Cerca de 450 motoristas, 62 diagnósticos

O programa de rastreio contra a apneia do sono na estrada

Fala-se muito de velocidade, de distração, de excesso de trabalho. Fala-se pouco de um risco que começa muito antes de o motorista se sentar ao volante: a forma como dormiu na noite anterior. É esse o ponto de partida do ‘Wake Up’, um programa pioneiro de rastreio que, desde 2013, procura identificar precocemente casos de Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) entre motoristas de pesados e que, treze anos depois, apresenta resultados que demonstram o seu impacto.

A SAOS é uma perturbação respiratória caracterizada por interrupções repetidas, totais ou parciais, da respiração durante o sono, provocadas pelo colapso das vias aéreas superiores. As suas consequências vão muito além do simples cansaço: sonolência diurna excessiva, dificuldades de concentração, diminuição da capacidade de atenção e maior risco de doenças cardiovasculares são alguns dos efeitos mais documentados. Para quem passa longas horas ao volante, este quadro clínico pode traduzir-se diretamente em maior risco de acidente. Ainda assim, e apesar de afetar sobretudo homens de meia-idade, pessoas com excesso de peso e indivíduos com hipertensão ou diabetes, a doença permanece amplamente subdiagnosticada em Portugal, muitas vezes durante anos, sem que o próprio doente saiba que a tem.

Foi precisamente para colmatar esta lacuna que nasceu, em 2013, o projeto ‘Wake Up’, dedicado a motoristas profissionais, motivado pela identificação de sinais recorrentes de cansaço e fadiga nesta classe. O modelo é simples e replicável: começa com um questionário de rastreio, que permite identificar sintomas ou fatores de risco; segue-se, nos casos de suspeita clínica, um estudo do sono para confirmação; e, quando o diagnóstico é validado, o motorista é encaminhado para acompanhamento hospitalar especializado. Uma vez por ano, na altura do Dia Mundial do Sono, este rastreio é ainda alargado aos familiares diretos dos colaboradores, ampliando o impacto do programa muito além do universo dos próprios motoristas.

Os números acumulados ao longo deste período dão a este programa uma dimensão que raramente se vê em iniciativas de saúde ocupacional em Portugal. No total, 469 motoristas já responderam ao questionário de rastreio inicial. Desse universo, 146 apresentaram sinais suficientes para avançar para um estudo do sono e, em 62 casos, esse estudo confirmou um diagnóstico de SAOS moderada a grave. Atualmente, 45 motoristas encontram-se em tratamento ativo. Um dos indicadores mais relevantes é a evolução da adesão ao tratamento. Em janeiro de 2026, os motoristas em acompanhamento utilizavam-no, em média, 4 horas e 31 minutos por noite; hoje, esse valor subiu para 5 horas e 2 minutos. É um detalhe técnico, mas com um significado claro: cada minuto adicional de utilização do equipamento contribui para uma maior eficácia terapêutica e para melhores resultados clínicos.

Estes dados escondem, no entanto, um obstáculo que quase impediu o programa de existir: o medo. Nos primeiros anos, muitos motoristas recusavam-se a participar, temendo que um diagnóstico de SAOS pudesse ter consequências na sua atividade profissional. Foi precisamente essa desconfiança inicial que exigiu um trabalho contínuo de sensibilização ao longo de mais de uma década.

«Este projeto é um exemplo claro de como a saúde ocupacional pode e deve ser uma prioridade estratégica para as empresas. Não se trata apenas de identificar uma doença, mas de criar uma cultura de confiança em que os colaboradores sintam que o objetivo é protegê-los, cuidar do seu bem-estar e nunca penalizá-los», afirma Daniela Santos, communication and marketing manager na Patinter.

«No início, o maior desafio não era clínico, era humano: convencer os motoristas de que fazer o rastreio não os colocava em risco profissional, pelo contrário. Foi um trabalho de proximidade, feito ao longo de anos, que hoje se reflete numa adesão muito superior à que tínhamos no arranque do programa», acrescenta Dr. Vasco Jorge, médico especialista em medicina do trabalho na Patinter.

Do outro lado, na consulta, a experiência clínica confirma a dimensão do problema que este tipo de rastreio ajuda a resolver. «A apneia do sono é uma das patologias mais subdiagnosticadas que vemos na prática clínica, e o seu impacto na segurança rodoviária continua a ser subestimado, tanto pelos próprios doentes como pela sociedade em geral. Um programa de rastreio como o que tem sido implementado pela Patinter permite-nos chegar ao diagnóstico antes de as consequências para os doentes e para os restantes automobilistas se verificarem. Desta forma, conseguimos zelar pela saúde do motorista e pela segurança de todos os que partilham a estrada com ele», explica o Dr. António Reis, Diretor do Serviço de Pneumologia na ULS Viseu Dão-Lafões.

A vertente técnica do programa também tem evoluído ao longo dos anos, acompanhando os avanços no diagnóstico e tratamento da doença. «Ao longo destes 13 anos, temos vindo a aperfeiçoar continuamente o processo de rastreio e acompanhamento, tornando-o cada vez mais acessível para os motoristas. A subida da adesão média, de 4 h 31 min para 5 h 02 min por noite, é um dos sinais mais concretos de que este trabalho está a dar resultado», refere Ana Macedo, Clinical Specialist na Linde Saúde.

Mais de uma década depois do seu início, o ‘Wake Up’ representa um caso exemplar de continuidade e consistência na área da saúde ocupacional, construído sobre a articulação entre uma empresa de transportes, uma equipa de medicina do trabalho, um prestador de saúde especializado e uma equipa hospitalar de pneumologia. É um modelo cuja aplicabilidade vai muito além do setor dos transportes: qualquer organização com colaboradores em turnos exigentes, condução prolongada ou elevados níveis de fadiga pode encontrar aqui um ponto de partida.

 

Fonte: 
Burson
Nota: 
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