Porque é que algumas pessoas não conseguem descansar nem desligar durante as férias

Esta sensação surge quando o valor pessoal é associado de forma excessiva ao rendimento. Nestes casos, relaxar é interpretado como uma concessão que deve ser justificada e não como uma necessidade básica para recuperar. Este padrão observa-se com frequência em perfis muito responsáveis, habituados a exigir muito de si próprios e com dificuldades em impor limites à disponibilidade laboral.
“O sentimento de culpa não está nas férias, mas sim na crença de que parar equivale a falhar. Essa ideia ativa uma espécie de vigilância interna que faz com que, embora a pessoa esteja fora do trabalho, continue a rever mentalmente o que está pendente ou a pensar que deveria estar a fazer algo útil”, explica Soledad Scarcella, psicóloga da Blua da Sanitas, empresa ibérica pertencente à seguradora Bupa.
Esta forma de encarar o descanso faz com que os dias livres percam parte da sua função reparadora. “As férias não produzem recuperação por si só. O que permite recuperar é reduzir a exigência mental habitual. Quando a pessoa mantém a mesma pressão interna do que durante o resto do ano, o organismo continua a funcionar em estado de alerta e o descanso perde grande parte do seu efeito reparador”, acrescenta Soledad Scarcella.
Perante esta situação, os especialistas alertam para as consequências no bem-estar psicológico de manter a autoexigência durante as férias:
- Sono menos reparador: A ativação mental sustentada dificulta o adormecer e, em alguns casos, provoca despertares frequentes. Por isso, embora se durmam mais horas, pode surgir uma sensação de cansaço ao acordar.
- Maior irritabilidade: Quando os dias livres são vividos a partir da obrigação, qualquer interrupção ou plano imprevisto pode gerar impaciência. A mente continua a funcionar em modo tarefa, mesmo num período pensado para recuperar.
- Dificuldade em desfrutar: A pressão para aproveitar o tempo reduz a atenção dedicada ao que é agradável. Atividades simples como ler, passear ou não fazer nada podem ser vividas com desconforto se forem interpretadas como tempo desperdiçado.
- Cansaço emocional: Manter a exigência interna também durante as férias impede que o sistema psicológico abrande o ritmo, o que aumenta a sensação de saturação e desgaste.
- Problemas de concentração no regresso: A falta de uma recuperação real costuma fazer com que o regresso ao trabalho seja enfrentado com menor clareza mental, mais dispersão e pior tolerância à pressão.
“Relaxar não significa desinteressar-se das responsabilidades. Significa permitir que o organismo recupere recursos para poder responder depois com mais estabilidade. Quando a auto exigência impede o descanso mesmo em períodos destinados à recuperação, pode ser útil consultar um profissional para identificar que crenças ou hábitos estão a manter esse mal-estar. Neste sentido, a videoconsulta permite aceder a apoio psicológico também durante as férias, sem necessidade de esperar pelo regresso”, conclui a psicóloga da Blua da Sanitas.
