vacina R21/MatrixM contra a malária. A Organização Europeia de Patentes (OEP) anunciará os vencedores numa cerimónia transmitida em direto a partir de Berlim, a 2 de julho de 2026.
Além das categorias principais, o Prémio do Público será atribuído com base numa votação combinada entre o público e um júri independente. A votação pública abre hoje, 12 de maio de 2026, e decorre até à cerimónia de 2 de julho de 2026.
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