Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais

Acesso a Cuidados de Saúde 2025 carateriza as escolhas feitas pelos cidadãos desde o momento em que sentem a possibilidade de doença, identificando barreiras no acesso a cuidados de saúde e discutindo as implicações para a equidade e eficiência do sistema de saúde.
Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais analisa a forma como os residentes em Portugal gerem, no quotidiano, episódios de doença através do recurso à automedicação. Com base em dados provenientes de um inquérito inédito, o relatório examina quando, como e por que motivos os indivíduos recorrem a esta prática, que informação sustenta essas decisões e em que circunstâncias a automedicação é percecionada como eficaz.
Os investigadores da Nova SBE Pedro Pita Barros (detentor da Cátedra BPI | Fundação ‘la Caixa’ em Economia da Saúde, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação ‘la Caixa’, o BPI e a Nova SBE) e Carolina Santos são os autores de ambos dos relatórios.
Acesso a Cuidados de Saúde 2025
Em 2025, as barreiras no acesso a cuidados de saúde em Portugal continuam a situar-se acima dos níveis pré-pandémicos, com um impacto particularmente acentuado nas populações socioeconomicamente mais vulneráveis.
A investigação parte da análise dos episódios de doença e revela que, em 2025, 45,5% dos inquiridos reportaram ter tido pelo menos um episódio de doença (um aumento de 3,2 pontos percentuais face a 2023, aproximando-se do máximo registado em 2015 - 46,3%). Embora a probabilidade de ocorrência de episódios de doença aumente com a idade, no período em análise observou-se uma atenuação do gradiente etário provocada por um aumento significativo da incidência de episódios de doença entre os grupos mais jovens (em particular no grupo 15 e os 29 anos, onde a proporção de indivíduos que se sentiram doentes subiu para 36,7%, mais 11,4 pontos percentuais do que em 2023). Este agravamento foi especialmente significativo entre mulheres em situação socioeconómica mais desfavorável.
Paralelamente, mantém-se um forte gradiente socioeconómico na ocorrência de episódios de doença com 67% dos indivíduos do escalão económico mais desfavorecido (vs 39% entre os escalões mais favorecidos) a reportarem ter sofrido um episódio de doença.
Em 2025 a percentagem de indivíduos que ao sentirem-se doentes não recorreram a ajuda profissional no sistema de saúde, aumentou, passando de 11,26% em 2023 para 14,26% em 2025. Entre os indivíduos que, ao sentirem-se doentes, optam por não recorrer a auxílio profissional, 76,4% optaram pela automedicação (sobretudo com base em experiências anteriores com problemas de saúde semelhantes) e cerca de 23,6% preferiram aguardar pela melhoria dos sintomas. A decisão de não procurar cuidados de saúde é maioritariamente justificada pela perceção de baixa gravidade do problema, mantendo-se também os tempos de espera como uma das razões mais frequentemente apontadas (à semelhança do observado em 2023). De entre a população que recorre a serviços de saúde, os indivíduos com 65 ou mais anos são o grupo que apresenta uma maior probabilidade de recorrer ao sistema de saúde (refletindo uma maior perceção de risco de problema sério) e, à semelhança de anos anteriores, a ocorrência de problemas inesperados mantém-se como o principal motivo que leva à procura de cuidados de saúde.
As barreiras financeiras continuam a constituir o principal entrave ao acesso a cuidados de saúde em Portugal, com um acentuado gradiente socioeconómico, particularmente no acesso à medicação. Os indivíduos em situação de maior privação económica apresentam uma probabilidade significativamente superior de não adquirir toda a medicação necessária ao tratamento de um episódio de doença. Este diferencial agravou-se nos últimos anos: enquanto em 2023 a diferença face aos escalões socioeconómicos mais favorecidos era de 40 pontos percentuais, em 2025 aumentou para 51 pontos percentuais.
Os indivíduos dos escalões socioeconómicos mais baixos apresentam também maior probabilidade de não recorrer a consultas ou serviços de urgência por motivos financeiros. Ainda que este gradiente tenha diminuído entre 2023 e 2025 (passando de 21 para 11 pontos percentuais), a existência de barreiras financeiras no acesso a cuidados de saúde sugere que as barreiras financeiras vão além das taxas moderadoras, cuja eliminação progressiva não foi suficiente para eliminar estas desigualdades.
Os resultados mostram ainda que os medicamentos prescritos continuam a representar a principal rubrica de despesa suportada pelos cidadãos, na sequência de uma ida aos cuidados de saúde primários do SNS ou de um serviço de urgência do SNS, e mais de metade dos indivíduos em situação de maior privação económica reportaram não conseguir adquirir toda a medicação necessária, evidenciando que as necessidades de saúde não satisfeitas continuam a estar fortemente associadas a barreiras financeiras persistentes.
No que respeita às barreiras não financeiras, entre 2023 e 2025 registou-se um aumento significativo da probabilidade de cancelamento de consultas e exames por iniciativa do prestador. Em 2025, verifica-se um acentuado gradiente socioeconómico nos cancelamentos de consultas e exames com a probabilidade a variar entre 2,65% nos escalões socioeconómicos mais favorecidos e 19,76% no escalão mais desfavorecido. Este padrão não deverá, contudo, ser interpretado como discriminação ativa do SNS, uma vez que poderá resultar, por exemplo, de desigualdades territoriais na disponibilidade de recursos humanos em saúde’, referem os investigadores.
No que respeita à utilização dos serviços de saúde, entre 2022 e 2025 registou-se uma diminuição da probabilidade de recorrer exclusivamente ao SNS: embora este continue a ser a principal resposta para a larga maioria da população, o recurso exclusivo ao SNS passou de 88% em 2023 para 82% em 2025.
Os cuidados de saúde primários continuam a ser os mais procurados no SNS, sendo de destacar o aumento significativo da utilização da linha SNS 24 resultante do programa “Ligue antes, salve vidas” que não só ajudou a reduzir a procura por urgências no SNS como não provocou um aumento das idas às urgências privadas, tendo incrementado o recurso aos cuidados primários do SNS e a consultas no setor privado.
Este padrão é consistente com os dados aferidos que mostram que 34,40% dos inquiridos já recorreram à linha SNS 24 em algum momento para aconselhamento ou orientação em saúde: menos de metade (47,87%) foi encaminhada para um serviço de urgência hospitalar do SNS, 23,36% foram direcionados para os cuidados de saúde primários do SNS e 23,34% receberam indicação para permanecer em casa e monitorizar os sintomas. Importa ainda salientar o elevado grau de adesão às recomendações fornecidas - 96,9% dos indivíduos encaminhados para as urgências hospitalares efetivamente recorreram a este serviço e 83,58% dos que foram encaminhados para cuidados de saúde primários deslocaram-se à unidade indicada. Em termos de satisfação, a linha SNS 24 apresenta uma avaliação globalmente positiva (61,9% dos utilizadores referem estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a orientação recebida). Adicionalmente, a probabilidade de recorrer à linha SNS 24 antes de uma ida às urgências, numa situação futura, é mais elevada entre indivíduos pertencentes a classes económicas mais favorecidas, com níveis de escolaridade mais elevados e entre as mulheres, sugerindo desigualdades sociais no padrão de utilização deste serviço.
O relatório evidencia ainda desafios estruturais persistentes. A cobertura por médico de família no SNS diminuiu de forma significativa, passando de 91% em 2019 para 79% em 2025, com desigualdades claras em função da condição socioeconómica e da região de residência. A escassez de médicos de família afeta de forma mais pronunciada os indivíduos pertencentes a escalões socioeconómicos mais desfavorecidos, bem como os residentes no Algarve, na Grande Lisboa e no Centro Litoral. Esta realidade tem contribuído para um maior recurso a soluções no setor privado: em 2025, a probabilidade de um indivíduo ter médico de família no setor privado ascendia a 14,79%, mesmo após controlo pelas características socioeconómicas da população e pela cobertura no SNS. Perante um episódio de doença, os indivíduos com médico de família no privado apresentam uma maior probabilidade de recorrer exclusivamente a cuidados de saúde nesse setor, influenciando de forma estrutural os padrões de acesso e utilização dos cuidados de saúde.
Por último, a análise da perceção de cuidados prestados com dignidade, compaixão e respeito revela melhorias significativas na população com 80 ou mais anos. Em 2025, a probabilidade deste grupo etário reportar uma experiência positiva ascendeu a 85%, o que representa um aumento de 15 pontos percentuais face a 2023. Ainda assim, em termos globais, os níveis de satisfação com a humanização dos cuidados de saúde permanecem abaixo dos registados nos períodos pré-pandémico e pandémico.
Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais
Mais de metade dos portugueses já recorreu à automedicação: prática é frequente, muitas vezes eficaz, mas revela desigualdades no acesso aos cuidados de saúde
Mais de metade da população residente em Portugal continental (51,85%) já recorreu à automedicação em algum momento da sua vida. O estudo – baseado num inquérito realizado em dezembro de 2022 junto de 1.066 indivíduos com 15 ou mais anos – revela que a automedicação é uma prática generalizada, frequentemente eficaz em situações de menor gravidade, mas também marcada por desigualdades socioeconómicas e por potenciais riscos quando utilizada como substituto de cuidados de saúde formais.
Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais distingue-se por adotar um horizonte temporal alargado, captando não apenas a automedicação recente, mas também experiências passadas, e por incluir tanto medicamentos não sujeitos a receita médica como medicamentos sujeitos a receita médica utilizados sem consulta médica, muitas vezes provenientes da chamada “farmácia caseira”. Esta abordagem permite um retrato mais completo do fenómeno e evidencia uma prevalência de automedicação superior à habitualmente identificada em inquéritos de curto prazo.
Automedicação é comum e, em muitos casos, eficaz
Entre os indivíduos que se automedicaram, cerca de sete em cada dez (68,85%) referiram que, na experiência mais recente, o problema de saúde ficou resolvido sem necessidade de recorrer posteriormente a cuidados de saúde profissionais. A automedicação é utilizada sobretudo para tratar sintomas de gripe ou constipação (53,05%) e dores de cabeça (21,12%), mas estende-se também a problemas mais sensíveis, como ansiedade, depressão, asma ou outras doenças crónicas, o que levanta preocupações acrescidas.
Apesar da taxa global de sucesso, o relatório mostra que níveis mais elevados de confiança na automedicação estão associados a menor probabilidade de sucesso, sugerindo que o excesso de confiança pode conduzir a decisões menos adequadas.
Jovens adultos, trabalhadores e pessoas com maior rendimento automedicam-se mais
A automedicação é mais prevalente entre os adultos jovens, em particular no grupo etário dos 25 aos 34 anos, onde 66,26% afirmaram já se ter automedicado. O fenómeno é também mais frequente entre indivíduos empregados ou trabalhadores por conta própria, que apresentam uma probabilidade 11,5 pontos percentuais superior de já terem recorrido à automedicação, refletindo o custo de oportunidade associado à procura de cuidados médicos formais.
Quando se considera em simultâneo a influência das várias características socioeconómicas, nem a condição económica do agregado familiar nem o nível de escolaridade surgem como determinantes significativos da probabilidade de automedicação ou da sua frequência.
Falta de médico de família está associada a maior recurso à automedicação
O acesso aos cuidados de saúde primários surge como um fator determinante. Entre as pessoas com experiência de automedicação, aquelas que têm médico de família atribuído apresentam uma probabilidade 15,3 pontos percentuais superior de se automedicarem raramente, e probabilidades 10,7 pontos percentuais e 4,6 pontos percentuais inferiores de se automedicarem algumas vezes e muitas vezes, respetivamente, face a quem não tem médico de família no SNS.
Farmácias desempenham papel central
Mesmo quando optam pela automedicação, a maioria dos indivíduos obtém os medicamentos na farmácia (59,2%), frequentemente com aconselhamento farmacêutico. Ainda assim, 38,2% recorrem a medicamentos que já tinham em casa e que resultam de sobras de tratamentos anteriores (uma prática que pode envolver medicamentos sujeitos a receita médica e aumentar o risco de utilização inadequada).
Comunicação com os médicos continua limitada
Um dado particularmente preocupante é que 63,08% dos indivíduos com médico de família e experiência de automedicação não informam o médico sobre essas práticas. A omissão é mais frequente entre pessoas com menor rendimento e entre indivíduos com níveis elevados de confiança na automedicação, precisamente os grupos em que o risco de uso inadequado pode ser maior.
Dois perfis distintos de automedicação
O relatório identifica dois grandes perfis comportamentais em Portugal. O primeiro, maioritário (56,75%), corresponde a uma automedicação pontual, baseada na experiência prévia e mais comum entre pessoas mais velhas, doentes crónicos e indivíduos com médico de família. O segundo perfil (43,25%) caracteriza-se por uma automedicação mais frequente, motivada sobretudo pela conveniência e pelo custo de oportunidade de recorrer ao sistema de saúde, sendo mais comum entre adultos jovens e profissionalmente ativos.
Implicações para políticas de saúde
Os resultados indicam que a automedicação pode ser uma ferramenta útil de autocuidado, contribuindo para aliviar a pressão sobre o sistema de saúde quando utilizada de forma informada e responsável. No entanto, quando resulta da falta de acesso a cuidados de saúde primários, pode agravar desigualdades e aumentar riscos para a saúde.
O relatório defende o reforço de estratégias que promovam uma automedicação segura, incluindo o fortalecimento do papel do farmacêutico, a melhoria do acesso aos cuidados de saúde primários e a valorização de recursos como a linha SNS 24. Destaca ainda a importância de promover uma comunicação mais aberta e não punitiva entre médicos e doentes sobre práticas de automedicação.
‘Em suma, a automedicação, quando praticada de forma informada e responsável, pode constituir uma componente relevante da autogestão da saúde, trazendo benefícios tanto para os indivíduos como para o sistema de saúde. Contudo, estes potenciais ganhos só se materializam plenamente se forem adotadas estratégias que promovam práticas seguras, garantam acesso equitativo a cuidados, reforcem a comunicação entre doentes e profissionais e respondam às necessidades específicas dos diferentes perfis comportamentais de automedicação existentes na população’ referem os investigadores.
