Como o stress do dia a dia pode estar a danificar os dentes (literalmente) enquanto dorme

O stress, a ansiedade e a tensão emocional são fatores que contribuem para o aumento dos episódios de bruxismo. De acordo com o Barómetro da Saúde Oral 2025, promovido pela Ordem dos Médicos Dentistas, veio revelar outra face deste problema: mais de metade dos portugueses (53,8%) não recorre ao médico dentista por não sentir necessidade, e 26% limitam-se a consultas de urgência, o que significa que problemas como o bruxismo — que se desenvolvem de forma silenciosa — passam frequentemente despercebidos até se tornarem graves. Uma contração involuntária dos maxilares pode evoluir para desgaste acelerado dos dentes, dores musculares, cefaleias e alterações na articulação temporomandibular.
Durante a noite, o bruxismo manifesta-se sem que a pessoa tenha consciência disso. Muitas vezes, só é detetado quando alguém comenta o ruído ou quando os sintomas se tornam evidentes. O desgaste dos dentes, a sensibilidade aumentada ou a sensação de rigidez ao acordar são sinais frequentes, mas facilmente atribuídos ao cansaço, o que atrasa o diagnóstico. A investigação científica, como o estudo publicado no Journal of Oral Rehabilitation em 2024, mostra ainda que estes episódios estão associados a microdespertares — pequenas interrupções do sono que fragmentam o descanso e contribuem para cansaço diurno, irritabilidade e menor capacidade de concentração.
Embora existam outros elementos associados ao bruxismo — como alterações na mordida, consumo de cafeína, álcool ou tabaco e distúrbios do sono —, o stress continua a ser o fator mais determinante. A tensão acumulada ao longo do dia pode traduzir-se, durante a noite, em contrações repetidas dos músculos da face. Este esforço contínuo provoca microtraumas nos dentes e nas estruturas que os suportam, com impacto direto na saúde oral e no bem-estar geral.
Com o passar do tempo, o bruxismo deixa marcas evidentes. O desgaste dentário, a sensibilidade aumentada, as dores de cabeça matinais, a tensão no maxilar, os estalos na articulação temporomandibular e a dificuldade em abrir bem a boca são sinais que surgem de forma progressiva e que muitos pacientes acabam por ignorar. A força exercida durante o ranger pode ultrapassar várias dezenas de quilos, o que aumenta o risco de fraturas dentárias, inflamação gengival, dores musculares e alterações na articulação temporomandibular. Em fases mais avançadas, pode comprometer a integridade dos dentes e exigir tratamentos complexos. Tal como outras condições inflamatórias da boca, o bruxismo não se limita à cavidade oral e pode influenciar o equilíbrio geral do organismo.
Nuno Cintra, Diretor Clínico da OralMED Saúde, alerta para a importância de não ignorar os primeiros sinais: “o bruxismo é uma das poucas condições orais que pode destruir dentes saudáveis sem dor. Quando o paciente sente desconforto, muitas vezes já perdeu estrutura dentária que não volta a recuperar.” O especialista reforça que a utilização de goteiras de proteção personalizadas, aliada ao controlo do stress e a uma avaliação clínica regular, continua a ser a forma mais eficaz de travar a progressão da condição.
Esta abordagem assume particular relevância num contexto em que, segundo o Barómetro da Saúde Oral 2025, 64,6% dos portugueses já não têm dentição completa, e em que barreiras como o desconhecimento sobre o acesso aos cuidados (70,3% desconhecem consultas no SNS) e constrangimentos económicos (22,2%) dificultam a procura de ajuda precoce.
Reconhecer que o bruxismo não é apenas um hábito involuntário, mas uma resposta direta ao ritmo de vida atual — marcado pelo teletrabalho, pela ansiedade digital e por níveis crescentes de burnout —, é essencial para prevenir complicações. Identificar os sinais precocemente e procurar acompanhamento profissional permite proteger os dentes e garantir que o impacto do stress diário não se prolonga para além da almofada.
