Sobreviver a um enfarte é só o primeiro passo

1 em cada 5 doentes sofre um novo evento cardiovascular no primeiro ano após o enfarte

Especialistas alertam que o risco residual após o enfarte existe e a intervenção precoce é determinante para reduzir incapacidade e morte. Proteger o coração é uma missão contínua.

Receber alta hospitalar após um enfarte do miocárdio é, para muitos doentes, sinónimo de alívio e de regresso à normalidade. No entanto, a ciência mostra que o perigo está longe de desaparecer: estima-se que 1 em cada 5 doentes sofre um novo evento cardiovascular logo no primeiro ano após o enfarte1, mesmo quando cumpre a terapêutica recomendada. Especialistas alertam que este risco residual, frequentemente subestimado, resulta de mecanismos inflamatórios e ateroscleróticos persistentes e que a intervenção precoce após o enfarte é determinante para reduzir incapacidade e morte.

Apesar dos avanços significativos na prevenção secundária, os doentes que sofreram um enfarte do miocárdio continuam expostos a um risco elevado de novos eventos cardiovasculares, incluindo novo enfarte, acidente vascular cerebral (AVC), angina instável ou necessidade de revascularização. A estabilização clínica obtida durante o internamento não significa que a doença esteja controlada a longo prazo. Pelo contrário, após a alta hospitalar inicia-se um período particularmente crítico, marcado por uma vulnerabilidade acrescida e muitas vezes subestimada.

Este risco persistente, conhecido como risco residual, resulta de mecanismos inflamatórios e ateroscleróticos que permanecem ativos apesar do controlo dos principais fatores de risco, como o colesterol LDL. Mesmo em doentes que cumprem rigorosamente a terapêutica recomendada, a inflamação vascular, a progressão da aterosclerose e a instabilidade da placa continuam a contribuir para a ocorrência de novos eventos cardiovasculares, representando uma das maiores necessidades clínicas não satisfeitas na prevenção cardiovascular. A estabilização clínica imediata não elimina esta vulnerabilidade persistente, que continua silenciosa, progressiva e frequentemente subestimada.

Nos últimos anos, os avanços na terapêutica de prevenção secundária, como o uso de estatinas e o controlo intensivo do colesterol LDL (“colesterol mau”), permitiram melhorar substancialmente a sobrevivência inicial após um enfarte. No entanto, esta estabilização clínica não significa que a ameaça futura tenha sido eliminada. Doentes com diabetes ou insuficiência renal permanecem particularmente vulneráveis, mas mesmo indivíduos sem estas comorbilidades enfrentam um risco significativo de morbilidade e mortalidade, com impacto profundo na qualidade de vida. Por isso, os especialistas defendem uma abordagem contínua, proativa e vigilante, que vá além da terapêutica de base e assegure um acompanhamento regular e rigoroso ao longo do tempo. Sobreviver a um enfarte é apenas o primeiro passo.

Segundo o Prof. João Morais, médico cardiologista e referência nacional e internacional, esta consciência é crucial para melhorar o prognóstico a longo prazo, sublinhando que a prevenção secundária deve ser encarada como uma missão contínua e que a informação pode salvar vidas. “Sobreviver a um enfarte é apenas o primeiro capítulo da história. O risco de incapacidade e de morte continua real, mesmo quando todos os parâmetros parecem controlados. Hoje sabemos que existe inflamação persistente e progressão da doença aterosclerótica que não são eliminadas pela terapêutica standard. Podemos reduzir significativamente esse risco se atuarmos cedo e de forma dirigida. Quanto mais cedo intervirmos, melhor será o prognóstico.”

O avanço do conhecimento científico sobre o risco residual ficou bem demonstrado no ensaio clínico internacional REDUCE-IT2 (Reduction of Cardiovascular Events with Icosapent Ethyl–Intervention Trial). Este estudo robusto, que envolveu mais de oito mil doentes com doença cardiovascular estabelecida ou diabetes, todos tratados com estatinas e com colesterol LDL controlado, demonstrou que a administração diária de 4 g de eicosapente de etilo, uma forma purificada do ácido gordo ómega-3, reduziu em 25% os eventos cardiovasculares major, comparativamente ao placebo2. O impacto clínico destes resultados traduz-se num número necessário para tratar (NNT) de apenas 21, o que significa que por cada 21 doentes tratados é possível evitar um evento cardiovascular, um dos maiores ganhos alguma vez observados em terapêutica adjuvante às estatinas na prevenção secundária.

Para além do benefício clínico direto, a redução de novos eventos cardiovasculares traduz-se também num impacto económico positivo a longo prazo, ao contribuir para evitar procedimentos invasivos e dispendiosos, como a intervenção coronária percutânea ou a cirurgia de revascularização do miocárdio. A diminuição de hospitalizações recorrentes, de incapacidade prolongada e de complicações associadas representa um ganho claro para o Sistema Nacional de Saúde e uma melhoria sustentada da qualidade de vida dos doentes.

As análises realizadas em doentes com enfarte do miocárdio prévio ou síndromes coronárias agudas recentes reforçam que o benefício observado no REDUCE-IT é consistente nestas populações de risco particularmente elevado1, 2, 3. Estes dados confirmam que o risco cardiovascular se mantém significativo após a alta hospitalar e que a otimização da prevenção secundária, incluindo intervenções dirigidas ao risco residual, pode reduzir de forma substancial a probabilidade de novos eventos ao longo do tempo.1, 2, 3 A evidência é clara: o enfarte não termina no hospital e existe uma janela crítica nos primeiros meses em que atuar de forma precoce e dirigida pode evitar incapacidade futura e salvar vidas.

A mensagem destinada aos doentes e à sociedade é inequívoca: sobreviver ao enfarte é apenas o primeiro passo. A alta hospitalar não significa que o risco terminou. Proteger o coração exige vigilância contínua, acompanhamento médico regular, adesão rigorosa à terapêutica instituída e uma participação ativa na gestão da saúde cardiovascular. Para os profissionais de saúde, este é o momento de reforçar que a prevenção secundária deve ir além do controlo lipídico e integrar estratégias específicas, com uma colaboração estreita entre a cardiologia e a medicina geral e familiar no acompanhamento do doente após o enfarte para reduzir o risco residual, abordando não só o colesterol, mas também os mecanismos persistentes de inflamação e progressão aterosclerótica.

“Para o sucesso de qualquer tratamento, é fundamental que o doente assuma também o seu papel, não só no tratamento do enfarte, mas sobretudo na prevenção de que se volte a repetir. Isto implica cumprir rigorosamente a medicação prescrita e adotar um estilo de vida saudável, que passa pelo abandono do tabaco, pela adoção de uma alimentação equilibrada, pela prática regular de atividade física e pelo controlo de fatores de risco como a diabetes, a pressão arterial e os níveis de colesterol. A comunicação clara dos objetivos terapêuticos, o envolvimento do doente no seu próprio plano de cuidados e a consciência de que o futuro depende, em grande medida, das escolhas feitas no dia a dia são determinantes para gerir o medo da recorrência e reduzir o risco de novos eventos cardiovasculares e de morte após o enfarte”, conclui o cardiologista.

 

Referências:

1 - Silva V, Vilela EM, Campos L, Miranda F, Torres S, João A, et al. Suboptimal control of cardiovascular risk factors in myocardial infarction survivors in a cardiac rehabilitation program. Rev Port Cardiol. 2021;40(12):911-920.

2 - Bhatt DL, Steg PG, Miller M, et al. Cardiovascular risk reduction with icosapent ethyl for hypertriglyceridemia=. N Engl J Med. 2019;380(1):11-22.

3 - Nicholls SJ, Lincoff AM. Icosapent ethyl following acute coronary syndrome: the REDUCE-IT trial. Eur Heart J. 2024;45(13):1173-1176.

 

Fonte: 
Tinkle
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
ShutterStock