Cem casos em seis meses
Bactéria que só infetava animais está a transmitir-se entre humanos
Quarta, 1 Julho, 2026 - 13:29
A 17 de junho de 2026, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) publicou uma avaliação de risco sobre agregados de casos de dermatofilose em vários países europeus. Trata-se de uma infeção cutânea causada por Dermatophilus congolensis, uma bactéria bem conhecida em medicina veterinária mas que, em mais de seis décadas de literatura médica, tinha acumulado menos de 50 casos humanos em todo o mundo. Entre dezembro de 2025 e junho de 2026, foram notificados cerca de 100 casos em seis países europeus e a maioria não tinha tido qualquer contacto com animais.

A evidência recolhida pelo ECDC aponta para transmissão de pessoa a pessoa por contacto próximo, nomeadamente sexual. A sequenciação genómica de isolados de doentes franceses e espanhóis revelou estirpes praticamente indistinguíveis entre si e geneticamente muito afastadas de qualquer estirpe animal conhecida. Os dados sugerem ainda que o agente em circulação pode representar um táxon novo dentro do género Dermatophilus, uma questão ainda em aberto que aguarda caracterização formal.
Margarida Tavares, investigadora do ISPUP e especialista em doenças infeciosas e saúde pública, analisa o surto e o que ele revela sobre um padrão recorrente: a emergência de agentes zoonóticos ou ambientais em redes sexuais.
Uma doença de animais que encontrou um novo hospedeiro
A dermatofilose é, historicamente, uma doença de bovinos, ovinos e equinos. O seu agente — Dermatophilus congolensis — produz zoosporos móveis libertados em condições de elevada humidade, que constituem a forma infetante. Esta dependência da humidade explica a associação clássica a climas tropicais e a épocas de chuva, e poderá também explicar a persistência do agente em ambientes como saunas, contexto mais frequente nos surtos atuais.
Em humanos, os casos históricos ocorriam quase sempre por contacto direto com animais: pastores durante a tosquia, veterinários, cavaleiros. Nunca tinha sido documentada transmissão entre humanos. A emergência dos agregados europeus de 2025-2026 representa, por isso, uma rutura com o padrão epidemiológico conhecido.
Como se manifesta e como se trata
Nos surtos europeus, a manifestação da doença tem sido relativamente uniforme: pápulas eritematosas que evoluem para pústulas ou lesões escamosas e crostosas, com prurido ligeiro a moderado, localizadas sobretudo em áreas expostas durante o contacto sexual, ou seja, região genital, púbica e perianal, face, tronco e membros. O período de incubação é de cerca de seis dias.
As lesões podem ser confundidas com foliculite bacteriana, herpes genital ou mpox, o que contribui para atrasos no diagnóstico. A confirmação exige cultura microbiológica com incubação a 37°C, um detalhe técnico crítico, porque os protocolos habituais para infeções fúngicas utilizam temperaturas inferiores, que podem gerar falsos negativos. A identificação por MALDI-TOF pode igualmente falhar se o perfil da bactéria não constar das bases de dados do laboratório.
A boa notícia é que a doença responde bem a ciclos curtos de antibióticos orais, com recuperação completa na grande maioria dos casos. A ciprofloxacina mostrou-se insuficiente; a mupirocina tópica não é recomendada. Não é necessário isolamento estrito, mas a atividade sexual deve ser suspensa até resolução completa das lesões.
Um padrão que se repete e o que a mpox nos ensinou
D. congolensis não é o primeiro agente inesperado a encontrar um nicho de transmissão em redes sexuais. O mesmo padrão repetiu-se nos últimos anos com Trichophyton mentagrophytes, Klebsiella aerogenes e de forma mais marcante com a mpox em 2022. O denominador comum não é o agente mas sim estrutura das redes sexuais envolvidas: altamente conectadas, com alcance internacional através de festivais, saunas e eventos de grande concentração social.
Os agregados de dermatofilose de 2025-2026 emergiram nos meses que antecedem a época alta dos eventos Pride europeus, uma coincidência que representa simultaneamente um fator de risco para amplificação e uma janela para comunicação de saúde dirigida às populações mais expostas.
A investigadora do ISPUP, Margarida Tavares, foi diretora do Programa Nacional para as IST e Infeção VIH durante o surto de mpox de 2022 e coordenou a resposta portuguesa. A experiência deixou uma lição clara: o fator decisivo não é a resposta montada de raiz a cada surto, mas a prontidão comunitária construída e mantida entre surtos. Em Portugal, a Coorte de Lisboa dos Homens que têm Sexo com Homens, do ISPUP, em parceria com o CheckpointLX/GAT desde 2011, é um exemplo concreto deste tipo de infraestrutura, mobilizada também durante a mpox e disponível para a monitorização contínua da dinâmica de infeção nesta população.
As recomendações do ECDC para a dermatofilose seguem os mesmos princípios aprendidos com a mpox: mensagens centradas no comportamento e não na identidade, colaboração estreita com organizações comunitárias e a época Pride como oportunidade de comunicação dirigida.
O que ainda não se sabe e o que fazer perante lesões suspeitas
A transmissão entre humanos não está completamente caracterizada, faltam dados sobre o período de incubação em diferentes contextos, sobre infeção assintomática e sobre gravidade em pessoas imunocomprometidas. A Tailândia surge de forma recorrente como contexto de exposição, tanto na literatura histórica como nos surtos atuais, o que levanta a questão de saber se o país representa um reservatório endémico para este agente.
Perante pápulas, pústulas ou lesões escamosas e pruriginosas após contacto sexual próximo, especialmente em saunas, a recomendação é procurar avaliação clínica e evitar atividade sexual até resolução completa. O preservativo não protege especificamente contra a dermatofilose, que se transmite por contacto com pele lesionada fora das áreas por ele cobertas. Quem tiver tido contacto sexual recente com um caso diagnosticado deve vigiar o aparecimento de lesões durante os 14 dias seguintes. Na grande maioria dos casos, trata-se de uma infeção tratável e de bom prognóstico, desde que reconhecida.
Fonte:
Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP)
Nota:
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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