Cuidados Paliativos, trocando por miúdos

Mais um dia chegou ao fim. Ambos tinham jantado aquela massa com frango que a avó Dores tinha feito e que tanto gostavam (e como era bom sentir aquele amor todo em cada garfada ou colherada, dependendo do que estava mais perto). Os pais já tinham chegado a casa, cansados de mais um dia de trabalho no hospital … encaixaram-se no seu abraço e seguiram para o andar de cima, para os seus quartos (não fosse amanhã mais um dia de escola). Rodrigo, já com 8 anos, assumira desde há dois verões atrás (uma vez que já sabia ler com alguma – muita - destreza) a desafiante tarefa de contar uma história todas as noites à sua irmã Clara de 4 anos. Tinha que desafiar os limites da sua imaginação e da sua capacidade de soletrar histórias criadas no momento. Nesse dia ouvira falar de Cuidados Paliativos! Percebeu que o tema era complexo, mas aos seus olhos era tudo muito (talvez demasiado simples).
— Clarinha, queres ouvir uma história de super-heróis? — perguntou Rodrigo.
— Com um mau muito mau?
— Muito mau mesmo. Chamava-se Indiferax, o Desumanizador. Vestia uma armadura cinzenta com alguns apontamentos de ferrugem como há na casa da avó Dores. O seu sorriso metia medo… (e não escovava os dentes desde que tu estavas na barriga da mamã). Ele tinha um superpoder… deixava uma névoa com cheiro a enxofre que fazia as pessoas esquecerem os nomes umas das outras. As pessoas deixavam de ser chamadas pelo nome – eram aquele senhor ou aquela senhora. Imagina no hospital onde o papá e a mamã trabalham eram o doente em vez do Sr. Luís e eram a cama 32.
— Que feio esse “Indiferente”! — disse Clara. O que é enxofre?
— Um dia vamos aos Açores e eu depois explico-te tudo. Não te distraias porque isto vai melhorar. Ele era pior que mau, era péssimo! Mas havia quatro super-heróis que lutavam com ele muitas vezes - Cora, Dignus, Humana e Nexo. Não tinham raios pelos olhos como vemos na televisão. Cada um tinha um poder especial. Queres te conte o poder de cada um?
Clara hesitou um bocadinho porque primeiro os nomes dos heróis (embora muito fixes) eram muito complicados. Ainda assim não desistiu! Manteve-se também ela motivada para perceber como estes novos heróis iriam vencer tão sinistro herói.
Rodrigo continuou - Cora tinha o poder da compaixão. Aprendi que compaixão é uma força muito poderosa - Quando alguém estava triste, com medo ou com dores, aproximava-se, escutava e perguntava: O que te ajudaria agora? A resposta podia ser silêncio ou algo do género “quero menos dor”, “fica aqui comigo, não me deixes” ou “quero contar-te a minha história”.
- Mano, a Cora é muito forte! – Exclamou Clara. Tu foste buscar este nome onde? Tem a ver com coração? – Continuou sem esperar a resposta. Gostava que ela tivesse umas botas cor-de-rosa e tivesse uma mota. Quando for grande quero ter uma mota como o tio.”
Rodrigo sorriu e respondeu: “Claro que sim. Foi mesmo assim que a imaginei. Aliás ela parece-se muito contigo mana”. Vamos continuar?
Clara na sua cama de princesa abanou com a cabeça que sim.
Continuou – “Dignus tinha o poder da dignidade. A sua capa brilhava quando alguém era tratado com respeito. Tinha uma bateria que ficava cheia cada vez que isso acontecia. Lembrava que cada pessoa tem nome, história, escolhas e coisas que lhe dão alegria, medo, como nós quando houve o apagão, lembras-te?”
Ela imaginou-o com quase dois metros, um sorriso branco tipo a publicidade da Colgate. Lembrava o Afonso da sua escola por quem tinha a modos que um fraquinho (uma pré-adolescente tem as suas fragilidades)!
- O grupo ainda não está completo mana – exclamou Rodrigo. Ainda faltam mais dois. Humana tinha o poder da humanidade. Criava pontes invisíveis entre a pessoa-doente, a família e os profissionais de saúde (bastava um ou outro movimento com as mãos). Quando alguém se sentia só, fazia aparecer uma cadeira extra ou alguém disposto a ficar mais um bocadinho. Por fim, o Nexo tinha o poder do conhecimento. O seu visor, quase com realidade virtual como vimos no museu na semana passada, ajudava a compreender sintomas que as doenças dão — dor, falta de ar, tristeza — e a procurar formas de lhes aliviar o sofrimento. Sabia, desde essa manhã, que os cuidados paliativos podem acompanhar tratamentos da doença e ajudar pessoas com diferentes doenças graves. Não era preciso esperar antes de serem estrelinhas.
— Então os heróis curavam toda a gente, certo? — perguntou Clara.
— Nem sempre. Alguns problemas não desapareciam mesmo com estes poderes. Mas mana… isso não queria dizer que não houvesse nada a fazer. Podiam aliviar o sofrimento, explicar o que estava a acontecer. Sei que isto é um pouco complicado para ti, mas quando fores crescida como eu vais perceber.
Um dia, Indiferax cobriu a cidade com aquela névoa malcheirosa. Ninguém perguntava nomes nem reparava em quem precisava de ajuda, as pessoas pareciam invisíveis umas para as outras! Pareciam ceguinhas como o Toby. O Indiferax ficava cada vez mais forte e poderoso cada vez que isso acontecia.
— E depois? — perguntou Clara, apertando o coelho com alguma ansiedade notória.
— Os heróis juntaram-se. Cora ouviu as pessoas; Dignus devolveu-lhes os nomes; Humana aproximou famílias e profissionais; Nexo explicou a todos como aliviar os sintomas. Em equipa, acenderam uma luz tão forte que a armadura de Indiferax começou a rachar. Conseguiram vencer a indiferença e colocá-lo dentro de uma caixa que mandaram para o fundo do armário do universo.
— Ganharam! — disse Clara entusiasmada.
— Ganharam porque ninguém tentou fazer tudo sozinho — explicou Rodrigo. Trabalhar em equipa é muito importante. Usaram os seus superpoderes - compaixão, dignidade, humanidade e conhecimento. E lembraram-se que cada pessoa continua a ser uma pessoa – eu sou o Rodrigo e tu a Clarinha! E seremos sempre o Rodrigo e a Clarinha.
- E o que aconteceu depois? Eles voltaram para a sua base secreta? – perguntou Clara já com os olhos semicerrados e a bocejar.
- Depois, cada um voltou à sua vida: também os heróis precisam de jantar, descansar e pagar as contas de casa. Rodrigo puxou a manta até ao queixo de Clara.
— Mana sabes qual é o maior superpoder de todos?
— Qual? – disse Clara com uma voz quase impercetível.
— Não é preciso ser um super-herói para reconhecer onde dói, onde há sofrimento como trabalhar em cuidados paliativos como o papá e a mamã fazem.
Que possamos ser mais Rodrigo e Clara e ver o mundo aos olhos de uma criança e a simplicidade do que o viver e o morrer representam reconhecendo que os verdadeiros heróis não usam capas, mas são pessoas a cuidar de pessoas independentemente de doenças, história de vida, religião, género, estrato socioeconómico. Que possamos deixar o mundo um pouco melhor do que encontramos quando cá chegamos.
