Estudo

85% dos doentes reavaliados apresentam pressão arterial controlada três anos depois

A segunda fase do estudo GPHT-PT mostra que, três anos após o final do estudo original, 85% dos doentes reavaliados apresentavam a pressão arterial controlada. Os dados, apresentados no 20.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global, revelam ainda uma elevada persistência terapêutica, com 87,9% dos doentes a manterem uma terapêutica baseada na associação candesartan/amlodipina, e a ausência de eventos cardiovasculares reportados na amostra reavaliada.

A hipertensão arterial (HTA) continua a representar um importante desafio de saúde pública e um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Segundo o Global Report on Hypertension da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que cerca de 2,7 milhões de adultos entre os 30 e os 79 anos vivam com hipertensão em Portugal.(1)

Dados mais recentes, publicados em janeiro de 2026 no Journal of Hypertension, mostram que a mortalidade atribuível à HTA aumentou na Europa entre 2012 e 2021, persistindo disparidades significativas entre regiões e países.(2) O controlo da pressão arterial continua, de resto, a ser um desafio a nível internacional. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista JAMA concluiu que apenas 20,9% dos adultos com hipertensão analisados nos Estados Unidos apresentavam a pressão arterial controlada.(3) Este foi também um dos dados destacados pelo Prof. Jorge Polónia durante a apresentação dos resultados do GPHT-PT.(5)

É neste contexto que surgem os novos resultados do estudo português GPHT-PT, que mostram que é possível alcançar níveis elevados de controlo tensional e, sobretudo, mantê-los ao longo do tempo.

 

GPHT-PT: um estudo nacional com resultados que se mantêm ao longo do tempo

O estudo GPHT-PT (Guidelines-based therapeutic strategies for controlling hypertension in non-controlled hypertensive patients followed by family physicians in primary health care in Portugal), conduzido pelos médicos Jorge Polónia, professor catedrático de Medicina Interna da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e consultor sénior da Unidade de Hipertensão e Risco Cardiovascular do Hospital Pedro Hispano (Unidade Local de Saúde de Matosinhos), e Raul Marques Pereira, assistente graduado em Medicina Geral e Familiar e assistente convidado da Escola de Medicina da Universidade do Minho, avaliou, numa primeira fase, uma estratégia terapêutica baseada nas recomendações internacionais em doentes com HTA não controlada, seguidos em Medicina Geral e Familiar. (4)

Na primeira fase do estudo, 700 doentes com hipertensão não controlada foram tratados durante 12 semanas com uma associação fixa, num único comprimido, de candesartan/amlodipina.(4) Os resultados apresentados no 20.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global mostraram que esta estratégia permitiu alcançar taxas de controlo da pressão arterial entre 76% e 91% nos diferentes grupos de doentes.(5)

Três anos após o término do estudo original, os investigadores voltaram a avaliar uma amostra representativa de 132 doentes que tinham concluído o GPHT-PT, com o objetivo de perceber o estado do controlo da pressão arterial e a persistência na terapêutica ao longo do tempo.(5)

Os resultados desta segunda fase foram apresentados por Jorge Polónia e Raul Marques Pereira durante o 20.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global, numa sessão promovida pela Jaba Recordati.(5)

 

85% dos doentes apresentam pressão arterial controlada três anos depois

Os novos dados mostram que, três anos após o final do estudo, 85% dos doentes reavaliados apresentavam a pressão arterial controlada, com valores inferiores a 140/90 mmHg.(5) A análise apresentada pelos investigadores aponta ainda para uma evolução, na população desta amostra, da taxa de controlo de 62% para 85% aos três anos.(5) Estes resultados mostram que o controlo tensional alcançado através de uma estratégia estruturada e baseada nas recomendações internacionais pode manter-se a longo prazo em doentes acompanhados em contexto de Medicina Geral e Familiar.

“Na hipertensão arterial, o objetivo não é apenas conseguir controlar a pressão arterial num determinado momento, mas assegurar que esse controlo se mantém ao longo dos anos. Os resultados desta reavaliação mostram que é possível alcançar um controlo tensional elevado e sustentado no tempo, reforçando a importância de estratégias terapêuticas simples, do acompanhamento regular e da persistência no tratamento”, afirma o Prof. Jorge Polónia.

 

Quase nove em cada dez doentes mantiveram a terapêutica

A persistência terapêutica é outro dos resultados relevantes desta segunda fase. Ao fim de três anos, 87,9% dos doentes mantinham uma terapêutica baseada na associação candesartan/amlodipina e, em 81% dos casos, esta continuava a ser a única terapêutica anti-hipertensora utilizada.(5)

Apenas 7% dos doentes necessitaram de mudar para outro esquema terapêutico, enquanto outros 7% necessitaram de adicionar um terceiro fármaco à associação fixa.(5)

A reavaliação permitiu igualmente analisar a evolução clínica dos participantes. Durante este período, não foram registados eventos cardiovasculares na amostra reavaliada nem deterioração dos parâmetros bioquímicos, tendo sido observada uma ligeira melhoria da excreção urinária de albumina.(5)

“A simplificação do tratamento através de comprimidos únicos (single-pill), particularmente quando bem tolerados, é um aspeto particularmente relevante numa doença crónica como a hipertensão, em que a adesão do doente à terapêutica é determinante para a eficácia do tratamento que tem de ser mantida ao longo do tempo. A elevada persistência terapêutica observada três anos depois é, por isso, um dos dados importantes desta reavaliação e reforça a relevância de estratégias que sejam simultaneamente eficazes e simples de seguir na prática clínica”, acrescenta o Dr. Raul Marques Pereira.

 

Resultados refletem-se também na prática clínica

Paralelamente à reavaliação dos participantes no GPHT-PT, os investigadores analisaram a influência dos resultados do estudo nos hábitos de prescrição dos médicos envolvidos relativamente a outros novos doentes da sua prática clínica.

Nesta população, verificou-se que a associação candesartan/amlodipina se manteve como terapêutica de base em 70% dos casos, tendo sido observado controlo tensional em 64% dos doentes.(5)

Segundo os investigadores, os resultados do GPHT-PT reforçam a importância da implementação de estratégias terapêuticas alinhadas com as recomendações internacionais e da simplificação dos esquemas terapêuticos no acompanhamento de pessoas com hipertensão arterial.(5,6) A separata conclui que o cumprimento das recomendações com uma associação fixa em comprimido único permitiu alcançar um controlo da pressão arterial sustentado no tempo no contexto específico de doentes seguidos em Medicina Geral e Familiar.

 

Controlar a hipertensão para reduzir o risco cardiovascular

Frequentemente assintomática, a HTA pode permanecer durante anos sem ser detetada ou adequadamente controlada. Quando não controlada, está associada a um maior risco de complicações como enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e doença renal.

A abordagem da HTA passa pelo acompanhamento médico, pelo cumprimento da terapêutica prescrita e pela adoção de estilos de vida saudáveis. Entre as medidas recomendadas encontram-se a redução do consumo de sal, a prática regular de atividade física, a manutenção de um peso saudável, não fumar e evitar o consumo excessivo de álcool.(1,6)

 

Medir regularmente a pressão arterial, cumprir a terapêutica prescrita e manter consultas de vigilância são igualmente fundamentais para identificar precocemente a doença, manter a pressão arterial controlada ao longo do tempo e reduzir o risco cardiovascular associado.

 

Referências:

(1) World Health Organization. Global report on hypertension: the race against a silent killer. Geneva: World Health Organization; 2023.

(2) Zuin M, Mazza A, Maloberti A, Tognola C, Desideri G, Borghi C, Temporelli PL. Arterial hypertension-attributable mortality in Europe, 2012–2021. Journal of Hypertension. 2026;44(1):92–99. doi:10.1097/HJH.0000000000004148. Zuin et al 2026 Arterial hypert…

(3) Hardy ST et al. Blood Pressure Above Goal Among US Adults With Hypertension. JAMA. 2026 Feb 2:e2525657.

(4) Polónia J, Marques Pereira R. Guidelines-based therapeutic strategies for controlling hypertension in non-controlled hypertensive patients followed by family physicians in primary health care in Portugal: the GPHT-PT study. Blood Pressure. 2024;33(1):2345887.

(5) Polónia J, Marques Pereira R. Reavaliação de 3 anos do estudo GPHT-PT: O impacto da associação candesartan/amlodipina no controlo da HTA em Portugal. Separata do simpósio promovido pela Jaba Recordati no 20.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global. 2026. Ref. PT-NPS-0182.26. PT-NPS-0182.26_Separata Simp. J…

(6) Mancia G, Kreutz R, et al. 2023 ESH Guidelines for the management of arterial hypertension. The Task Force for the management of arterial hypertension of the European Society of Hypertension: Endorsed by the International Society of Hypertension (ISH) and the European Renal Association (ERA). Journal of Hypertension. 2023;41(12):1874–2071.

 

Fonte: 
Tinkle
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.