Fragilidade, tecnologia e valor na abordagem da pessoa mais velha em debate

“Procuramos captar três conceitos que são cada vez mais pertinentes atendendo ao contexto social e demográfico que vivemos: fragilidade, tecnologia e valor”, explica Pedro Marques, membro da comissão organizadora. A população geriátrica representa uma proporção crescente da sociedade, vive mais anos e, em muitos casos, com níveis significativos de fragilidade, colocando novas exigências aos profissionais e sistemas de saúde.
A realidade hospitalar já traduz esta mudança, com enfermarias de Medicina Interna que recebem doentes muito idosos e frágeis. Segundo Pedro Marques, uma abordagem de acordo com os princípios da Geriatria pode melhorar vários indicadores e demonstrar o valor desta valência.
A tecnologia será outro dos eixos da reunião. Embora possa trazer benefícios, também pode criar barreiras quando não é desenvolvida tendo em conta as características das pessoas mais velhas. “É essencial que os avanços tecnológicos, independentemente do ramo em que surgem, acompanhem as características e necessidades dos utentes mais frágeis”, defende. Na saúde, a tecnologia deverá igualmente adaptar-se à fragilidade, contribuindo para a manutenção da saúde, da autonomia e para a criação de valor.
A síndrome de fragilidade terá particular destaque, com uma abordagem centrada na pessoa como um todo. “Estas pessoas são mais do que fragilidade e há muitas questões não diretamente clínicas a serem ponderadas”, afirma Pedro Marques. A fragilidade não deve ser entendida apenas como consequência da idade, estando relacionada com as comorbilidades, as características individuais e o impacto da própria fragilidade.
Um painel de especialistas de áreas como cuidados paliativos, hospitalização domiciliária, bioética, nutrição e doença vascular pulmonar discutirá diferentes dimensões da abordagem da pessoa com fragilidade. O programa inclui ainda sessões sobre síndromes geriátricas, idadismo e reorganização dos circuitos hospitalares. “Sem os profissionais conscientes do que é o idadismo, das suas consequências, de como o praticam constantemente no seu dia a dia e de como podem melhorar, é muito difícil fazer a mudança dos cuidados de saúde para cuidados mais ajustados e adequados ao mais velho”, considera.
Portugal enfrenta uma transformação demográfica que coloca novos desafios à organização dos serviços de saúde. Para Pedro Marques, a abordagem global da pessoa mais velha é complexa e multidisciplinar e exige a adaptação dos modelos de cuidados. Entre as mudanças necessárias está uma maior valorização das síndromes geriátricas, que podem passar despercebidas sem formação específica. “A sua correta identificação e abordagem em conjunto com a patologia aguda ou com a gestão da doença crónica é basilar para uma abordagem completa da pessoa mais velha”, sublinha.
A identificação precoce da fragilidade será igualmente abordada. “Nem toda a população geriátrica é frágil”, lembra Pedro Marques, mas uma situação de pré-fragilidade não identificada pode evoluir rapidamente, após uma doença aguda, para fragilidade moderada ou grave. O diagnóstico deverá recorrer a instrumentos adequados e ser realizado por profissionais preparados para os interpretar, evitando a utilização automática ou descontextualizada de escalas de fragilidade, que pode conduzir a decisões inadequadas. Uma vez identificada, a intervenção deve ser adaptada ao grau e às características de cada pessoa.
A organização dos cuidados é também fundamental para prevenir o declínio funcional e a perda de autonomia. “É essencial repensarmos os circuitos hospitalares e de ambulatório clássicos, a forma como praticamos Medicina e como articulamos as unidades que se encontram dentro dos serviços hospitalares”, afirma. Neste contexto, considera particularmente importante retirar, sempre que clinicamente possível, as pessoas mais velhas do circuito do Serviço de Urgência, reduzindo o risco de iatrogenia e privilegiando vias alternativas já existentes, nomeadamente através da consulta e do hospital de dia.
A reorganização deverá reforçar a articulação entre cuidados de saúde primários, ambulatório, consulta, hospital de dia e hospitalização domiciliária, para que estas vias assumam um papel mais central na resposta à pessoa mais velha. A formação em Geriatria deverá acompanhar esta mudança e abranger todos os profissionais de saúde, “não apenas os médicos”.
A formação e a investigação são igualmente essenciais para o desenvolvimento da Geriatria. A investigação permite testar novas abordagens, incluindo através da tecnologia na prevenção da malnutrição, sarcopénia, quedas, solidão e problemas sociais. A formação deverá ainda permitir reconhecer situações que beneficiem de uma abordagem geriátrica e compreender quando deve ser feita referenciação para um Geriatra. “Desta forma conseguimos realmente abordar o mais velho como um todo e não apenas as suas comorbilidades, desenhando planos que vão de encontro à pessoa e não apenas à doença”, explica.
Para Pedro Marques, uma das principais mensagens da reunião é a necessidade de olhar para cada pessoa mais velha como um indivíduo com características próprias, abandonando uma abordagem baseada exclusivamente na idade cronológica. “O mais velho não é limitado por um número a partir do qual não há nada a oferecer ou cuja abordagem é semelhante à do adulto”, sublinha. Esta perspetiva implica trabalho multidisciplinar e compreender o envelhecimento como um processo contínuo: “O envelhecimento é um processo contínuo que não começa aos 65 anos”.
A reunião pretende promover a reflexão sobre sistemas de saúde mais eficazes, capazes de identificar as necessidades de cada pessoa e encaminhá-la para a resposta mais adequada, dos cuidados de saúde primários à consulta, hospital de dia, internamento eletivo, Serviço de Urgência ou hospitalização domiciliária.
Pedro Marques destaca, por fim, o papel da Geriatria na resposta aos desafios atuais: “Há um lugar muito relevante para o geriatra na gestão do utente mais velho e sem a abordagem deste profissional o utente fica subgerido, algo desnecessário atendendo à realidade atual do país.”
A 9.ª Reunião do NEGERMI pretende, assim, discutir não apenas as doenças e síndromes da população geriátrica, mas também a adaptação dos sistemas de saúde a uma realidade demográfica em transformação, valorizando a autonomia, a individualidade e a complexidade da pessoa mais velha.
Inscrições aqui - https://www.spmi.pt/9a-reuniao-do-nucleo-de-estudos-de-geriatria/
