Afrontamentos e dor na menopausa: duas queixas que andam muitas vezes juntas

Todos os anos, a 18 de outubro, o Dia Mundial da Menopausa chama a atenção para um tema pouco valorizado na saúde da mulher. Em 2026, a Sociedade Internacional de Menopausa escolheu como tema a dor crónica na meia-idade. Na consulta, ouço com frequência mulheres que descrevem dores articulares, rigidez ao acordar, dores musculares difusas ou enxaquecas, rapidamente desvalorizadas e atribuídas ao envelhecimento. Muitas não sabem que algumas destas queixas podem estar relacionadas com a menopausa.
Os sintomas vasomotores, como afrontamentos e suores noturnos, afetam 40 a 80% das mulheres na menopausa e têm impacto negativo na sua qualidade de vida. Podem surgir anos antes da última menstruação e, em até 30% dos casos, persistir até uma década depois. Ainda assim, só 20 a 30% das mulheres sintomáticas procuram ajuda médica.
Estes sintomas associam-se à descida dos níveis de estrogénios, que altera o funcionamento de um grupo específico de neurónios do hipotálamo (os neurónios KNDy), na região do cérebro que regula a temperatura corporal. O corpo passa a reagir a variações mínimas como se estivesse em sobreaquecimento e ativa mecanismos de arrefecimento compensatório: calor súbito, rubor (vermelhidão da pele), transpiração e palpitações.
A mesma descida dos estrogénios afeta o aparelho musculoesquelético. Há muito que sabemos que estas hormonas são essenciais para a saúde do osso, do músculo e das articulações. As queixas musculoesqueléticas são frequentes na transição menopáusica, o que levou investigadores a propor o termo síndrome musculoesquelético da menopausa, que inclui dores articulares e perda de massa muscular e óssea.
Num grande ensaio aleatorizado, as mulheres tratadas com estrogénios tiveram menos dor articular do que as que receberam placebo, embora a diferença tenha sido modesta. Na mesma linha, nas mulheres tratadas para cancro da mama com inibidores da aromatase, que suprimem os estrogénios, as dores articulares são um efeito adverso frequente.
Afrontamentos e dor cruzam-se também no sono. Os suores noturnos fragmentam o descanso, e dormir mal aumenta a sensibilidade à dor. A dor, por sua vez, dificulta o sono e pode levar a reduzir a atividade física.
Estas queixas andam assim muitas vezes juntas. Num estudo com mais de 200 mil mulheres entre os 45 e os 64 anos, as que reportavam sintomas da menopausa tinham quase o dobro da probabilidade de ter dor crónica diagnosticada. Ainda não sabemos qual surge primeiro nem se uma causa a outra, mas esta sobreposição merece atenção na consulta.
Importa dizer que nem toda a dor nesta faixa etária se deve à menopausa. Cada caso exige uma avaliação personalizada e uma revisão detalhada das queixas, mas a menopausa deve fazer parte dessa avaliação.
O que fazer, então? Em primeiro lugar, procurar uma avaliação médica especializada que considere todos os sintomas, e não apenas os "ginecológicos". Registar a frequência dos afrontamentos, a qualidade do sono e as características da dor (padrão, intensidade, necessidade de analgesia) contribui para a avaliação clínica individualizada. Depois, saber que há tratamento. A terapêutica hormonal continua a ser a opção mais eficaz para os sintomas vasomotores nas mulheres elegíveis. Para quem não pode ou não deseja fazê-la, há hoje alternativas não hormonais, como o fezolinetant, que bloqueia o recetor da neurocinina 3 nos neurónios KNDy do hipotálamo e reduz a frequência e a intensidade dos afrontamentos. Esta escolha, naturalmente, deve ser discutida em consulta. O exercício regular, em particular o treino de força, e a terapia cognitivo-comportamental são também pilares importantes no plano terapêutico.
E lembre-se: tratar estes sintomas não é um capricho e deve ser uma prioridade.
Para quem procura informação adicional sobre os sintomas e os desafios da menopausa, o portal Menopausa Astellas (menopausa-astellas.pt) reúne conteúdos úteis que podem ajudar a preparar a conversa com o médico.
